A Escultura 
- conto de
  Gabriele Greggersen

 

            No meio do jardim de uma casa antiga, havia um homem. Era alto, forte, musculoso, em trajes de legionário romano. Sua aparência incutia respeito e até medo, mas ao mesmo tempo também admiração. Os traços nobres do seu rosto, expressavam determinação, coragem, força e valentia.

            Sua postura autoconfiante, com pés firmemente cravados no chão e braços atados às armas, como se fossem extensão do seu corpo, revelavam experiência na batalha, segurança e liderança. Seus olhos estavam fixos no horizonte. Só tinha um defeito: não saía do lugar, não tinha movimento. Em suma: não era humano.

            Todas as pessoas, que passeavam pelo jardim davam uma paradinha para admirá-lo e venerar a sua imagem. Isso por muitos e muitos anos. Certo dia, uma donzela apaixonou-se perdidamente pela estátua. Visitava-a todos os dias e regava seus pés com suas lágrimas. Tão ardentemente o desejava que, ao cair no sono à noite, teve um sonho. Sonhou que, por um maravilhoso milagre, a escultura havia se encarnado.

            - Que maravilha, pensou. Os deuses me ouviram. Agora serei feliz eternamente. Entretanto, quando ela foi aproximar-se ele perguntou:

            - Que tenho eu com você? Como ousas tocar-me? Eu te conheço?

            - Mas você é aquela obra maravilhosa que o melhor escultor de todos os tempos criou e que todos admiram. Não se lembra das horas que passei te contemplando e chorando a seus pés?

            - Escultor? Mas quem ele pensa que é? Não me lembro dele. Não está vendo que eu me basto a mim mesmo? Não vê como as pessoas me veneram? Não preciso dele e muito menos de você. Vá cuidar das suas servas, que eu tenho muitas conquistas a fazer por esse mundo.

            E foi embora, para desespero da donzela.

            - Não consigo entender como ele pode ser tão egoísta e ingrato. Só pode estar sofrendo de algum tipo de amnésia.

            Nesse mesmo instante, sentiu alguém tocar-lhe o ombro. Era um rapaz que a estava acordando.

            - Está passando bem? perguntou preocupado.

            O moço não era tão bonito quanto a estátua, mas sua gentileza e cortesia logo cativaram a donzela. Ele a ajudou a levantar-se do chão e caminharam juntos pela floresta, e juntos permaneceram até o fim dos tempos.