O Amor como Vertigem e Êxtase -

Um poema de Gonçalves Dias analisado à luz do pensamento de Alfonso López Quintás

Gabriel Perissé
Doutorando em Educação (FEUSP)
perisse@uol.com.br

            Um poema representativo é aquele que transcende os limites de sua criação no tempo e no espaço. É aquele que transcende as idiossincrasias de seu criador, as circunstâncias próprias de uma mentalidade, de uma época, de um movimento literário. É aquele que faz sentido para outros leitores que não compartilham aquela época, aquelas idiossincrasias, aquela mentalidade etc., em virtude das quais o poema se tornou o que é.

            Um poema representativo não representa apenas uma data ou uma personalidade, mas um aspecto essencial da vida humana.

            Se existe um especial prazer na arte da crítica literária, é o de detectar essa transcendência, estabelecendo uma relação empática e objetiva entre o que foi escrito e a minha (a nossa) concreta realidade, mesmo que entre leitor e autor existam abismos históricos, ideológicos e lingüísticos.

            O encontro entre Gonçalves Dias e Alfonso López Quintás realiza-se nesse “lugar” único da transcendência. O poeta brasileiro romântico e o pensador espanhol, contemporâneo nosso, conversam diante de nós.

            O poema Se se Morre de Amor! parece ter sido composto por encomenda para ilustrar uma das mais promissoras intuições de Quintás. A intuição de que o ser humano está sujeito a duas experiências que, à primeira vista, parecem semelhantes: a experiência do êxtase e a experiência da vertigem.

            Leiamos o poema:

Se Se Morre de Amor![1]

Meere und Berge und Horizonte zwischen
den Liebenden — aber die Seelen versetzen
sich aus dem staubigen Kerker und treffen
sich im Paradiese der Liebe.
[2]
(Schiller, Die Räuber)

Se se morre de amor! — Não, não se morre,

Quando é fascinação que nos surpreende

De ruidoso sarau entre festejos;

Quando luzes, calor, orquestra e flores

5      Assomos de prazer nos raiam n’alma,

Que embelezada e solta em tal ambiente

No que ouve, e no que vê prazer alcança!

Simpáticas feições, cintura breve,

Graciosa postura, porte airoso,

10    Uma fita, uma flor entre os cabelos,

Um quê mal definido, acaso podem

Num engano d’amor arrebatar-nos.

Mas isso amor não é; isso é delírio,

Devaneio, ilusão, que se esvaece

15    Ao som final da orquestra, ao derradeiro

Clarão, que as luzes no morrer despedem:

Se outro nome lhe dão, se amor o chamam,

D’amor igual ninguém sucumbe à perda.

 

Amor é vida; é ter constantemente

20    Alma, sentidos, coração — abertos

Ao grande, ao belo; é ser capaz d’extremos,

D’altas virtudes, té capaz de crimes!

Compr’ender o infinito, a imensidade,

E a natureza e Deus; gostar dos campos,

25    D’aves, flores, murmúrios solitários;

Buscar tristeza, a soledade, o ermo,

E ter o coração em riso e festa;

E à branda festa, ao riso da nossa alma

Fontes de pranto intercalar sem custo;

30    Conhecer o prazer e a desventura

No mesmo tempo, e ser no mesmo ponto

O ditoso, o misérrimo dos entes:

Isso é amor, e desse amor se morre!

Amar, e não saber, não ter coragem

35    Para dizer que amor que em nós sentimos;

Temer qu’olhos profanos nos devassem

O templo, onde a melhor porção da vida

Se concentra; onde avaros recatamos

Essa fonte de amor, esses tesouros

40    Inesgotáveis, d’ilusões floridas;

Sentir, sem que se veja, a quem se adora.

Compr’ender, sem lhe ouvir, seus pensamentos,

Segui-la, sem poder fitar seus olhos,

Amá-la, sem ousar dizer que amamos,

45    E, temendo roçar os seus vestidos,

Arder por afogá-la em mil abraços:

Isso é amor, e desse amor se morre!

