Conferências de Filosofia -
 Alguns Textos - I

Luiz Jean Lauand
Fac. de Educação USP 
jeanlaua@usp.br

Ao final desta edição-99 Master em Jornalismo para Editores (em que tive a honra e o prazer de dialogar com tão ilustres jornalistas), apresento aqui, com saudade e agradecimento, uma seleção - um tanto desordenada - de algumas passagens de nossas conferências de filosofia, que possam servir, ao mesmo tempo de registro e lembrança. E por falar em saudade, comecemos com:

1. Tomás de Aquino e a saudade

 

"Saudade..., delicioso pungir de acerbo espinho" (Almeida Garret)

O pensamento e a vida estão mais ligados à linguagem do que em geral supomos. A força viva da palavra não só transmite, mas até mesmo gera e preserva, em interação dinâmica, o que pensamos e sentimos, o que podemos pensar e sentir... Sem a palavra, nossa percepção da realidade é confusa ou nem sequer chega a ocorrer.

Valem para toda a realidade humana as considerações sobre a "latência", que Moles tece em seu estudo O Kitsch. Valendo-se de uma metáfora fotográfica, ele fala de uma revelação das impressões confusas(1), pelo surgimento de um vocábulo: "O surgimento nas línguas germânicas de um termo preciso ("Kitsch") para designá-lo levou-as a uma primeira tomada de consciência: através da palavra, o conceito torna-se passível de apreensão, e manipulável... O trajeto científico para conhecer, começa por nomear"(2). De fato, sem a posse da palavra Kitsch é-nos muito mais difícil reparar em que há, no fundo, qualquer coisa de comum entre o pingüim da geladeira, o anãozinho do jardim e oquadro de cores fosforescentes... É precisamente neste ponto fundamental da educação que Pieper insiste em Das Viergespann(3): a interação entre a possibilidade de percepção (e vivenciamento da realidade moral) e a existência de linguagem viva.

O empobrecimento do léxico é assim, hoje, um dos principais problemas da educação, na medida em que gera um círculo, literalmente, vicioso: a falta de linguagem viva embota a visão e o vivenciamento da realidade; o definhamento da realidade esvazia (ou deforma) as palavras... Faltam-nos os conceitos, faltam-nos os juízos, falta-nos acesso à realidade.

Certamente ocorre, antes da formação do conceito em nossa mente, aquilo que Tomás de Aquino chama de collatio, um ajuntamento e comparação de impressões, uma pré-abstração, feita pela "capacidade cogitativa" (para usar uma vez mais a linguagem do Aquinate). Contudo, enquanto não há conceito e palavra, andamos inquietos à busca deles, ou passamos à margem da realidade sem nem sequer a ver. Aquela inquietude que se manifesta tão claramente na teimosia com que nos esforçamos por trazer à memória um nome esquecido...

A interação palavra-vida torna-se ainda mais decisiva quando se trata de atingir sentimentos mais sutis e complexos do coração humano: neste caso, cada povo costuma gerar a palavra que se apropria do sentimento que é mais conatural e, reciprocamente: o sentimento se torna como que conatural porque a palavra se apodera do falante desde a infância.

Nesse sentido, Portugal e Brasil têm a sua palavra por excelência, que certeiramente penetra nos meandros do coração e atinge aquele complexo agridoce que chamamos saudade. Como, por exemplo, traduzir para outra língua o verso da canção de Isolda: "Das lembranças que eu trago na vida você é a saudade que eu gosto de ter...?"

Tomás, no século XIII (quando mal havia português e não estava formada a palavra saudade), fez um agudo diagnóstico - em que inclui até a explicação causal - da saudade: a dor - diz ele - é por si contrária ao prazer, "mas pode acontecer que um efeito colateral (per accidens) da dor seja deleitável, como quando produz a recordação daquilo (pessoa, terra, etc.) que se ama e faz perceber o amor daquilo por cuja ausência nos doemos. E assim, sendo o amor algo deleitável, a dor e tudo quanto provém desse amor também o serão" (I-II, 35, 3 ad 2).

Se a caracterização em si já é perfeita, ela se mostra mais genial ainda quando nos lembramos que São Tomás não era português nem brasileiro...

