Perspectivas de Educação Cristã, Hoje

(notas-resumo de conferência para o corpo docente do
 Colégio Santa Marcelina, São Paulo, 13-12-99)

 

L. Jean Lauand
FEUSP - jeanlaua@usp.br

            Em conferência anterior, discutíamos a base humana da educação cristã. Lembrávamos o princípio: a graça não só não destrói a natureza, mas até mesmo a pressupõe. E, portanto, não há um conteúdo moral especificamente cristão: o cristão assume a moral natural, a mesma que se impõe a todo homem que pretenda ser bom, ser verdadeiramente homem. Nesta conferência, vamos expor em que consiste uma educação cristã - ou, mais especificamente, católica - hoje, tomando como base o novo Catecismo Católico (doravante, abreviado por CC). Naturalmente, só com enunciar esse referencial, torna-se imediatamente claro que não se trata de práticas externas (ter um crucifixo na sala de aula ou rezar determinadas orações etc., tudo isto pode ser muito interessante, porém não atinge o núcleo da proposta do CC), mas de uma educação coerente com a compreensão do alcance e do significado da vocação cristã, tal como proposto pelo CC. Esse "alcance e significado da vocação cristã", a estatura humana e cristã à qual todo batizado está chamado, é mesmo o fato novo e o princípio que informa toda a proposta da Igreja. Adiantando os temas de que nos ocuparemos, trata-se de uma autêntica descoberta (ou "redescoberta", se pensamos nos primeiros cristãos...) da dimensão do cristianismo no mundo e na vida quotidiana.

            Infelizmente, essa revolução profunda de compreensão do Evangelho, continua bastante à margem da consciência do cidadão comum, do ordinary people, do Seu João e da D. Maria, ainda que seja precisamente ao cidadão comum (a cada um de nós, portanto...) que se dirige esta revolucionária proposta do CC, que apresenta perspectivas insuspeitadas no próprio conceito de cristão... É precisamente por ignorarem o alcance e o significado do cristianismo que, para muitos católicos, o catolicismo aparece como algo esvaziado e sem sentido, reduzido, quando muito, a algumas poucas práticas isoladas do resto da vida... Vale a pena, portanto, recordar alguns pontos essenciais da doutrina da Igreja sobre precisamente o que significa ser católico. Trata-se de algo importantíssimo e rico em conseqüências práticas...

            O que significa ser cristão? O que o diferencia de alguém que pratica uma outra religião? A resposta a esta pergunta traz, na verdade, uma distinção radical, total, tão de outra dimensão, que torna o catolicismo absolutamente irredutível, incomparável a qualquer outra religião. Quem erradamente imaginasse o catolicismo uma religião a mais como as outras (o que, na prática, acaba sendo a idéia da maioria dos próprios católicos...), concebê-lo-ia essencialmente como um conjunto de regras de comportamento junto com a participação em certas cerimônias da comunidade. Mas isso, afinal, só diferenciaria perifericamente o catolicismo da doutrina pregada, digamos, pelo judaísmo, islamismo ou espiritismo ou por outras igrejas cristãs. Porque quanto ao código moral, os dez mandamentos são os mesmos para o católico, para o Alcorão e para a Toráh, e quase não há religião que pregue prejudicar o próximo, invejá-lo ou odiá-lo... E o menino católico integrar-se-ia à comunidade pelo Batismo, enquanto o menino judeu integrar-se-ia à dele pela circuncisão e a confirmaria pelo Bar-Mitzvá etc.

            Falaremos, pois, do tema que é de decisiva importância para o cristão: a diferença essencial que nos situa a anos-luz de distância de qualquer outra religião: a graça. É precisamente pela sua peculiar concepção da graça que o catolicismo (junto com algumas outras igrejas cristãs) não é uma doutrina religiosa a mais, nem consiste em uma série de preceitos (mais ou menos comuns a outras religiões como o Islam ou o judaísmo...). Há esta diferença essencial: Trata-se no catolicismo de uma vida nova, participação na própria vida íntima de Deus: a vida da graça que principia no sacramento do Batismo. O alcance e o significado da vocação cristã estão ligados a uma compreensão do alcance e do significado do Batismo que um dia recebemos.