 

Se tal paixão enfim transborda,

Se tem na terra o galardão devido

50    Em recíproco afeto; e unidas, uma,

Dois seres, duas vidas se procuram,

Entendem-se, confundem-se e penetram

Juntas — em puro céu d’êxtasis puros:

Se logo a mão do fado as torna estranhas,

55    Se os duplica e separa, quando unidos

A mesma vida circulava em ambos;

 

Que será do que fica, e do que longe

Serve às borrascas de ludíbrio e escárnio?

Pode o raio num píncaro caindo,

60    Torná-lo dois, e o mar correr entre ambos;

Pode rachar o tronco levantado

E dois cimos depois verem-se erguidos,

Sinais mostrando da aliança antiga;

 

Dois corações porém, que juntos batem,

65    Que juntos vivem, — se os separam, morrem;

Ou se entre o próprio estrago inda vegetam,

Se aparência de vida, em mal, conservam,

Ânsias cruas resumem do proscrito,

Que busca achar no berço a sepultura!

 

70    Esse, que sobrevive à própria ruína,

Ao seu viver do coração, — às gratas

Ilusões, quando em leito solitário,

Entre as sombras da noite, em larga insônia,

Devaneiando, a futurar venturas,

75    Mostra-se e brinca a apetecida imagem;

Esse, que à dor tamanha não sucumbe,

Inveja a quem na sepultura encontra

Dos males seus o desejado termo!

            Alfonso López Quintás é um dos pensadores contemporâneos mais preocupados com o poder formativo da experiência estética. Para ele, enquanto professor, a contemplação da arte e a reflexão filosófica constituem duas vertentes de um só projeto educativo. Ética e estética, beleza e lógica, criatividade e intuições metafísicas, mística e poesia são “condimentos” indispensáveis para a formação integral de uma pessoa.

            Em seus livros e palestras, Quintás lê A metamorfose, de Kafka,  O túnel, de Ernesto Sábato, Bodas de Sangue, de Lorca, e outras obras de outros autores (Sartre, Camus, Miguel de Unamuno, Hermann Hesse), descortinando a densidade humanística que uma leitura crítica baseada em simples formalismos estéticos mal consegue identificar.

            A cooperação entre filosofia e literatura é, nessa perspectiva, fundamental. Sem prejudicar a fruição literária, Quintás, ao contrário, intensifica-a, trazendo à luz “lo que Unamuno denominaba ‘intrahistoria’ de los personajes, la peripecia íntima que viven, los ‘ámbitos de realidad’ que crean o que destruyen, los procesos de vértigo o de éxtasis que siguen, los mundos que construyen o que aniquilan...”[3]

            O método lúdico-ambital que Quintás propõe para analisar textos literários exige que o leitor “brinque” com esses textos, que os vivencie como um jogo, como um âmbito em que seja possível refazer pessoalmente as experiências fundamentais ali descritas, ali vivenciadas de um modo “irreal”, “ficcional”.

            Ficcional e irreal, mas de modo algum inautêntico.

            Vemos um indígena australiano “brincando” de canguru (essa imagem é sugerida por Huizinga no clássico Homo Ludens[4]), envolvido, em êxtase, concentrado nos movimentos da sua dança mágica, empenhado em atrair a essência do animal, em ser um símbolo vivo do animal. Esse jogo, essa brincadeira, é uma das tarefas mais sérias, mais sagradas e decisivas para o selvagem. Ele “faz de conta”, “finge”, “imagina” que é canguru, mas na verdade está captando o ser do canguru, está celebrando a existência do canguru, porque acredita que o canguru e ele são uma só realidade, porque a ele se une poética, teatral e misticamente.

            Portanto, a leitura criativa de um poema, de um conto, de um romance, exige “dançar conforme a música” do texto, para captar de um modo pessoal os aspectos relevantes da obra em questão, sem deixar-se fascinar (e distrair), por exemplo, pelas “receitas” analíticas da moda, como o foram, a seu tempo, o estruturalismo e as leituras “marxistas” ou “heideggerianas” da obra literária.

