A Biodiversidade e a Pluralidade -
Nota sobre um texto de Tomás de Aquino.


Rogério Lacaz-Ruiz

Prof. .Dr. FZEA/USP
roglruiz@usp.br

 

"Bonum gentis est divinus quam bonum unius." (Ethic. 1; 1094b, 9-10)
"O bem da nação é mais excelente que o bem de um só."

 

Introdução

     Jostein Gaarder, em sua história romanceada da filosofia, explica para a pequena Sofia, os ensinamentos dos principais filósofos ocidentais. Tomás de Aquino (1225-1274) é um deles, e foi o maior e o mais importante da Alta Idade Média. "São Tomás de Aquino quer mostrar que existe apenas uma verdade. Quando Aristóteles nos mostra alguma coisa que reconhecemos como certa com nossa razão, isto não contradiz a doutrina cristã. Uma parte da verdade nós podemos reconhecer, portanto, através da razão e da observação. Por exemplo, aquelas verdades a que Aristóteles se refere quando descreve o reino vegetal e animal ... a filosofia de Aristóteles também pressupunha a existência de um Deus." (GAARDER, 1997.)

     Ao analisar os temas da biodiversidade e pluralidade em Tomás de Aquino, é importante particularizar os seres vivos nos reinos vegetal e animal, sob a luz do conceito de criação.

     Para introduzir o tema da biodiversidade foi ressaltada a diversidade existente nas criaturas. Após a tradução do texto de Tomás de Aquino, foram feitas algumas considerações, principalmente para o homem, ressaltando a pluralidade e a desejável convivência dentro das diferenças.

 

A biodiversidade biológica


     Auguste de Saint-Hilaire esteve no Brasil de 1816 a 1822. Levou um herbário para a Europa com 30.000 espécimes contendo mais de 7.000 espécies de plantas. No prefácio de sua obra Voyage dans le District des Diamans et sur le Littoral du Brésil, ele afirma: "Dar-me-ei por feliz se os meus trabalhos puderem ser úteis às ciências a que consagrei toda a minha existência." (SAINT-HILAIRE, 1974.) O simples enunciado desses dados numéricos, permite recordar o óbvio: há uma enorme biodiversidade vegetal no país...

     Também no mundo animal é possível verificar a biodiversidade. Particularmente dentro da microbiologia zootécnica, um dos ambientes mais estudados é o rúmen, também conhecido como pança. É justamente neste pré-estômago onde ocorrem interações entre microrganismos que podem chegar a contagens superiores a 1x1010 unidades formadoras de colônia por grama de conteúdo ruminal. (HUNGATE, 1960).

     Os microrganismos ruminais degradam dezenas de substratos, particularmente a celulose, permitindo assim o aproveitamento de resíduos orgânicos que de outra forma seriam lentamente degradados na natureza. Estes microrganismos incluem as bactérias, os protozoários e os fungos, que crescem em um ambiente anaeróbio estrito, e estão localizados na parede ruminal, no líqüido ou aderido às partículas dos alimentos. Esta biodiversidade de microrganismos no rúmen garante, dentro de uma interação simbiótica, a formação de carne a partir dos vegetais.

     A natureza está repleta de exemplos de interações entre os seres vivos, e assim, biodiversidade e pluralidade são duas palavras ecológica e sociologicamente "corretas" nos documentos científicos e da grande imprensa.

     No aspecto macroscópico por exemplo, é mais agradável visualizar uma selva amazônica do que uma cultura de algodão - ambas têm a sua beleza natural -; mas a diversidade atrai de tal forma, que nossa tendência é a de contemplar por um período maior a selva. A monocultura tem talvez a sua riqueza pragmática; a Amazônia é um patrimônio universal, um santuário da natureza.

 

Biodiversidade criada

     Se pensarmos no plano molecular, os elementos químicos que formam um ser vivo, são capazes de estar organizados de tantas formas diferentes, que fica difícil definir a vida somente com conhecimentos da biologia.

