A História e a Geografia dos PCNs

notas da palestra - e textos para debate - que o Prof. Elian Alabi Lucci tem proferido - ao longo do ano 2000 - para professores de ensino fundamental e médio em todo o Brasil

 

Na sociedade do conhecimento em que estamos começando a viver a Educação e o livro passam a ter grande importância.

“A medida da educação de uma sociedade toma como referência o grau de analfabetismo da população. Ler e escrever, hoje – não se perca de vista que nem sempre foi assim – , é parte integrante da realidade humana. Em princípio, é menos homem quem não sabe ler e escrever” (isso, evidentemente, em se tratando de uma avaliação social; há porém, níveis mais profundos de ser mais ou menos homem). Uma nova forma de pensar. Sylvio Roque de G. Horta in: Educação e Cultura. DLO – FFLCH/USP. 1996.

            Segundo E.F. Schumacker, no seu livro Small is beautiful, o maior recurso é a Educação. Também Peter Drucker, o mago da administração neste final de século, diz, ao falar da sociedade do conhecimento, que a nossa esperança de um futuro melhor reside na educação.

DETERMINANTES DAS DESIGUALDADES SOCIAIS NO BRASIL
A educação como ponto de convergência

“A melhoria do sistema educacional é um fator fundamental para reduzir a pobreza, e as desigualdades sociais em suas diversas manifestações. As mudanças requeridas no mundo contemporâneo exigem que a educação se dê, cada vez mais, o tempo todo e nos mais diferentes espaços.”

Tema Especial. Fundação Oswaldo Cruz. Rio de Janeiro, 1999.

            Para acompanhar estas mudanças que ocorrem no mundo com o processo de globalização, tornam-se necessárias também algumas mudanças no enfoque metodológico da Educação, adequando-a aos novos tempos e as novas exigências da sociedade pós-industrial (ou sociedade dos serviços ou ainda da informação, como também é conhecida nossa sociedade nestes dias que correm).

            Pensando nisto, o governo vem tentando implementar novos caminhos para a educação brasileira, através da implantação de um ensino interdisciplinar, regido pelos PCNs e pela transversalidade.

            Os PCNs são um conjunto de orientações para melhorar a qualidade do ensino e contribuir para a formação de cidadãos mais conscientes, críticos, autônomos e participativos. Eles orientam sobre o que e como ensinar. Para sua implantação, são levados em consideração estudos psicopedagógicos e experiências de currículos nacionais e internacionais.

            Os PCNs sugerem que o conhecimento pronto e as etapas exigidas de aprendizado devem dar lugar a ações que levem a criança a buscar seu próprio conhecimento. Para isto a sugestão é o uso dos temas transversais como Ética, Pluralidade cultural, Meio ambiente, Saúde, Orientação sexual e Trabalho e consumo. Mas um dos fortes motivos para a implantação dessas medidas é eliminar as causas da repetência e da evasão escolar (um em cada três alunos não conclui a série em que se matricula).

            Outra sugestão dos PCNs é a divisão das séries em ciclos. Assim, os professores poderiam trabalhar o conteúdo dos currículos num período maior de tempo e respeitar os diferentes ritmos de aprendizagem. Os PCNs sugerem também que o ensino seja realizado a partir da realidade do aluno.

            O professor, ao seguir a orientação dos PCNs, também vai abordar questões relativas a outras matérias além da sua. É a chamada interdisciplinaridade.

            Mas para combater a ignorância que ainda marca o mundo hoje, sobretudo em países como o nosso, que apresenta grandes diferenças regionais, sociais e culturais, outro elemento de transcendental importância é o livro e principalmente o livro didático.

“Zenão chegou à filosofia apenas por acaso. Originalmente, era um bem sucedido comercialmente. Quando certa vez sofre um naufrágio, com um carregamento de púrpura, alugou um quarto na casa de um livreiro em Atenas. Ali, Zenão observou o senhorio lendo um livro filosófico. Isso o levaria à filosofia e também a louvar os naufrágios. Com efeito na filosofia Zenão chegaria longe. Um antigo informante relata que 'ele era um ávido pesquisador que sempre ia ao fundo das coisas'". A escada dos fundos da Filosofia. Wilhelm Weischedel. São Paulo, Angra, 1999.

ENSINO: MEIO E FIM / O MATERIAL DIDÁTICO EM DISCUSSÃO

            Para se abrir uma discussão sobre o ensino e o material didático devemos levar em consideração primeiramente que – segundo pesquisa do Ministério da Cultura e do Programa Leia Brasil – o único livro que grande parte da população brasileira conhece é o escolar ou didático e que, terminada a escola, o indivíduo perde o contato com a leitura.

            Isto nos leva a perceber como é grande a responsabilidade de quem produz material didático e, sobretudo, que o livro tem uma responsabilidade enorme no processo de formação da criança como futuro leitor. Maior ainda é esta responsabilidade quando pessoas ligadas a programas de leitura no Brasil são unânimes em afirmar que “sem leitores não haverá, de fato, estado de direito”.

“(...) A sociedade democrática é filha do livro, é o triunfo do livro escrito pelo homem escritor sobre o livro revelado por Deus e sobre o livro das leis ditadas pela autocracia. (...). Sylvio Roque de G. Horta in: Educação e Cultura. DLO – FFLCH/USP. 1996.

            Quanto aos livros de História e de Geografia, tenho como ponto de vista que, na atual conjuntura, o que ele deve procurar é dar uma visão de mundo aos jovens leitores, de acordo com suas faixas etárias. Nesse sentido, diz – ao falar do papel do geógrafo hoje – Milton Santos: “a ausência de uma visão de conjunto do mundo, tal como ele se constitui hoje, pode, entre muitas outras coisas, tornar a Geografia escrava do empirismo, levando a um ensino e a uma prática de alienação” (Ciência Geográfica, agosto/99, p. 5).

            Para dar esta visão, é preciso levar o aluno a pensar. E, assim, a História e a Geografia necessitam da ajuda da Filosofia, da Sociologia e da Ética, que está ligada à primeira.

            Já na Metafísica de Aristóteles – e com ele toda a tradição de pensamento ocidental – se afirma que o ócio (em seu sentido de skholé, otium) é a condição fundamental do pensar. Será que o “tempo livre” de hoje – imposto pela globalização (em diversas formas) – não poderia ser tomado como um convite àquela festiva e receptiva atitude intelectual de skholé (da qual, não por acaso, derivou-se a palavra “escola”), sendo usado para o pensar, propiciado pelos manuais escolares?

            Qual seria, então, o pensamento mais importante tanto em História como em Geografia hoje, a ser proposto pelos livros?

            A resposta, sem dúvida nenhuma, é: a desigualdade social, a crescente exclusão das pessoas dos processos de produção que se projeta no processo de organização do espaço e na corrupção generalizada, com todas as suas conseqüências, extrínsecas e intrínsecas.

            Para isto, a História e a Geografia precisam voltar a serem encaradas e ensinadas – mutatis mutandis – como o fizeram os árabes e alguns pensadores da ciência geográfica: para fazer a guerra.

            Naturalmente, a guerra que propomos hoje é a que se deve empreender contra tudo o que aliena o ser humano de sua dignidade. E não permitir que ele leia é ferir a sua dignidade.