            A força intrínseca do poema de Gonçalves Dias acima transcrito radica na antítese “amor generoso” x “amor egoísta”.

 

            Na primeira estrofe, há uma “argumentação”. Levanta-se como que uma hipótese: morre-se de amor, quando esse amor (se assim o chamam) é mera empolgação causada por um ambiente colorido, animado, simpático, regido pelas seduções, pela cintura fina de uma moça, pela música animada, pelo perfume inebriante das flores, pelas luzes ofuscantes?

            O prazer que a alma alcança (verso 7), ouvindo essas músicas, essas vozes em estado de exaltação, vendo essas imagens insinuantes, leva ao delírio, à vertigem, à tontura, a uma sensação de redemoinho. A um arrebatamento negativo, mais excitação do que propriamente enlevo e encanto. E desse amor não se morre, porque “isso amor não é” (verso 13).

            E como se sabe que não é amor?

            A fugacidade é um dos sinais. E a sensação de vazio, tão logo a ambientação fascinante, excitante, delirante, desaparece. Assim que a orquestra emite o último acorde (verso 15), assim que o dia amanhece e a luz natural substitui o clarão que mantinha o ambiente iluminado (verso 16), vem à tona o tédio, sente-se o mais profundo cansaço.

            Esse cansaço e esse tédio não são a morte, no sentido de um “sair de si mesmo”. Desse “amor” ninguém morre quando acaba (verso 18). Uma vez que acaba! Precisamente porque acaba!

            A segunda estrofe define o amor como um estado de êxtase, numa abertura (verso 20) generosa de corpo, sensibilidade e alma a valores que levam o homem ao extremo de si mesmo: à beleza, ao grandioso, à virtude — até mesmo a crimes (verso 22), porque por amor se pode fazer “loucuras” aos olhos de muitos —, à compreensão do natural e do divino, do terreno e do celeste, das mesmas flores que estavam na festa alucinante mas agora transmitem a imagem da vida em plenitude (versos 23-5).

            A experiência extática do amor não é estática. Leva à descoberta de uma festa do coração que convive com a tristeza e com as lágrimas (versos 26-9), leva à descoberta dessa realidade paradoxal: somos os mais felizes e os mais infelizes dos seres, quando amamos (verso 32).

            E desse amor se morre! Morre-se porque é um amor verdadeiro. “Morrer de amor” é uma loucura, é um “crime”, é sucumbir por ter vivido um sentimento fortíssimo. Mas a pergunta retorna: e agora, como se sabe que esse amor é verdadeiro?

            A exaltação do amor egoísta assemelha-se mas nada tem a ver com o entusiasmo do amor generoso. Sentir vertigem não leva à morte. Pode-se desmaiar depois de uma noite de orgia. Pode-se perder os sentidos depois de uma falsa experiência de amor. Se o desejado não é autenticamente desejável, quem deseja não “morre de amor”, simplesmente fica alienado, perde-se, frustra-se.

            Contudo, “si lo deseado es deseable, en cuanto ofrece posibilidades de juego creador ao hombre, éste no sale de sí, se eleva a lo mejor de sí mismo. Es la experiencia de éxtasis, que confiere al hombre su cabal identidad.”[5]

            A experiência filosófica e mística do ocidente vê um sentido na idéia da morte que não significa destruição pura e simples. O morrer pode bem ter o sentido de completar os próprios dias, de alcançar a plenitude da vida, de ultrapassar a mediocridade, e, assim, estar pronto a entrar no plano do que é valioso, mais valioso do que a própria vida.

            A brasileiríssima gíria “lindo de morrer” expressa essa intuição. O que se vê é tão bonito, tão extraordinariamente lindo, que quem o contempla sente-se perto da morte, sente-se chamado a entregar a alma, num estado de êxtase, como se viver já não tivesse a menor importância.

            A frase de Sófocles — “para o morto não existem mais armadilhas” — também pode ajudar-nos a entender a morte como uma libertação das ciladas dos baixos instintos, dos interesses escusos, dos pseudo-amores, das ilusões, dos auto-enganos.