     Assim podemos observar, que a exclusão do termo metafísico criação, representa um reducionismo teórico. (JOLIVET 1975.) "Muitos cientistas, quando usam o nome de Deus, estão mais se valendo de uma metáfora de entendimento imediato do que reverenciando uma figura religiosa. No caso de Albert Einstein, o maior gênio científico deste século, talvez fosse mais que isso. Em 1929 ele confessou a um assistente que, no fundo, seu único interesse era descobrir 'se no instante da criação Deus teve escolha de fazer um universo diferente e, caso tenha tido opção, por que é que decidiu criar este universo singular que conhecemos e não outro qualquer'. Numa época em que cientistas e religiosos só se davam as mãos por boa educação, Einstein não duvidava da origem divina do universo. Sua dúvida era saber se Deus tivera escolha. Einstein achava que a ciência sem uma filosofia não vai a lugar nenhum. Pesquisadores de primeira linha como Hawking, Smoot e Lederman não têm seu mesmo pendor religioso, mas estão igualmente assombrados por mistérios que até hoje foram tratados pelas religiões. Eles também querem saber o que havia antes do Big Bang e o que virá depois. Inquietam-se em descobrir qual o sentido da existência humana e o objetivo da vida na Terra. As leis naturais, perguntam-se, podem esconder algum ensinamento moral e ético para o homem?" ... "Deus pode ser sutil, mas não malicioso - afirmou Einstein. Um espírito desarmado, olhando em perspectiva alguns dos achados mais formidáveis da ciência deste século da razão e da tecnologia, pode concluir que quase todos eles têm sua contraparte na Bíblia, diz o escritor científico americano Robert Wright. As soluções científicas modernas para o nascimento do universo, a origem da vida e o surgimento da raça humana são inegavelmente semelhante aos relatos bíblicos como os contidos no livro do Gênesis." (ALCÂNTARA, 1996.)

     Assim, a manutenção do genoma das diferentes espécies de seres vivos, representa uma atividade necessária, diante de tanta destruição, e é semelhante à guarda de um tesouro para a humanidade por parte dos cientistas. Destruir a biodiversidade é destruir a natureza, as criaturas e a criação.

 

O porquê da biodiversidade segundo Tomás de Aquino

     Muito tempo antes de Darwin ou Einstein, em torno de 1260, Santo Tomás escreveu a Suma contra os gentios, e no livro II, capítulo 45, encontramos um raciocínio lógico para abordar "a verdadeira causa primeira da distinção entre as coisas" - quae sit prima causa distinctionis rerum sucundum veritatem.

     Da leitura cuidadosa do texto, é possível extrair lições de lógica, filosofia, sociologia, e porque não, ecologia.

"Quanto mais alguma coisa é semelhante a Deus em vários aspectos, tanto mais perfeitamente se aproxima à sua semelhança. Ora, em Deus existe a bondade e a difusão da bondade a outros e, assim, a perfeição da coisa criada se assemelha mais a Deus não somente se for boa, mas se também puder agir para o bem de outros: assim é mais semelhante ao sol o que dá luz e ilumina do que aquilo que só tem luz. Ora, a criatura não pode fazer o bem para outra a não ser que dentre as coisas criadas exista pluralidade e desigualdade: o agente é diferente do paciente, e mais nobre. Assim, foi oportuno, para que houvesse uma perfeita imitação de Deus, que houvesse diversos graus nas criaturas.

A existência de muitos bens finitos é melhor do que a de um só bem finito: pois eles possuem o bem deste e ainda mais. Mas toda bondade da criatura é finita e fica aquém diante da infinita bondade de Deus. Assim é mais perfeito o universo criado com vários graus de coisas do que com um só.

Ora, ao Sumo Bem compete fazer o que é melhor e, assim, foi-Lhe conveniente fazer vários graus de criaturas.

A bondade da espécie supera a bondade do indivíduo como o formal supera o material. Assim, mais contribui para a bondade do universo a multiplicidade de espécies que a multiplicidade de indivíduos de uma mesma espécie. É assim pertinente a perfeição do universo não somente que existam muitos indivíduos, mas também o fato de haver diversas espécies e em conseqüência, diversos graus nas coisas criadas.

Todo aquele que age pelo intelecto, representa a espécie do seu intelecto na sua obra: assim como o artista faz algo parecido a ele. Deus ao fazer as criaturas, atuou pelo intelecto, e não por necessidade da natureza. Portanto a idéia do entendimento divino está plasmada na criatura que Ele fez. Mas como o intelecto que entende muitas coisas não pode ser representado suficientemente por uma só, o intelecto divino se representa mais perfeitamente produzindo muitas coisas do que se produzisse uma só.

Não deve faltar na obra de um sumo e bom artífice a máxima perfeição. Assim como o bem da ordem de diversos seres é melhor que o bem de um só - por ser o elemento formal relativo aos entes singulares como a perfeição do todo a suas partes - não devia faltar o bem da ordem na obra de Deus. Mas este não poderia dar-se, sem a diversidade e desigualdade das criaturas.

É assim que a diversidade e desigualdade das coisas não procedem do acaso, nem da diversidade da matéria; nem pela própria intervenção de algumas causas ou méritos, mas do próprio querer de Deus, que quis dar às criaturas a perfeição que elas podem ter.

Assim foi dito (Gen. 1, 31) "Deus viu que tudo que havia feito era muito bom"; mas de cada coisa singular diz apenas que é boa. Porque cada coisa em si possui uma natureza boa, mas todas juntas são muito boas para a ordem do universo, que é a última e mais nobre perfeição das coisas."

