O Homem e o Barquinho

 

Mônica Paula da Silva
Editora Agência Estado
mpaula@agestado.com.br


O dia chuvoso e a praia deserta convidavam a um descanso combinado com reflexão. Cenário: praia de Tabatinga, em Caraguatatuba, litoral norte de São Paulo, na divisa entre junho e julho de 99. O ditado que aconselha "jamais volte a um lugar em que você foi feliz" foi desafiado naquela tarde. Evoquei lembranças de cinco anos antes, quando estive neste lugar acompanhada de amigos que estão comigo até hoje. Apenas um deles foi encontrar-se com Deus e, creiamos nós, está muito bem. O vento forte que me embaraçava o cabelo e me deixava rosto e mãos gelados contrastava com o sol forte presente nas minhas lembranças. Mas nem por isso aquele lugar perdeu seu encanto.

Sempre tive fascinação por observar a luta do mar para não se deixar dominar pelo vento pré-tempestade. Pus-me a contemplar o mar bravio, que se rebelava, com todas as suas forças, contra aquela submissão à força. É uma analogia que uso para lembrar a quantas situações como aquela eu sobrevivi. Eu estava profundamente sintonizada no meu canal da sensibilidade após ter lido, pela manhã, textos magníficos de filosofia e algumas reflexões dentro do assunto escritas por colegas de jornalismo. Sim, estes "seres de outro planeta" conseguem escrever algo mais do que "o ministro fulano de tal disse ontem, em Brasília, que as taxas de juros continuarão com viés de alta"; ou ainda "Palmeiras e Grêmio empataram em 0 x 0 ontem à noite, no Parque Antártica, em jogo válido pela Copa Mercosul".

 

Ao longe, um homem me chamou a atenção. Ele e seu barco iniciaram solitária travessia em solidária parceria - a rima é proposital para enfatizar o quanto aquele relacionamento era indestrutível. O pescador e seu barquinho começaram a enfrentar as ondas timidamente na beira da praia. Pouco tempo depois, os dois subiam e desciam em saltos vigorosos. O mar parecia rejeitá-los e, ao mesmo tempo, os alertava do perigo. Os dois seguiram em frente, sem se abalar, mesmo quando o mar parecia mais ameaçador do que nunca. O homem precisava buscar sua rede de pesca, quiçá cheia de peixes, para dali retirar seu sustento. A batalha da sobrevivência é tão dura que, depois disso, qualquer situação é minimizada como um ícone do Windows.

 

Ignorando os protestos do mar, o pescador e seu barquinho pegaram a rede e iniciaram a volta, tão impassíveis como na ida. Minha aflição aumentava e diminuía no mesmo compasso daquela disputa para ver "quem era o mais forte".

Nossa dupla, claro, ficou unida e jamais foi vencida. Chegaram como se nada tivesse acontecido, com a humildade dos grandes heróis. Emocionada com aquele triunfo, a mim restou lembrar de uma grande lição aprendida com minha mãe, na infância: "tudo passa. Duro é passar". Como diriam os espanhóis, "De acuerdo!".