 

2. O homem, esse esquecedor

O homem é um ser que esquece!(4)

Se perguntássemos à milenar tradição do pensamento pelos fundamentos filosóficos da educação, os antigos dar-nos-iam esta sentença - tão simples - para meditar: "O homem é um ser que esquece"!

No Ocidente, já entre os gregos (de Hesíodo a Aristóteles, de Safo a Platão), encontramos constantemente um extraordinário papel dado à memória (por vezes personificada em Mnemosyne), na antropologia e na educação.

Um dos pontos altos dessa tradição dá-se - 500 anos antes de Cristo - com o poeta grego Píndaro. Seu Hino a Zeus - um poema que é, ao mesmo tempo, um tratado de educação - parece(5) apresentar todas as características de uma das maiores obras-primas de todos os tempos.

A cena descrita por Píndaro é clara: Zeus resolve intervir no caos. Toda a confusão e deformidade vai, então, dando lugar à harmonia e à ordem: kosmos. E quando, finalmente, o mundo atinge seu estado de perfeição (estreando a terra, os rios, os animais, o homem...), Zeus oferece um banquete para mostrar aos demais deuses - atônitos ante tanta beleza - a sua criação...

Mas, para surpresa geral, um dos imortais pede a palavra e aponta a Zeus um grave e inesperado defeito: estão faltando criaturas que louvem e reconheçam a grandeza divina desse mundo...

...Pois o homem é um ser que esquece! O homem, ele que foi agraciado pela divindade com a chama do espírito, o homem, afinal, saiu mal feito, mal acabado, ele tende ao embotamento, à insensibilidade... ao esquecimento!

É a partir dessa constatação - dessa trágica constatação de nossa condição ontológica (também ela, hoje, esquecida...) - que se edifica toda a educação ocidental.

As musas (filhas de Mnemosyne), as artes, são já uma primeira tentativa de Zeus para remediar essa situação: elas foram dadas pela divindade ao homem como companheiras, para ajudá-lo a lembrar-se... E é por essa mesma razão que os grandes pensadores da tradição ocidental consideravam as descobertas filosóficas, não tanto um deparar-se algo novo ou insólito, mas, precisamente, descobertas: trazer à tona algo já visto, já sabido, mas que, por essa alienante tendência para o esquecimento, não permanecera na consciência. Assim, a missão profunda da educação não é a de apresentar-nos o novo, mas, algo já experimentado e sabido que, no entanto, permanecia inacessível: precisamente o que se expressa com a palavra lembrar.

Claro que ao afirmar o caráter esquecidiço do homem, não estamos dizendo que ele se esqueça de tudo, mas, principalmente - e é até uma constatação de ordem empírica - do essencial. Pois, na verdade, o homem lembra-se de muitas coisas: naturalmente, ele, "criatura trivial" (como diz Guimarães Rosa), não se esquece da data do depósito bancário, não se esquece de comprar sua revista predileta, da final do campeonato, nem das comezinhas realidades que compõem nosso rotineiro quotidiano. Esquece-se, sim, da sabedoria do coração, do caráter sagrado do mundo e do homem...

Se esse "jeito esquecido de ser" é tido, como dizíamos, no Ocidente, por uma característica básica do ser humano; na tradição oriental (do próximo ao extremo Oriente: nitidamente em Confúcio, por exemplo), por sua vez, tal consideração é ainda mais radical.

Na língua árabe, desde tempos imemoriais, a própria palavra para designar o ser humano é Insan. A surpreendente profundidade desse vocábulo torna-se manifesta quando dirigimos nossa atenção para seu significado literal: Insan - deriva do verbo nassa/yansa, esquecer -, e significa: aquele que esquece.

Não é de estranhar, pois, que, no Alcorão (20, 50-52), Deus se apresente - em contraposição ao homem - como "Aquele que não esquece". E o mesmo acontece na tradição judaica, quando, pelo profeta, o próprio Deus diz: "Pode, acaso, uma mulher se esquecer de sua criança de peito?... Ainda que ela se esquecesse, Eu não me esqueceria de ti" (Is 49,15).

Cabe aqui uma observação sobre a linguagem. Em diversas línguas, o lembrar, o memorizar está associado não já (ou não só...) a um processo intelectual, mas ao coração: saber de memória é, em inglês, by heart; em francês, par coeur; e esquecer-se de alguém, em italiano, é scordarsi, sair do coração...