            Ao começarmos a tratar deste tema é muito conveniente "desacostumarmo-nos", recordar (ou, talvez, considerar pela primeira vez...) esta espantosa realidade, a própria essência do cristianismo: a graça, a vida sobrenatural. Tudo começa quando o Filho de Deus ao se fazer homem e habitar entre nós, misteriosamente comunica-nos sua divindade pelo Batismo de tal modo que somos - e essa formulação é importante - participantes da vida divina de Cristo: como diz o texto essencial de Hbr 3,14. Esta doutrina evangélica é explicada detalhadamente pelo apóstolo Paulo. Aliás, desde o primeiro momento de sua conversão, quando Cristo lhe aparece já lhe propõe a inquietante e infinitamente sugestiva questão: "Saulo, Saulo, por que ME persegues?". E quando Saulo pergunta: "Quem és tu, Senhor?", ouve a resposta: "Eu sou Jesus, a quem tu persegues". E aí precisamente começa a revolucionária revelação: para Saulo, Cristo estava morto e ele perseguia cristãos... e de repente descobre que Cristo é Deus, que Ele ressuscitou e está vivo, não só à direita de Deus Pai, mas de algum modo, em Pedro, João, André, Estevão..., nos cristãos, como dirá o próprio Paulo no essencial Gal 2,20: "Já não sou eu que vivo; é Cristo que vive em mim". Nesse sentido o CC afirma que, pelo Batismo, estamos como que plugados, on line, em Cristo. Ou para usar a palavra chave (de Hbr 3, 14): participação.

CC - 1265 O batismo não só purifica de todos os pecados, mas faz também do batizando "um nova criação" (II Cor. 5, 17), um filho adotivo de Deus tornando-o "participante da natureza divina" (II Pe. 1, 4), membro de Cristo (I Cor. 6, 15; 15,27) e co-herdeiro com Ele (Rom 8,17), templo do Espírito Santo (I Cor. 6, 19).

CC - 1277- O batismo constitui o nascimento para a vida nova em Cristo.

            A graça nos dá uma união íntima com Cristo: pelo Batismo somos como que enxertados em Cristo (Rom 6,4 e ll, 23) e principia em nós a in-habitação da Trindade, que se chama vida sobrenatural. Essa nova vida não é que elimina a vida natural, nem a ela está justaposta; pelo contrário, empapa-a, informa-a, estrutura-a por dentro. A espiritualidade cristã - esta é a grande novidade consagrada pelo Vaticano II - dirige-se a que descubramos e cultivemos essa vida interior, também e principalmente em nossa vida quotidiana. Pois, pelo Batismo, Cristo habita em nós e a vida cristã - alimentada pelos demais sacramentos - nada mais é do que a busca da plenitude desse processo - realizado pelo Espírito Santo - de identificação com Cristo, que principia no Batismo e tende no limite àquele: "Já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim" (Gal 2,20) de S. Paulo.

CC - 2813  Pela água do Batismo ... durante toda nossa vida nosso Pai "nos chama à santificação"

            Cristo vive em seus "terminais": cada cristão não é só nem principalmente alguém que segue um código, é alguém que recebeu e tem a própria vida de Cristo. Cada cristão está chamado a ser outro Cristo... Uma das formas de Cristo perpetuar sua presença no mundo - em todos os lugares do mundo, em todas as épocas - é estando presente nos cristãos. Esta presença principia pelo Batismo... E isto é o que se chama graça: a participação da vida divina em nós. Isto é precisamente o que outras religiões não aceitam: que nossa vida passa a ser (em participação) a própria vida íntima divina.

CC - 108 (...) Todavia a fé cristã não é uma "Religião de Livro". O cristianismo é a religião da "Palavra", não de um verbo escrito e mudo, mas do Verbo encarnado e vivo"(S. Bernardo).

            O conceito fundamental é, portanto, o de graça: uma palavra "técnica" que toca as profundidades da teologia. Graça, no sentido religioso, não por acaso é a mesma palavra que se usa em expressões como "de graça", "gratuito" etc.: a graça é o dom por excelência. Para entendermos isto, detenhamo-nos um pouco numa comparação entre a criação (onde Deus nos dá em participação o ser) e a graça (onde Deus nos dá em participação sua própria vida íntima). Graça e criação: ambos são dom, favor e amor gratuito de Deus; mas a criação é, como diz S. Tomás, o amor comunnis (o amor geral) de Deus às coisas: o amor com que Deus ama as plantas, a formiga, a estrela; entes que são por um ato de Amor e de Volição divina. Mas, além desse "amor comum", há ainda (formulação também de Tomás) um amor specialis, pelo qual Deus eleva o homem a uma vida acima das condições de sua natureza (vida sobrenatural) e o introduz numa nova dimensão do viver.

