Entrevista   -  "Não Fritas":
Garçon "Nadando" no Clube dos Professores da USP

 

Videtur tem publicado uma série de matérias com profissionais (policial, comissária de bordo, dentista...) que mostram o "outro lado...". Nesta entrevista, realizada em 9-11-99, Videtur (Sylvio Horta e Jean Lauand) conversa com Carlinhos Fidelis, Nicodemos Gomes e Raimundo Nonato, dedicados garçons do Clube dos Professores da USP

 

V.: O "Clube dos Professores" é um restaurante único em São Paulo: além do alto nível de qualidade e do atendimento, ele está situado no meio de um grande bosque na "Rua do Matão" do campus da Cidade Universitária. Sempre que convidamos colegas estrangeiros, sobretudo europeus, eles ficam impressionados com a paisagem - e também, é claro, com as generosas porções servidas pela churrascaria. O Clube tem recebido personalidades de destaque - como o Imperador do Japão e o presidente de Portugal - e acolhe eventos etc. Como surgiu o Clube?

G.: A idéia do Prof. Goldemberg - o reitor que criou este espaço em 1986 - era (e é o que o Clube de fato realiza) a de ter um ambiente de diálogo e de descontração. Já a localização é privilegiada: a gente nem imagina que exista um lugar destes na cidade de São Paulo. No início, havia só este prédio (o do self-service), depois vieram o da churrascaria e o Anexo, para reservas e eventos (como palestras, lançamentos, coquetéis e até já tivemos sessões dançantes organizadas pela ADUSP...).

V.: Naturalmente, vocês têm como clientela habitual um público diferenciado, composto de professores universitários; o que há de específico nessa clientela? Devem ocorrer, por exemplo, situações curiosas ou divertidas ao lidar com tantos docentes...

G.: Sim, de fato acontecem coisas engraçadas (não que fiquemos reparando, nem dá tempo...) e a gente até aprende aqui. Outro dia eu estava, como a gente diz, "nadando" ("nadar" em gíria de garçon é o corre-corre: nosso trabalho sempre é pauleira; é como nadar: não pode parar nem um segundo; não pode ter rasgueira, que, na nossa gíria, é quando o garçon é relaxado) e tive que "pagar um mico": estava uma professora lá na mesa 29 e pediu fritas; eu fui na cozinha, voltei e disse: "Desculpe, professora, não tem fritas, não!"; ela imediatamente corrigiu: "Como 'não tem fritas, não'? Diga: 'Não fritas'".

V.: Já que entramos na gíria própria, qual é a gíria de garçon para "cliente chato"?

G.: Não, essa não tem...

V.: Por quê? Por que todos são...?

G.: Não, o pessoal aqui é muito bom!

V.: Mas, como em toda comunidade, o pessoal aqui (a começar por nós, entrevistadores, que também somos clientes assíduos do Clube) têm também suas manias e folclores. Por exemplo, tem (ou ) um colega - eu já presenciei isso -, não vou dizer de que Faculdade ele é - que todo dia, ao chegar aqui, repete um ritual: vai testando uma por uma as mesas; reclama que elas estão sem calço, reclama que o reitor não fez as coisas direito e, finalmente, senta-se na mesa "boa"...

G.: É, ele vem praticamente todo dia e quando senta pede sempre uma garrafa de água com gás, "a mais gelada que tiver"... Tem outro que tem mania de ficar abrindo todas as janelas...

            Tem também uma professora - acho que ela é argentina - que todo dia pergunta se a picanha tá boa, se a picanha tá macia...; a gente responde que sim, que não muda, que é o mesmo fornecedor, que a picanha está ótima, e aí ela pede a picanha ou não...: "hoje eu vou mudar para filé!".

            Há alguns distraídos que esquecem celular, talão de cheques (tem um que sempre esquece, a gente tem que ir atrás...) etc. A gente até abriu um depósito de objetos esquecidos...

            Engraçado foi no outro dia: a conta tinha dado uns 9 reais, mas o professor, ao preencher o cheque, olhou para o relógio, viu 14:15h e não teve dúvida: preencheu "quatorze reais e quinze centavos". Aí tivemos que ir atrás dele, bater no vidro do carro e explicar que ele tinha se confundido etc.

V.: Com a experiência (eu sei que um de vocês até iniciou um curso superior de exatas...) dá até para ir identificando a Unidade a que pertence cada grupo de professores. Uma vez eu trouxe um grupo de jornalistas de outros estados para almoçar aqui e eles começaram, meio de brincadeira, a testar se nós, professores da USP, conseguíamos adivinhar pela cara, pelo jeitão (meio nerd ou bicho-grilo etc.) a Faculdade de onde procediam os colegas de outras mesas. Estava no grupo uma jornalista carioca - muito extrovertida - e, quando fomos pegar a sobremesa, ela saiu perguntando aos outros clientes (principalmente os casos em que havia maior certeza no palpite) de que Faculdade eles eram: e não é que - em alguns casos - deu na cabeça: Elétrica da Poli, "FAU ou ECA", Economia, Geologia...

G.: É, a gente vai reconhecendo, pelo cabelo, pelo modo de vestir (rabo de cavalo, brinco, shortão...) e até pelas conversas, pelas piadas (naturalmente, até por ética, a gente não fica escutando, mas às vezes ouve ou mesmo é chamado a entrar na conversa...). Mas aqui sai de tudo: química, lingüística, muita fórmula matemática y elevado a efe de x..., quer dizer: papo cabeça e assunto de aula. E muita política e piada... Como em outros restaurantes, dirigem a nós, garçons, piadas e trocadilhos do tipo: "Vê um chopps e dois pastel" ou "Só por curiosidade: se fosse para pagar, quanto é que era?", "Esse país não tem jeito: tanta gente boa na cadeia e vocês aí soltos" ou como aquele professor que ficou um bom tempo sem vir e quando voltou cumprimentou dizendo: "Oh, há quanto tempo! Você não foi mandado embora ainda?". Outro fica mexendo com o cetim do paletó do Nonato etc.

            Na churrascaria, além das formas comuns (mal passado, ao ponto e bem passado), às vezes recebemos pedidos mais complicados: a pessoa quer tostado por fora e vermelho por dentro, mas sem estar sangrando etc. Aí sobra para o Zé Carlos (o churrasqueiro)...

            Para falar a verdade, o cliente aqui é muito mais compreensivo e educado do que em outros restaurantes... É muito bacana trabalhar aqui; há casos de professores que viajam para o exterior e lembram de mandar um cartão para a gente...

            Como o senhor disse, vem muito convidado estrangeiro (a gente acaba aprendendo o básico de inglês e sempre tem algum professor que ajuda a fazer o pedido) e eles ficam maravilhados: outro dia vieram uns japoneses e em vez de comer ficavam contemplando o bosque; uma delegação de uns vinte chineses queriam saber - perguntaram em chinês, traduziram para a gente - por que o bambuzal (do estacionamento) era só para decoração e não aproveitávamos o bambu para os pratos...