Lembramos - sabemos de cor - o que está em nosso coração. Tomás de Aquino, o grande pensador do Ocidente, explica, agudamente, a razão profunda do lembrar e do esquecer: ele faz a ligação entre amar e lembrar: inesquecível é o que amamos! E, assim, comentando o salmo 9 e falando de Deus como o único que não se esquece, diz: Illud quod aliquis cum studio et diligentia facit, non obliviscitur quin illud faciat; Deus autem studiosus est ad salutem hominum: et ideo non obliviscitur (In Ps. 9, 8) ("O que não se esquece é precisamente o que se faz com solicitude e amor. Ora, Deus ama com solicitude o bem do homem; portanto, Ele não o esquece").

E assim, um tanto inesperadamente, a tradição clássica em educação, a pedagogia do lembrar, revela-se também uma pedagogia do amor...

 

3. Poesia e Filosofia - Entrevista com Adélia Prado

 

Vale a pena, neste contexto, tornar a publicar trechos da entrevista com Adélia Prado, que realizei em São Paulo em 5 de novembro de 1993. Essa entrevista serviu de background - e foi publicado como Apêndice - à dissertação de mestrado de Cecília Canalle: Fundamentos filosóficos da poética de Adélia Prado - subsídios antropológicos para uma filosofia da educação, FEUSP, São Paulo, 1996.

O Olhar: Mirandum e theoria

(...)

LJ: Adélia, você poderia retomar aquela frase que disse, há pouco, sobre o Céu?

AP: Você falou que o que há de comum entre o filósofo e o poeta é o mirandum e isso eu traduzo por miração. E eu acho que é isto mesmo: quando a gente está apaixonado, quando a gente experimenta a paixão, você quer segurar a pessoa e falar: "Fica na minha frente para eu te olhar...". Não precisa nem casar, é só olhar, é só olhar...". Tenho um poema em que eu acho que dei conta de falar isso, "A Terceira via":

 

Meu espírito - que é o alento de Deus em mim - te deseja
pra fazer não sei o que com você.
Não é beijar, nem abraçar, muito menos casar
e ter um monte de filhos.
Quero você na minha frente, extático
- Francisco e o Serafim, abrasados -,
e eu para todo o sempre
olhando, olhando, olhando...

 

Então eu acho que o Céu..., quando a gente fala em experiência de mística, da alegria inefável dos santos, isso está no olhar, sabe? Então, você chega no Céu: "agora descansa, pára o mundo que eu vou olhar a face divina!".

Então, nem precisa casar mesmo, pode parar aí, que já está no Céu.

Eu acho que a poesia é isto: porque ela é algo que se mostra, eu acho que a poesia é um fenômeno que realmente escapa ao poeta; ele, coitadinho, é um proletário da coisa, um operariozinho, um operário braçal. Então, há uma coisa, algo, algo, algo quer se mostrar...

Sabe que idéia que eu tenho do Espírito Santo? E tem tudo que ver com o que estamos falando... Eu acho que Deus, Ele tem um desejo de ser visto, sabe, Ele deseja, Ele precisa... É como disse Mestre Eckhart: "Ele precisa de mim...", porque Ele me salvou tanto... Ele deseja ser visto e precisa ser visto. E, para mim, a poesia é isto: aquilo que precisa ser visto, se mostra, naquele momento.

Criação Divina, Participação e Poesia

AP: É o que a gente chama de experiência poética ou momento poético. Então, realmente, é estado de graça, não tem jeito. Eu acho que o fundo da experiência religiosa e da experiência poética - à revelia dos poetas ateus, à revelia desse povo que nega isso; é... à revelia deles, à revelia deles... - que o sagrado se mostra.

É um desejo de prostração que dá na gente, um desejo de adoração: Você quer adorar e você sabe que não é mais aquilo que você tá produzindo, não é o rastro, não é mais a pegada como eu achava antes... Com aquela ânsia..., mas é a coisa que se mostra atrás disso.

Eu tenho um poema inédito que fala isso: "Acácias".

ACÁCIAS

Minha alma quer ver a Deus.
Eu não quero morrer.
Quero amar sem limites
E perdoar a ponto de esquecer-me
Radical, quer dizer pela raiz
O perdão radical gera alegria
Exorciza doenças, mata o medo
Dá poder sobre feras e demônios
Falo. E falo é também membro viril,
Todo léxico é pobre,
Idiomas são pecados;
Poemas, culpas antecipadamente perdoadas
Eis, esta acácia florida gera angústia
Para livrar-me, empenho-me
Em esgotar-lhe a beleza
Beleza importuna,
Magnífica insuficiência,
Porque ainda convoca
O poema perfeito.