            A graça, que recebemos no Batismo, é uma realidade nova, uma vida nova, uma luz nova, uma qualidade nova que capacita nossa alma a acolher dignamente, para nela habitarem, as três pessoas divinas. Este amor absoluto (S. Tomás) é uma participação na vida íntima de Deus; a alma passa assim a ter uma vida nova: nela habita (ou para usar o termo teológico: inhabita - inhabitatio, habitação imediata, sem intermediários) a Trindade. Assim, quando se trata de definir a graça, Tomás vale-se das mesmas comparações de participação no ser. Não se trata de um panteísmo porque é participação: ter por oposição a ser. E o próprio conceito de participação, utilizado neste sentido, a teologia de Tomás encontrou-o em textos do Novo Testamento, por exemplo na Epístola aos Hebreus (3, 14): somos participantes (participes, metáchoi) de Cristo. E o próprio S. Pedro diz que somos divinae naturae consortes "participantes da natureza divina" (2 Pe 1,4). Cristo é o Filho de Deus; nós temos a filiação divina. Sem entrar em detalhes técnicos: participar é ter por oposição a ser: o fogo é calor; o metal - que participa do calor que é no fogo - tem calor. Assim, também, a Filiação do Verbo (que traz consigo toda a vida íntima da Trindade) nos é dada em participação por Cristo, pelo Batismo.

            Daí que ser católico não se restrinja a cerimônias, a práticas ou a cumprir regras de conduta; mas sim a alimentar um processo de identificação com Cristo, por assim dizer, 24 horas por dia. Assim, quando o Catecismo da Igreja Católica declara o Batismo o sacramento da iniciação cristã por excelência está afirmando algo de muito distinto do que um mero "entrar no clube" ou "tirar a carteirinha" de cristão...

CC - 1212 Pelos sacramentos da iniciação cristã...  são colocados os fundamentos de toda vida cristã. A participação na natureza divina...

            Precisamente esta novidade: a graça conferida pelo Batismo (que - frisa o Catecismo - alcança a totalidade da vida quotidiana) é, e sempre foi, a diferença infinita entre o cristianismo e as outras religiões: essa espantosa realidade, a própria essência do cristianismo: a graça, a vida sobrenatural, a participação na vida divina. Certamente, a doutrina da graça não é nova, desde sempre tem sido ensinada pela Igreja. Que há, então, de novo? Novo é a ampliação, a extensão e o aprofundamento que o novo Catecismo dá a ela:

CC - 533 A vida oculta de Nazaré permite a todo homem estar unido a Jesus nos caminhos mais quotidianos da vida...

            Nova é a afirmação de que essa identificação com Cristo dá-se - para a imensa maioria dos cristãos - na e a partir da imitação da vida oculta de Cristo (a vida oculta de Cristo, que nem sequer era mencionada no Catecismo anterior - de Trento - e agora ocupa o destaque de todo um capítulo no novo Catecismo). Porque Cristo, princípio da Criação (Jo 1) e autor da Redenção, assumiu toda a realidade humana e toda a realidade do mundo. E assim como misteriosamente no pecado de Adão - Paulo desenvolve isto no Cap. 15 da I Cor - houve para todos um decaimento; em Cristo, novo Adão, há um re-erguimento (Ele, pontífice - construtor de pontes - advogado, primogênito, primícias, "nossa paz" - nosso integrador, etc.). E - tanto em Adão como em Cristo - é afetada toda a criação: Ele é a cabeça do Corpo que é a Igreja. Ele é o Primogênito, o princípio em tudo. E por meio dele Deus reconciliou - e está a reconciliar - consigo todas as criaturas. É o Cristo de Nazaré, em seus 30 anos de vida oculta, anos em que não fez nenhum milagre e viveu uma vida (também ela divina e redentora) com toda a aparência de absolutamente normal: vida de família normal no lar de Nazaré, de trabalho normal na oficina de José, de relacionamento social normal, vida religiosa normal etc.

CC - 531 Durante a maior parte de sua vida, Jesus compartilhou a condição da imensa maioria dos homens: uma vida quotidiana sem grandeza aparente, vida de trabalho manual, vida religiosa judaica submetida à Lei de Deus, vida na comunidade...

CC - 564 ...Durante longos anos de trabalho em Nazaré, Jesus nos dá o exemplo de santidade na vida quotidiana da família e do trabalho...

            Cristo vivo nos cristãos, nos batizados. Cristo vivo no seo João da esquina e na D. Maria... a grande redescoberta da infinita responsabilidade dos fiéis leigos... Cristo que quer levar sua obra redentora à vida de família, ao mundo do trabalho, às grandes questões sociais etc... Isto não estava dito pelo Antigo Catecismo. Nele, após afirmar nosso "plugamento" em Cristo pelo Batismo, o que se dizia era que, pelo Batismo, o cristão torna-se apto a todos os ofícios da piedade cristã (e é certo que o Batismo é a porta para a recepção de outros sacramentos etc.), mas não se falava em identificação com Cristo na vida quotidiana):

Antigo Cat. Rom II, II, 52  Pelo Batismo também somos como membros incorporados, plugados, conectados a Cristo cabeça ... o que nos torna aptos a todos os ofícios da piedade cristã. Per Baptismum etiam Christo capiti tamquam membra copulamur et connectimur ... quae nos ad omnia christianae pietatis officia habiles reddit.