 

Considerações finais


     "A criatura não pode fazer o bem para outra a não ser que dentre as coisas criadas exista pluralidade e desigualdade: o agente é diferente do paciente e mais nobre". Comparar os homens entre si pode ser algo desagradável, mas reconhecer a diferença e sentir-se ora agente, ora paciente, nos faz viver a solidariedade.

     O respeito às idéias dos homens, em sua grande maioria opináveis, garante a pluralidade do pensar e do agir. E a pluralidade existente na sociedade é justamente o que lembra MARITAIN (1945). Para ele, existem quatro caracteres de uma sociedade de homens livres: é personalista (formada por pessoas); comunitária (porque o homem é um ser social); teísta (pois se sabe formada por criaturas) e pluralista, "o que quer dizer: compreende que o desenvolvimento da pessoa humana reclama normalmente uma pluralidade de comunidades autônomas, com seus direitos, suas liberdades e sua autoridade próprios."

     In pluribus unum! Muitas espécies num só planeta. Diversidade de opiniões e ações dentro da espécie humana. Muitos foram os cientistas que conseguiram ver, e até mesmo classificar estas diferenças. THOMSON (1929) descreveu três tipos de caráter predominantes no homem: o prático, o sentimental, e o científico, cada um deles com suas subdivisões. E afirmou: "Correspondem, simbolicamente, a mão, coração e cabeça, e todos são igualmente necessários e desejáveis".

     PASCAL (1966) no primeiro ponto de suas Pensées mostra a diferença entre os espíritos de geometria e o espírito de finesse. "O que faz, portanto, que certos espíritos sutis não sejam geômetras é que eles não podem de todo voltar-se para os princípios da geometria; mas o que faz que alguns geômetras não sejam sutis, é que não vêem o que está em frente deles, e que estando acostumados aos princípios nítidos e grosseiros da geometria e a só raciocinar depois de terem visto bem e bem manejado os seus princípios, perdem-se nas coisas da finura, onde os princípios não se deixam manejar de igual modo. São apenas entrevistos; mais pressentidos do que vistos; é preciso um esforço infinito para torná-los sensíveis a quem não os sente por si próprios: são coisas de tal maneira delicadas e tão numerosas, que é necessário um sentido muito delicado e muito preciso para senti-las, e para julgar retamente e justamente de conformidade com esse sentimento, sem poder o mais das vezes demonstrá-las em ordem, como na geometria, porque não lhes possuímos do mesmo modo os princípios, e tentá-lo seria um não acabar mais. É preciso, num instante, ver a coisa num só golpe de vista, e não pela marcha do raciocínio, ao menos até certo grau. E, assim, é raro que os geômetras sejam sutis e que os sutis sejam geômetras, porque os geômetras querem tratar geometricamente essas coisas sutis e tornam-se ridículos, procurando começar pelas definições e em seguida pelos princípios, o que não é a maneira de proceder nessa espécie de raciocínio. Não quer isso dizer que o espírito não o faça; mas ele o faz tacitamente, naturalmente e sem arte, pois a expressão se adapta a todos os homens, e o sentimento só pertence a poucos homens."

     Se no primeiro caso, Thomson enxerga a necessidade da pluralidade (necessários) e algo inclusive que deve ser querido (desejáveis), Pascal procura ressaltar as diferenças sem excluí-las.

     Santo Tomás, esclarece de modo singular: "Mas como o intelecto que entende muitas coisas não pode ser representado suficientemente por uma só, o intelecto divino se representa mais perfeitamente produzindo muitas coisas do que se produzisse uma só".

     A sociedade possui o seu próprio ser, e o indivíduo se subordina a ela no seu querer. Os conceitos de sociedade e de indivíduo são distintos, e ao mesmo tempo diferem dos coletivos empregados para grupamentos animais. Quando se fala de sociedade das abelhas, se antropomorfiza o conceito, incluindo o da biodiversidade. Aristóteles, nos deixou escrito em seu livro A Política, que "Claramente se compreende a razão de ser o homem um animal sociável em grau mais elevado que as abelhas e todos os outros animais que vivem reunidos" (ARISTÓTELES, s.d.)

     O convívio social nos obriga a muitas limitações e nos propicia muitos benefícios, mas às vezes reparamos mais nos deveres que nos são impostos do que nos direitos como indivíduo.

     O exercício mental de pensar quantitativa e qualitativamente na nossa dependência dos outros indivíduos, teria como conseqüência a gratidão. Se muito recebemos, muito - pelo menos por justiça - deveremos dar.