O poema, minha Nossa Senhora!..., o que está por trás dele é o que interessa, por isso que não dá para adorar a arte (os adoradores da arte...). A arte..., ela remete, ela remete... A única coisa que não remete é Deus. Deus, Ele não remete a mais nada. E o que você quer? Esta acácia aqui, essa benditinha dessa acácia..., o que é uma acácia florida? É uma coisa tão angustiante, uma coisa bela demais, que você quer morrer pra ter sossego, não é? (risos). Aí você faz um poema pra ver se descansa. Mas, é porque a alma, ela quer realmente adorar, ela quer seu fundamento, não é? A gente quer adorar a Deus, essa é a única coisa..., eu acho que a gente nasceu só pra isso...

LJ: E qual o papel da Criação. Você diz, em um dos títulos: "Tudo que sinto esbarra em Deus", seria o conceito de participação em S. Tomás?

AP: Eu acho que é isso sim. Eu acho que dá na mesma, mas eu digo expressão. Porque arte para mim - para mim, não! Que bobagem falar isto! - arte é pura expressão, o discurso dela é só expressivo... Ele não é político, ele não é religioso... (...) Mas o que você estava falando da participação, para mim é assim: algo - esse algo eu vou chamar de Deus - Ele quer se mostrar. Ele quer mostrar-se, Ele quer ser mirado. Então, uma das formas mais perfeitas, eu acho que aí há uma coisa de uma liberdade inaudita, que é o espaço da criação artística (que é onde você põe vaca roxa, põe acácia chorando, sei lá o que...).

Mas, então, é isso: é o terreno, para mim, da fé, que é a coisa mais livre que tem. É o "Curvai-vos!" se você não se curvar, você não fica livre. É aí. É aí, é na poesia, é na arte, mas vamos falar em poesia, porque é o nosso caso...

Então, eu vejo assim, as coisas como manifestação - até a cadeira de plástico (Adélia aponta para uma cadeira de plástico), ela manifesta. Manifesta, manifesta, manifesta, manifesta... E o homem faz o mundo (isso é uma idéia que me ocorreu no outro dia) o homem é criador, mas às avessas... Você veja, eu estava vendo um robô ontem, um robô francês, vendo na televisão, aquela parafernália, quer dizer, é o não-simples. É engraçado, o homem cria, mas é uma não-simplicidade; você fala: "Nossa, que computador complexo!" você fica maravilhado com a complexidade, enquanto que a criação divina é o avesso: é o simples, não é? Mas enfim são formas diversas, eu acho, da divindade e da manifestação: Deus precisa disto para que Ele se manifeste, para que a consciência ecloda em seu nível crença...

 

Ainda a Criação

LJ: Como pode haver um poeta ateu?

AP: Mas isso é uma contradição em termos, meu Jesus!, não é? É cada tombo que as pessoas levam. Engraçado, que os próprios poetas engajados e que advogam essa autonomia de seu poder sobre a escrita caem numa contradição maravilhosa, através das próprias obras que são melhores que eles. Porque o livro tem que ser melhor do que eu, senão ele não vale nada. O livro tem que ser melhor do que eu, a hora em que ele for igual a mim, eu tenho que ficar caladinha, quer dizer, cheguei à santidade, que é o que a gente, acho, deve querer, né? A gente diz: "Porque o meu livro..., porque o meu livro isso..., porque o meu livro aquilo..." e não é assim, se fosse assim, eu falava: "Hoje eu vou escrever um poema perfeito" e... não é assim... A coisa deseja ser vista, então é uma graça mesmo, é pura visão, é... não-lógica.

LJ: Na verdade um tema constante na sua poesia, constante também em S. Tomás é o de que a criação tem dois pólos: por um lado é participação do ser, do bem, da beleza de Deus; por outro, saiu do nada...

AP: Saiu do nada, sim, sim!

LJ: Por isso, Josef Pieper tem um capítulo fantástico, descrevendo a atitude diante da Criação, intitulado: "Psicose Maníaco-Depressiva".

