Idiotizando para Lucrar

 

Ranulfo Bocayuva
Editor da Internacional de A Tarde - Salvador
ranulfo@atarde.com.br

 

A "overdose" de informações afunda, hoje, o cérebro num mar de lama. Torna-se imprescindível se distinguir o essencial do sensacional para não acabar como vítima do processo de sedução no qual só lucra o mercenário e o charlatão. O leitor e o telespectador têm a obrigação de exercer plenamente sua cidadania e escolher criticamente o que mais precisa para sua vida, sem se tornar financiador coadjuvante de um mero empreendimento. A fórmula de emissoras de televisão e jornais para captar a atenção através de programas e noticiários repletos de sexo e violência trazem em si o germe da pura vulgarização e destruição da reflexão crítica.

 

A exploração da informação como fato mercadológico contradiz frontalmente princípios sagrados do jornalismo, como conscientizar, educar, defender as comunidades e o bem público, assim como lutar contra as injustiças sociais. A insuportável superficialidade e impotência da imprensa, que deixa passar em brancas nuvens declarações oficiais sem ir a campo averiguar detalhadamente a realidade para mostrar a incoerência entre as idéias e as ações, deixa o cidadão frustrado. As boas reportagens especiais deixam saudades.

 

O gosto pela invasão da privacidade alheia, mesmo dos candidatos e políticos, e a divulgação de fatos nem sempre bem apurados envergonham os profissionais de imprensa, que devem zelar pela verdade acima de quaisquer interesses (comerciais e políticos). A distorção da notícia é, segundo o jornalista britânico, Paul Johnson, um dos principais pecados da imprensa: "A mídia é uma arma carregada quando dirigida com hostilidade".

 

O fascínio pelos escândalos sexuais, a violência, a pornografia e outros temas da mídia sensacionalista e panfletária, sobretudo audiovisual, idiotiza leitor e telespectador. Ao se basear na estratégia puramente mercadológica de aumentar audiência e tiragem, jornais e televisões têm se desviado de radicalmente de sua primordial função social que é educar e formar cidadania. Informação não se cria, nem se inventa. Nem tampouco jornal é casa lotérica para conquistar leitor sorteando casa, carro ou outro sonho de consumo. Se a informação for séria e bem elaborada, ela interessará ao leitor sem nenhum "anabolizante".

 

Investigar e desmascarar

 

A pobreza, por exemplo, é tratada como se fosse um problema regional ou de natureza geográfica, quando sua raiz está na imensa desigualdade mundial de distribuição de riquezas. Pobres das mais diversas origens (do desempregado ao índio) comem lixo para se alimentar nas cidades e periferias latino-americanas ou africanas. Seria necessário, por exemplo, que a imprensa investigasse as razões dos ciclos de pobreza, paralelamente às ações dos governos, desmascarando as demagogias políticas e conscientizando as sociedades para a criação de verdadeiras redes de solidariedade. A pressão social se origina primeiro, na conscientização, e depois, na solidariedade. Todos somos responsáveis, enquanto cidadãos, mas cabe à imprensa desmistificar oportunistas e liderar campanhas que possam trazer soluções reais.

 

A clara manipulação militar de informações em guerras, como no Golfo Pérsico, em 1991, e de Kosovo, em 1999, ficou evidente na cobertura das agências internacionais, que se inclinaram a transmitir, nas duas invasões, a versão dos aliados europeus e americanos. Não havia simplesmente explicação lógica para os ataques da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) aos alvos civis. Tampouco as versões iugoslavas refletiram a verdade, já que a censura foi imposta aos jornais e emissoras de rádio e televisão.

 

Neste sentido, a Internet pode burlar a censura e criar redes autônomas sem controle na comunicação. Ela preenche este vazio na informação, permitindo ao internauta acessar diretamente os sites dos próprios produtores de informação. A comunicação on-line favorece o contato virtual à distância, mas seria realmente perigoso se trancar no escuro da tela anônima, ignorar o calor humano das ruas e a vital experiência do conhecimento. Tampouco basta acessar um site qualquer e ser vomitado pelo lixo pornográfico, comercial e supostamente útil das milhares de homepages da Internet. É necessário que o provedor de informações tenha justamente credibilidade para tornar as notícias imparciais e críticas para responder às indagações e dúvidas do cidadão.

 

Esta integração à Internet caminha de forma mais rápida do que se pensava. No Brasil, estima-se em oito milhões o número de usuários da Internet, enquanto, nos Estados Unidos, este número passa para 28,8 milhões. Mas não confundamos as qualidades de cada meio. Apenas 3% da população mundial (de cerca de seis bilhões de habitantes) têm computador e eles continuam privados de invenções ou mesmo serviços públicos do começo do século XIX, como telefone comum, água potável ou eletricidade.

 

Com o avanço acelerado das novas tecnologias de informação, como as redes de Internet e os sistema de televisão paga ou por assinatura, o cidadão vai procurando o que mais lhe interessa e precisa saber para sua vida, trabalho, educação, cultura e lazer, tentando selecionar a informação construtiva. Forçados a se preparar para enfrentar esta concorrência, mesmo que a grande massa ainda não tenha acesso às tecnologias avançadas, os jornais buscam se renovar para tornar as notícias mais atraentes, ou seja mais esclarecedoras e mais dignas de credibilidade. O principal combustível da mídia é o respeito à ética.