            A Igreja, hoje, convoca cada cristão, o homem da rua, o profissional, o João da esquina e a D. Maria, cada um de nós a ter uma vida espiritual plena, não apesar de, mas precisamente por estar no meio do mundo, no dia de trabalho, na vida de família, de relacionamento social etc. É pelo Batismo que cada cristão está chamado - é uma vocação - a reproduzir na sua vida a vida de Cristo (Gal. 2, 20)... A Criação e a Redenção são projetos que se estendem aos cristos que são os cristãos. A partir do momento em que ocorre a Encarnação, o mundo - o mundo do trabalho, a vida quotidiana, a vida de família, a vida política, econômica e social etc. - torna-se algo do maior interesse religioso (cfr. p. ex. os capítulos 8 de Romanos e 1 de Colossenses: a criação anseia pela manifestação dos filhos de Deus, pois Cristo quer reformá-la em Si). Naturalmente, isto não tem nada que ver com integrismos ou clericalismos (tema de que tratamos em outra conferência, neste mesmo site: http://www.hottopos.com.br/notand5/algeb.htm).

            Deus, que tem poder para fazer das pedras filhos de Abrahão (Lc 3,8), quer contar com o amor conjugal de Seu João e D. Maria para criar uma nova vida. Deus, que poderia fazer as crianças nascerem sabendo inglês e álgebra, quer contar com a tarefa educadora dos professores. Deus quer contar com engenheiros que canalizem córregos ("não tem um Cristo para acabar com as enchentes em São Paulo?"), com médicos que identifiquem vírus etc... A redescoberta da Igreja é a da vida quotidiana como chamado a uma plenitude da existência cristã. Cristo, que passou 30 anos trabalhando na vida corrente sem fazer nenhum milagre, é modelo para - "já não sou eu que vivo é Cristo que vive em mim" - o engenheiro, o taxista, o empresário, o torneiro mecânico, a dona de casa, o professor...; para cada cristão que assuma o chamado que recebeu no Batismo. Toda a proposta da Igreja é reformulada a partir do alcance dessa filiação divina que temos porque nos é dada em participação da Filiação que é em Cristo. Se pensamos nas quatro grande partes do CC: a doutrina da fé está centrada neste fato fundamental; a liturgia e os sacramentos, também; e o mesmo a moral e a vida de oração.

CC - 1692 O Credo professou a grandeza... de Sua criação e da redenção e da obra da santificação. Isto que a fé confessa, os sacramentos comunicam: pelos "sacramentos que os fizeram renascer" os cristãos se tornam "filhos de Deus" (Jo 1,12; 1 Jo 3,1), "participantes da natureza divina" (2 Pe 1,4). E, reconhecendo essa nova dignidade, são chamados a viver desde então "uma vida digna do Evangelho de Cristo" (Fil 1, 27). É pelos sacramentos e pela oração que recebem a graça etc.

            Assim, a moral, longe de ser um código ou um manual, é um convite ao reconhecimento da dignidade desse "Viver em Cristo" (título da parte moral do CC): Agnosce, christiane, dignitatem tuam! (S. Leão, CC 1691). Para além de proibições e castigos, a moral é uma questão de retribuição de amor a essa presença de Cristo no cristão. Que vou fazer do Cristo que habita em mim? A que vou associá-lo? Com o que vou misturá-lo? "Não sabeis que vossos corpos são membros de Cristo. Ides fazer deles membros de uma prostituta?" (I Cor 6,15) "Não sabeis que sois o templo de Deus e que o Espírito Santo habita em vós?" (I Cor 3,16). É o homem novo de quem tantas vezes fala o Apóstolo, para quem tudo é lícito mas nem tudo convém (I Cor 6,12).