AP: Sim , concordo plenamente... Porque a coisa mais difícil é achar que eu não sou Deus... Porque na hora que você cai nisso, você diz: ou eu sou criatura ou eu não sou! (...) Isso vai muito dentro de uma coisa que você falou e que me alegrou muito: é uma coisa com relação ao sagrado: eu não faço poesia religiosa, num sentido que muita gente entende equivocadamente. O fato é que é a poesia é que é religiosa, ela é sagrada (é aquilo que a gente estava falando antes), então esses registros de natureza religiosa, confessional, são coisas da história da biografia do autor, que nada tem que ver, não é?

Ela, em si mesma, é sagrada. Eu vi um poema de Alceu, que é pagão, anterior a Cristo e é igualzinho ao poema "No éter", que eu escrevi. Foi uma das maiores emoções que eu tive... O poema "No éter" fala daquela hora da tarde, daquela hora em que as coisas reverberam... Eu fiquei assustadíssima.

Quer dizer, é uma coisa só, o sujeito é pré-cristão, pagão, e está falando a mesma coisa que eu. Então há essa origem sagrada, não é? E com o amor é a mesma coisa, esse amorzinho nosso, essa peleja que é o sexo, porque é uma peleja, é tão discursivo, não é? Tem hora que eu fico...Que canseira... Dormir com outra pessoa é complicado demais... toda a discursividade do corpo, a miserabilidade do corpo, meu Deus! Então, eu vejo assim, quando eu estou falando de amor eu estou falando só de amor e em sua forma humana ele é discursivo, precário, mas é, em sua essência, bodas celestes.

LJ: Que quer dizer com "discursivo"?

AP: Discursivo é aquilo que não se exime de palavras... A poesia não pode ser discurso, ela não fala a respeito de... ou ela é a coisa ou ela não é poesia. Isto é, um poema sobre a rosa tem que ser a rosa, não pode pegar e falar: "Olha tô falando sobre a rosa...": aí não é poesia mais, não! Então o poema, a diferença dele com outro discurso é que ele não é discurso. Ou: é um discurso não-discursivo... Esse amor humano, também ele é discursivo, enquanto processo, mas na sua essência... quando eu amo uma pessoa eu quero só olhar para ela, meu maior desejo é olhar... humanamente até, mas ele exige mais, ele exige uma humildade danada...

Filosofia, poesia e o realismo do cotidiano

LJ: Num projeto de mestrado que dirijo, estamos colocando lado a lado citações de Josef Pieper e de Adélia Prado. Por exemplo, o fato de ambos terem seu ponto de partida na admiração...

AP: O mirandum.

LJ: ...é uma palavra chave...

AP: É, é, é ...

LJ: ... e contemplação, mistério, porque o mundo foi feito pelo Verbo, pelo Logos então ele é "demais para a nossa cabeça"...

AP: "Os céus narram a glória de Deus", é demais, não é?...

LJ: ...e isto tudo em e a partir de uma realidade quotidiana...

AP: Claro... uma graminha pelejando para nascer na greta do muro... que coisa mais absurda e fenomenal!

LJ: Gosto demais de seu verso: "Tudo é Bíblias"

AP: Tudo é grande sertão!

LJ: Realidade quotidiana enquanto maravilhamento?

AP: Eu fui, digamos, classificada, muitas vezes, como uma dona de casa que faz poesia. Quando Bagagem saiu, em 1976, eu ouvia: "O que? uma dona de casa, você faz as coisas em casa mesmo? você tem filhos? Ah é? Que coisa, hein? Pois é...". Então ficou mais ou menos assim: "ela fala do cotidiano, sabe?". Mas, onde é que estão os grandes temas? Para mim, aí é que está o grande equívoco. O grande tema é o real, o real; o real é o grande tema. E onde é que nós temos o real? É na cena quotidiana.

Todo mundo só tem o cotidiano e não tem outra coisa. Eu tenho este corpo que eu carrego (ou ele me carrega... o burro(6)) e a vidinha de todo dia com suas necessidades mais primárias e irreprimíveis. É nisso que a metafísica pisca para mim (risos) e a coisa da transcendência: quer dizer: a transcendência mora, pousa nas coisas... está pousada ou está encarnada nas coisas. Então não há o que dizer: não adianta você querer escolher grandes temas; é o grande tema que escolhe, isso é um lugar comum, todo autor fala disso, mas realmente é assim: você é escolhido... Que que é o grande tema? é o real. E o real configurado no amor, na morte, nas mais diversas paixões que nos habitam e nas virtudes também. Então eu não vejo onde é que eu busco poesia... ela já está - o Reino já está no meio de vós... - É isso aí...