            “Morrer de amor” é então viver plena e somente de amor. Vale a pena entregar tudo para viver/morrer um grande amor. Vinícius de Moraes resume tudo na última estrofe de seu Soneto do amor total:

E de te amar assim muito e amiúde,

É que um dia em teu corpo de repente

Hei de morrer de amar mais do que pude.

            O amante que “morre de amor” dá o testemunho mais vivo de seu amor. É um martírio. O martírio é a morte sem o aniquilamento do mais essencial, do mais importante. Ao contrário, o martírio é a glorificação do essencial.

            Na terceira estrofe do seu poema, Gonçalves Dias capta novos matizes do êxtase amoroso. Quem ama receia banalizar, expor inutilmente, medir o amor inesgotável (versos 34-5), dado que se trata de algo sagrado, valioso, “a melhor porção da vida” (verso 37).

            Esse cuidado para não ferir o amor e a quem se ama, essa sensibilidade aguçada de quem ama, esse pudor e esse ardor, esse desejo de união absoluta (versos 41-46) configuram o êxtase ascensional, com traços de experiência do indizível, como num estado de adoração — sentir sem ver, compreender sem ouvir, saber sem poder dizer. Esse misto de impotência e onipotência, de receio e de integração, pertence ao amor verdadeiro. E desse amor se morre (verso 47).

            O afeto recíproco (verso 50) cria um âmbito de plenitude: um “puro céu d’êxtasis puros” (verso 53). É a união dos que se amam, e a constatação dessa pureza remete, não ao puritanismo, mas à genuinidade, tal como quando falamos “ar puro”, “água pura”, dizendo implicitamente: “ar ar”, “água água”, ar que é ar e água que é realmente água.

            O amor puro. Mas desse amor também se morre! Quando, bruscamente, interfere a “mão do fado” (verso 54). É de tal ordem a união que, se porventura os que se amam precisam separar-se, morrem os dois, ou desejam morrer (verso 65), uma vez que esse amor é a própria vida.

            Quem uma vez experimentou o êxtase do amor, o amor verdadeiro, portanto, já não pode viver sem ele. A última estrofe retrata o amante que sobreviveu à própria destruição (verso 70) e que, numa insônia sem fim, vê a imagem de quem ama (verso 75), e inveja aqueles que encontram o fim do seu sofrimento no cemitério.

            Também desse amor se morre, ou pelo menos se deseja morrer — trata-se do amor que não sucumbe à dor (da separação) tamanha (verso 76) mas já não se habitua nem espera a vertigem. Está entre as sombras da noite (verso 73), e ao mesmo tempo fora do âmbito de luz que o amor instaura.

            As noções de “êxtase” e “vertigem” propiciam uma leitura criativa de textos como este de Gonçalves Dias. Pois convidam o leitor a distinguir com mais lucidez as realidades que o habitam e o circundam.

            No caso do amor que leva à morte, podemos discernir melhor os matizes desse amor, dessa morte, conquistando a consciência de que as palavras, sobretudo quando poeticamente em ação, assumem novos sentidos que transcendem os significados do dicionário, por mais preciso que este seja.



[1] Em: Os melhores poemas de Gonçalves Dias. São Paulo, Global Editora, 1991, págs. 69-71. Este poema foi publicado pela primeira vez em Cantos (1857), na edição Brochaus, em Dresch.

[2] Mares e montanhas e terras separam

Os amantes, mas as almas se imaginam

Fora do cárcere de pó. E se encontram

Para sempre no Paraíso do Amor.

[3] Alfonso López Quintás. Literatura y formación humana - García Lorca, Unamuno, Hesse, Kafka, Buero Vallejo, R. Bach. Madrid, San Pablo, 1997, pág. 7.

[4] Johan Huizinga. Homo Ludens - o jogo como elemento da cultura. São Paulo, EDUSP/Perspectiva, 1971, págs. 27-8.

[5] Alfonso López Quintás.  Vértigo y éxtasis - bases para una vida creativa. Madrid, Asociación para el Progreso de las Ciencias Humanas, 1992, pág. 137.