CC - 1691 "Cristão, reconhece a tua dignidade. Por participares agora da natureza divina, não te degeneres retornando à decadência de tua vida passada. Lembra-te da Cabeça a que pertences..." (S. Leão Magno)

            Neste mundo, em que tantos estão desprovidos de qualquer motivação, a vida do cristão - que sabe que Cristo vive nele e está interessado em transformar toda a criação pela ação dos cristãos - torna-se fascinante. Sua vida fora desta consciência parece-lhe como o verso de Adélia Prado: "De de vez em quando Deus me tira a poesia e eu olho pedra e vejo pedra mesmo".             Nesse quadro ressalta a importância da Santa Missa: é por ela que nosso quotidiano é - por Cristo, com Cristo e em Cristo - enviado ao Pai. O CC, ao falar da Missa, conclui:

1332 (chama-se) Santa Missa porque a liturgia na qual se realiza o mistério da salvação se conclui pelo envio dos fiéis (missio) a fim de que eles cumpram a vontade de Deus em sua vida quotidiana.

            Na Missa, se exerce de modo absolutamente único aquela união com Cristo-Cabeça. E "por Cristo, com Cristo e em Cristo" somos levados ao Pai. Do mesmo modo que o Sol, que é luz, dá a participar luz ao ar e o fogo, que é calor, dá a participar calor a um metal a ele exposto, assim a Filiação do Verbo nos é dada em participação por Cristo. Pelo Batismo somos como que "plugados" nEle, e na S. Missa Cristo nos une a seu Sacrifício ante o Pai.

1367 - O sacrifício de Cristo e o sacrifício da Missa são um único sacrifício: "A mesma e única Vítima, o mesmo e único Sacerdote que, pelo ministério dos padres, se oferece agora como se ofereceu na Cruz. A única diferença é o modo de oferecer: então, de maneira sangrenta; sobre o altar, de maneira incruenta".

1368- A missa é também o sacrifício da Igreja. A Igreja, que é o Corpo de Cristo, participa da oferenda de sua Cabeça. Com Ele, ela se oferece toda inteira. Ela se une à Sua intercessão junto ao Pai por todos os homens. Na Missa, o sacrifício de Cristo torna-se também o sacrifício dos membros de Seu Corpo. A vida de cada fiel, seu louvor, suas dores, sua oração, seu trabalho é unido aos de Cristo e à Sua oferenda total e adquire assim um valor novo. O sacrifício de Cristo presente sobre o altar dá a todas as gerações de cristãos a possibilidade de se unir a Seu sacrifício.

            É interessante notar que a própria palavra missa é o particípio plural neutro de enviar, mittere (as coisas que foram enviadas; os fiéis que são enviados); de mesma raiz que míssil (enviável), emissão, demissão, missionário, missão etc. Isto é, todo o nosso dia adquire um valor novo; o valor da Cruz de Cristo, é enviado ao Pai "por Cristo, com Cristo e em Cristo". E isto dá um sentido novo à nossa vida quotidiana. Na verdade, nosso principal título diante de Deus é essa união com o Filho pela qual apresentamos ao Pai nosso sacrifício de adoração, de petição, de ação de graças e de reparação. Isto está expresso de maneira incomparavelmente precisa na própria Oração Eucarística III da Missa:

"Respice, quaesumus, in oblationem, Ecclesiae tuae et, agnoscens Hostiam cuius voluisti immolatione placari...   - Olhai, ó Pai, nós vo-lo pedimos, para a oferenda de Vossa Igreja e reconhecendo a Vítima por cuja imolação quisestes devolver-nos Vossa amizade...".

            Isto é, Deus Pai - que não teria por que se interessar pelas nossas oferendas - olha para elas, porque vendo-nos a nós, não nos vê a nós mas a Seu Filho Jesus, e nos acolhe, por assim dizer, no arrasto da Cruz de Cristo na S. Missa... Cristo, que me amou e se entregou a Si mesmo por mim (Gal 2,20), associa-me a Seu sacrifício. São Paulo que afirma que o sacrifício de Cristo foi superabundante ("onde avultou o pecado, superabundou a graça" Rom 5, 18-20) é o mesmo que diz - de modo aparentemente contraditório: "Eu completo (?) em minha carne o que falta (?) aos sofrimentos de Cristo" (Col 1, 24). E é que Cristo vive nos cristãos: pelo Batismo, participamos de Sua vida e de sua Cruz redentora... Cristo recebia, do alto da Cruz, não só as ofensas / consolos dos que ali estavam presentes, mas também, sendo Deus, via exatamente a atitude de cada um de nós, hoje, 13 de dezembro de 1999, ante sua Cruz: podemos "completar em nossa carne o que falta à Cruz de Cristo".   Pois, Cristo sofreu in genere todas as dores, mas não viveu concretamente, digamos, a fila do Banespa ou o trânsito engarrafado (vive essas dores em mim, se eu as uno à Missa).

            A consciência dessa participação na filiação divina, que alcança as realidades mais prosaicas do nosso quotidiano, é, parece-me, a essência da educação cristã para o nosso tempo.