LJ: A inspiração, como vem? Por que essa realidade quotidiana às vezes se mostra como maravilhamento e outras vezes como mera realidade opaca?

AP: Quando ela é realidade opaca é aquilo do meu verso "De vez em quando, Deus me tira a poesia e eu olho pedras e vejo pedra mesmo..." ("Ausência da Poesia"). Outro dia - eu achei fantástico! - um comentarista de futebol fez uma crônica e me citou - eu me senti tão importante... Ele, falando sobre a seleção brasileira(7), disse: "É como diz Adélia Prado: 'Eu olho Dunga e vejo Dunga mesmo'" (risos). Eu achei legal, fez o maior sucesso lá em casa, todos gostaram... Vê-se que ele entendeu o poema...

 

2. "Torna-te o que és"

Voltemo-nos, agora, para o fundamento da ética, para os antigos: o próprio ser do homem. Tal concepção pode resumir-se - também ela - numa memorável sentença de Píndaro: "Torna-te o que és!".

Neste espaço, pretendemos indicar, ainda que brevissimamente, como essa mesma convicção essencial - essencial para o direito, para a filosofia, para o convívio social e para a educação - a afirmação de que a moral se enraíza no ser e até com ele se confunde - é uma convicção universalmente estendida.

Ela não é apanágio da filosofia, mas encontra-se também em diversas outras instâncias: é o sentido profundo do to be or not to be shakesperiano (that is the question...), encontra-se na Comédia de Dante, na tradição confuciana; do "Torna-te..." de Píndaro às estruturas da língua tupi...

Na Divina Comédia (Purg. XXIII, 31-33), ao tratar da recomposição do ser, desfigurado pelos desvios morais, encontramos este enigmático terceto:

"Pareciam-lhes os olhos anéis sem gemas

E quem no rosto dos homens lê 'homem'

Bem poderia reconhecer o M"

Que significa este misterioso M? (emme que rima com gemme). O sentido desses versos é que a ação injusta atenta contra o próprio ser de quem a pratica, desfigura-o, rouba-lhe o to be, o rosto humano - poeticamente figurado, em concretismo, na palavra "OmO" (omo, na língua de Dante, significa homem).

Também para Confúcio - e para a tradição do Extremo Oriente, registrada não só em seus tratados sapienciais, mas até mesmo enraizada nas línguas - a moral é o ser homem (ren, em chinês / jin, em japonês), e o imoral (fei-ren / hi-nin - a grafia japonesa é idêntica à chinesa) é o não-homem, como plasticamente indica o ideograma da negação e da falsidade, da desestruturação desde dentro, da desagregação, anteposto ao ideograma ren homem.

A mesma idéia fundamental é encontrada na sabedoria da língua tupi.

Para o tupi - que usa o sufixo -eté como intensivo, superlativo e índice de verdade ontológica - o homem bom moralmente é aba-eté, ou seja, o homem de verdade ou, no sentido de S. Tomás, simpliciter e ultimum potentiae. Enquanto o homem imoral é aba-ran, pseudo-homem.

Mencionávamos, há pouco, a célebre sentença de Píndaro que resume os fundamentos clássicos da ética: "Torna-te o que és!". Encontramos uma inesperada prova da força (e da atualidade...) desta sentença no extraordinário êxito alcançado pelo desenho "O Rei Leão". De fato, para além dos modismos e do cuidado estético, a força da fábula do Lion King encontra-se precisamente em seu centro temático, que remete a Píndaro (ao "torna-te" e também à concepção do homem como esquecente...).

De fato, o auge do enredo encontra-se no drama ético. O exilado leãozinho Simba é convidado ao aburguesamento, ao egoísmo e à indiferença, à recusa da estatura moral a que está chamado:

Timon: When the world turns its back on you, you turn your back on the world.

Simba: Well, that's not what I was taught.

Timon: Then maybe you need a new lesson. Repeat after me.

Hakuna Matata.

Simba: {Still lethargic} What?