     Mas esta "troca" implica em diferença, que também é biodiversidade. As vezes, o relacionamento entre as pessoas se dá por semelhanças, mas o aprofundamento ocorre quando se estabelece trocas, onde um e outro recebem e oferecem. Toda tendência para uniformizar - colocar numa única forma - limita o intercâmbio, tende a destruir esta possibilidade do convívio em sociedade. Ao abordar o tema da Igualdade e desigualdade dos homens MILLÁN-PUELLES (1976) afirma que o fundamento da convivência é a necessidade que temos de nos ajudarmos uns aos outros para adquirir os bens que todos precisamos. Somos iguais pois todos temos necessidades essencialmente iguais; enquanto que as desigualdades (morais, fisicas, de inteligência, temperamento, sensibilidade, etc) podem ser de de duas espécies ou classes: naturais ou congênitas e outras voluntárias ou involutariamente adquiridas. E nem uma nem outra, exclui a dignidade da natureza humana.

     Por vezes, quando as pessoas não tem o mesmo parecer, surgem profundas divergências. O diálogo acirrado pode se assemelhar a uma reação antígeno-anticorpo; há um impasse e resulta, pelo menos - se há uma mínima disposição de ouvir - numa troca de opiniões.

     Seguindo esta linha de raciocínio, o verdadeiro diálogo faz com que um mostre ao outro, de modo razoável, que o que ele pensa é melhor, ou vice-versa. O diálogo finaliza quando se consegue diferenciar o que é essencial do circunstancial, e a constatr que, muitas vezes, a diferença se dá em termos circunstanciais. Neste caso, as palavras proferidas no diálogo funcionam como um "material genético de vírus inoculado", e que poderá ser usado ou não por uma das partes.

     Manter o espírito aberto diante das diferentes tendências, e ter a medida para preservar a natureza social e individual, é um modo de se prevenir contra a tirania que cada qual pode carregar dentro de si. Os limites costumam se situar muito além dos muros do individualismo e do permissivismo daqueles que não acreditam nos limites impostos pela realidade. Se não se aceitam esses limites (isto é, se não se aceita a realidade), não há biodiversidade e o indivíduo "se basta" e a sociedade torna-se, para ele, um peso, sem razão de ser...

     O fato de existir o mundo tal como o conhecemos, e uma tendência a destruir regiões que abrigam uma rica biodiversidade, nos faz reagir. Imaginar por um lado a destruição de um patrimônio genético e o desaparecimento de espécies por outro, nos faz pensar também do ponto de vista sociológico. Quantos da nossa própria raça humana não possuem o mínimo que exige a dignidade da espécie.

     Assim se pode concluir que, apesar das desigualdades, precisamos repensar cada indivíduo não como número - ente de razão - e sim como ser, e ser humano. Se alguém se sente dotado de potencialidades, que as atualize. Desta maneira estaremos atuando segundo a nossa natureza. Se possuir dons é algo natural ao homem, omissão é não utilizá-los; e atuar assim, é ir contra a natureza.


Referências Bibliográficas

ALCÂNTARA, E. "A grande pergunta. Ultrapassando os limites da ciência, físicos e biólogos enfrentam a questão: existe um Deus?" Veja, ed. 1430, v.29, n.6, p.72-76, 1996.

ARISTÓTELES A Política, Livro Primeiro, Cap.I, § 10. Rio de Janeiro: Edições de Ouro, s.d., p.18.

AQUINO, S.T. "Cuál sea la verdadera causa primera de la distinción de las cosas". Livro II, Cap. 45 da Suma contra los gentiles. Madrid: BAC, 1967, p.516-519.

GAARDER, J. "A Idade Média", in O mundo de Sofia. São Paulo: Cia das Letras, 1997, p.198-200.

HUNGATE, R.E. "Symposium: Selected topics in microbial ecology I. Microbial Ecology of the Rumen". Bacteriologiacal Reviews, v.24, n.4, p.353-364, 1960.

JOLIVET, R. Vocabulário de Filosofia, Rio de Janeiro: Agir, 1975, p.59, 170.

MARITAIN, J. Os direitos do homem e a lei natural, Rio de Janeiro: Livraria José Olympio. 1945, p.31-33.

MILLÁN-PUELLES, A. "Persona y Sociedad" in: Persona humana y justicia social, 3ed. Cap.II, Madrid: Ediciones Rialp S.A. 1976, p.23-39.

PASCAL, B. Pensamentos, I, 1. Rio de Janeiro: Edições de Ouro. 1966, p.71-72.

SAINT-HILAIRE, A. Viagem pelo distrito dos Diamantes e litoral do Brasil v.5, Belo Horizonte: Ed. Itatiaia/Edusp., 1974 p.9-11.

THOMSOM, J.A. Introducción a la Ciencia, 2ed. Colección Labor, Sección I Ciencias Filosóficas, n.66. Barcelona: Editorial Labor S.A., 1929, p.12-13.