O Sole Mio

Conto de Sergio de Agostino

 

A meus bisavós, Raphaello Antonicci e Sabina Gironi - napolitano ele, baresa ela - homenagem do autor no centenário da imigração italiana

 

            Abro a persiana e, de cheio, o Sol penetra em meu quarto, inundando-o de luz.

            — Bom dia, irmão Sol! – digo, aquecendo-me em seus raios luminosos, enquanto escancaro a janela para não perder um átimo sequer daquela explosão de vida e calor. Pouco a pouco, outras janelas vão-se abrindo, bocejando ao cálido ar daquela esplêndida manhã estival. Meu vizinho napolitano, seu Giuseppe, o Pavarotti do bairro, enche o peito e entoa O SOLE MIO. Que outra canção mais apropriada para um alvorecer que se anuncia tão resplandecente? Ouço-lhe a voz límpida e aveludada com todo o seu calor humano, sua generosa vocalidade e seu inconfundível estilo de posteggiatore napoletane.

 

                                   Che bella cosa ‘na iurnata ‘e sole, 
                                   n’aria serena doppo ‘na tempesta!
                                   Pe’llaria fresca pare già na festa!
                                   Che bella cosa ‘na iurnata ‘e sole!

 

            Fecho os olhos e sinto-me transportado à baía de Nápoles, al paese addò tutt’é pparole, sò doce o sò amare, sò sempre parole d’amore, como diz a célebre canção. Percorro-lhe as vielas, subo-lhe as colinas e banho-me em seu mar de águas azuladas, onde pure li pisce nce fann’a l’ammore.

            A grande vantagem de viajarmos nas asas da fantasia é não precisarmos de passaporte nem de dólares e...muitos!...

            — Seu Giuseppe, per favore – grito-lhe. Cante SANTA LUCIA LONTANA. Quero retornar a Nápoles. Retornar?! Mas como? Eu nunca lá estive. E, no entanto, parece que de lá nunca saí.

            — Va bene! – responde – e o ar se enche de sonoridade, da melancólica saudade da terra que, tão distante, está tão próxima do coração:

 

                                   Partono é bastimente
                                   pe’terre assaje luntane.
                                   Cantano a buordo: só napulitane!
                                   Cantano pe’ tramente           
                                   ‘o golfo già scumpare,                      
                                  
e’a luna, a miezo ‘o mare,
                                   ‘nu poco’e Napule
                                   lle fa vedé...
                                  
Santa Lucia,
                                   luntano’a te
                                   quanta malincunia!

 

            Sim, quanta melancolia!... – responde o coração. Com os olhos da memória revejo o passado remoto: meus bisavós chegando a terras assaje luntane para aqui regarem a gleba com o suor do trabalho árduo de imigrantes pobres e numerosa prole que sustentar. Ela, baresa; ele napolitano de Santa Lucia, il mare che diventa Napoli, um dos recantos mais belos do mundo, com suas praias, montanhas escarpadas e o eterno mar a banhar-lhe a base dos rochedos alcantilados, murmurando-lhe, com a espuma rendilhada das águas e a filigrana dos arabescos, sua eterna jura de amor.

            — Grazie, don Giuseppe – digo-lhe no meu italiano estropiado. Grazie per tutto. Por esses momentos em que, minh’alma apaixonada “retornou” a Nápoles dos meus bisavós, à procura do sonho e da fantasia, fugindo, por alguns minutos, dessa dura realidade que tanto nos amarga a vida com a estupidez de sua violência. Così va il mondo!... Che ci puo fare?

            Dona Chiara, carinhosamente, pega o marido pelo braço e, pedindo-me desculpas afastou-o da janela.

            — Scusi, signore, ma l’emozione le fa molto male – e, dirigindo-se ao esposo: — Ma pecche piange? Non devete far così, caro! E, encostando-lhe a cabeça no peito: — Senti, senti, questo batticuore!

            Ma come non devo fare così? Io sono come il mare che nessuno può fermar. Io bisogno cantare, cantare sempre come il gallo canta all’alba. E, abraçando dona Chiara, cantarola-lhe ao ouvido:

                                              

                                   Ogni giorno
                                   ogni istante,
                                   dolcemente                                        
                                   ti dirò:
                                   Come prima,
                                   più di prima
                                   t’amerò.

 

            Dona Chiara não pôde evitar um largo sorriso e, enlaçados pela cintura, afastaram-se da janela.

            Desde que vieram morar no edifício, uma nova vida trouxeram àquela rua, ao bairro. Todos os conheciam. Todos os admiravam, porque don Giuseppe e dona Chiara eram a própria alegria de viver, eram raio de sol a esquentar a vida, como estufa que aquece a casa. Eram napolitanos. Ho detto napoletani, punto e basta!

            Sonhava rever a pátria, retornar a sua Nápoles e, murmurando, trauteava: Vurria turnà addu te, pe n’ora sola, Napule mia pe te sentì cantà cu mille manduline... Queria abraçar o irmão mais velho, Raffaele Antonicci que, aos 82 anos, ainda fazia suna il manduline. Andar pelas ruas, fare una bella passegiata a Santa Lucia, apreciar a venda, a degustação dos frutos do mar e doppo – dizia estalando a língua – mangiare un bel piatto di spaghetti al pomodoro con un bicchiere di vino.

            Quando o carteiro trazia a correspondência, o prédio todo participava da emoção da família. Dona Chiara e seu Giuseppe beijavam repetidamente o envelope, e não podiam conter as lágrimas. Era uma festa!

            Ao completarem 55 anos de casados, os filhos resolveram fazer uma surpresa: deram-lhes uma viagem à Itália. Don Giuseppe não cabia em si de contente. Em poucos minutos, todo o bairro já sabia a novidade: Giuseppe e Chiara ficariam bom tempo ausentes. No cais do porto, todos os amigos, agitando fazzoletti bianqui despediram-se do casal que, cinqüenta anos depois, regressava à terra de l’ammore para rever a família, os amigos e sentir, pela última vez , o contacto do solo amado.

            À distância, quando o navio já se perdera na linha do horizonte, uma voz deixada na esteira das águas nos dizia ao coração: Chisto è o’paese d’ò sole,/ Chisto è o’paese d’ò mare,/ Chisto è o’ paese addò tutt’è pparole,/ sò doce o s’amare,/ sò sempre parole d’ammore.

            — Addio, Giuseppe! Addio, Chiara!...