Pumbaa: Ha-ku-na Ma-ta-ta. It means "No worries."

Timon: Hakuna Matata!

What a wonderful phrase

Pumbaa: Hakuna Matata!

Ain't no passing craze

Timon: It means no worries

For the rest of your days

Both: It's our problem-free... Philosophy

Timon: Hakuna Matata!

Simba: Hakuna matata?

Pumbaa: Yeah, it's our motto.

Quando - pela ausência de Simba-, a situação de opressão torna-se insuportável - o conselheiro Rafiki sai em busca do jovem leão, procurando chamá-lo à responsabilidade, evocando a figura de seu falecido pai: o leão Mufasa. E convida Simba a contemplar a imagem do pai na superfície da água.

Simba: You knew my father?

Rafiki: {Monotone} Correction - I know your father.

Simba: I hate to tell you this, but... he died. A long time ago.

Rafiki: Nope. Wrong again! Ha ha hah! He's alive! And I'll show him to you. You follow old Rafiki, he knows the way. Come on!

Look down there.

{Simba quietly and carefully works his way out. He looks over the edge and sees his reflection in a pool of water He first seems a bit startled, perhaps at his own mature appearance, but then realizes what he's looking at.}

Simba: {Disappointed sigh} That's not my father. That's just my reflection.

Rafiki: Noo. Look harder.

{Rafiki motions over the pool. Ripples form, distorting Simba's reflection; they resolve into Mufasa's face. A deep rumbling noise is heard}.

You see, he lives in you.

{Simba is awestruck. The wind picks up. In the air the huge image of Mufasa is forming from the clouds. He appears to be walking from the stars. The image is ghostly at first, but steadily gains color and coherence.}

Mufasa: {Quietly at first} Simba...

Simba: Father?

Mufasa: Simba, you have forgotten me.

Simba: No. How could I?

Para finalizar, a resposta de Mufasa, que articula os dois momentos pindáricos fundamentais: todo um programa de reconstrução moral...

Mufasa: You have forgotten who you are, and so have forgotten me. Look inside yourself, Simba. You are more than what you have become.

Simba: How can I go back? I'm not who I used to be.

{Shot of cloud-Mufasa, with glowing yellow eyes. He is framed

in swirling clouds, radiating golden light.}

Mufasa: Remember who you are. You are my son, and the one true king.

{Close up of Simba's face, bathed in the golden light, showing

a mixture of awe, fear, and sadness. The image of Mufasa starts to fade.}

Remember who you are.

{Mufasa is disappearing rapidly into clouds. Simba runs into the fields trying to keep up with the image.}

Simba: No. Please! Don't leave me.

Mufasa: Remember...

Simba: Father!

Mufasa: Remember...

Simba: Don't leave me.

Mufasa: Remember...

(Fonte: http://www.lionking.org/~ryan/lionking/text/official/tlkscras.txt)



(1). "Um fator latente... é preciso revelá-lo... como a imagem latente de uma película fotográfica". Moles, Abraham O Kitsch, S. Paulo, Perspectiva, 1972, p. 11.

(2). Ibidem, pp. 11-12.

(3). Principalmente nas introduções a cada virtude. Por exemplo: "(A verdade) perde não só sua força conquistadora, mas também seu poder de anúncio, se não for regenerada vivamente em seu sentido autêntico. E esta vivificação contínua realiza-se pela força incisiva da palavra viva" (p. 201).

(4). Ao longo deste tópico, seguimos os capítulos de Michèle Simondon "Mnémosyne, mère des Muses" in La Mémoire et l'Oubli dans la Pensée Grecque jusqu'à la fin du Ve. siècle avant J.C., Paris, Société d'édition "Les Belles Lettres", 1982; de Bruno Snell "Pindar's Hymn to Zeus" in The Discovery of the Mind - The Greek Origins of European Thought, Cambridge, Harvard Univ. Press, 1953; e, sobretudo, de J. Pieper Nur der Liebende singt, Schwabenverlag, 1988, p.35 e ss.

(5). O poema só fragmentariamente chegou a nós...

(6). Alusão a S. Francisco de Assis, que chamava o corpo de "o burro".

(7). A entrevista ocorreu antes do tetra-campeonato, num momento em que a seleção (e, particularmente, Dunga e Zinho) sofria duras críticas por parte da imprensa futebolística.