A Experiência com a Cegueira
(Das Experiment mit der Blindheit - conferência de 1979)

 

Josef Pieper
(trad.: Luiz Jean Lauand)
Esta tradução em edição eletrônica é
dedicada à
Profa. Dra. María de la
Concepción Piñero Valverde

 

 

            Meditando sobre os descaminhos do mundo, surge o desejo de que a verdade pudesse, alguma vez, mostrar-se de forma totalmente irrefutável, como algo simplesmente irresistível, pela sua própria força arrebatadora.

            Mas, quão incertos são tais desejos e quão sinistras podem ser as formas em que, na realidade, dá-se a liberdade e também a fraqueza dos homens e como a verdade de modo algum "se impõe", tudo isto torna-se manifesto na história que narraremos a seguir.

            Nela se descreve uma experiência. Uma experiência que, aliás, não pode ser repetida por todo mundo. Mas, talvez, esse "todo mundo" reconheça que pode muito bem ocorrer uma repetição em qualquer época, de modo igual ou semelhante. Trata-se de uma experiência com a cegueira; um dos protagonistas é um homem cego. Ao final, ficará evidente que também um olho que vê pode ser cego.

            Aliás, esse tipo especial de cegueira é bem o tema de nossa história.

            Um dos protagonistas é, como dizia, um cego, um homem ainda relativamente jovem. Todos o conheciam, pois ele não sabia fazer outra coisa a não ser ficar sentado na rua pedindo esmola.

            Porém, que significa exatamente: "todos o conheciam"? Conheciam, sim, seu jeito, sua voz e aquele seu rosto um tanto vazio e rígido. Mas será que seriam capazes de reconhecê-lo em um outro ambiente, digamos, no jantar em casa de seus pais - com quem ele mora - ou no caminho, guiado por um menino? Isto é duvidoso, e este detalhe tem sua importância em nossa história.

            Para ir direto ao ponto mais importante: aconteceu que, um dia, esse homem, repentinamente, recobrou a visão. Não, "recobrou", não, mas pela primeira vez pôde ver (pois ele era cego de nascença...). O mendigo lavou-se numa água parada e, de repente, ganhou a visão.

            Talvez esse lavar-se não tenha sido o decisivo: algo tinha ocorrido antes. E, por isso, precisamos falar também de um outro personagem principal. Mas este não pode ser caracterizado tão facilmente.

            O povo andava falando do "homem milagroso", muitos o chamavam "o bom" e outros até o "Bendito". Mas, para nossa história, isto não é lá muito importante. Mais importante é que ele era suspeito. Suspeito ante quem? E suspeito de quê? Também isto - esta última pergunta - é difícil de responder. Ele era suspeito para os poderosos. Mas por que? Bem, isto só eles é que sabiam. Diziam que ele desprezava as leis e os costumes. Mas claramente não era essa a razão da suspeita, ainda que a conduta daquele homem, para muitos, parecesse fora do comum, fora da ordem.

            Aliás, "suspeita" não é também a palavra certa; o que havia era inveja e quase ódio. Os detentores do poder temiam a crescente popularidade do homem dos milagres, sua influência sobre a massa insensata. E isso com razão, se bem que a gente do povo, que não quer cair na antipatia dos poderosos, já começava a acautelar-se em manifestar de maneira demasiadamente clara sua admiração - admiração um tanto inconsiderada - por aquele homem, pois não era totalmente isento de perigo fazê-lo. E, por fim, não sabiam realmente a quantas andavam com ele.

            O fato é que esse homem - também ele relativamente jovem, pouco mais de trinta anos - tinha-se encontrado com o cego na rua. Deu-se um curto diálogo entre os dois no qual o mendigo ouviu, misturadas com a dele, algumas outras vozes. E, então, o cego sentiu um dedo sobre seus olhos que parecia esfregá-los com uma espécie de pomada. Ao mesmo tempo, uma das vozes lhe dizia que ele devia ir lavar-se numa tal piscina. E então, como dissemos, tornou-se capaz de ver.

            E assim começa a experiência.

"Caminhando, viu Jesus um cego de nascença. Os seus discípulos indagaram dele: 'Mestre, quem pecou, este homem ou seus pais, para que nascesse cego?' Jesus respondeu: 'Nem este pecou, nem seus pais, mas é necessário que nele se manifestem as obras de Deus. Enquanto for dia, cumpre-me terminar as obras daquele que me enviou. Virá a noite, na qual já ninguém pode trabalhar. Por isso, enquanto estou no mundo, sou a luz do mundo'. Dito isto, cuspiu no chão, fez um pouco de lodo com a saliva e com o lodo ungiu os olhos do cego. Depois lhe disse: 'Vai, lava-te na piscina de Siloé (que significa Emissário)'. O cego foi, lavou-se e voltou com vista'".

            Como dizia, com este fato inicia-se a experiência com a cegueira. No decorrer dessa experiência, mostrar-se-á o que acontece com a irrefutabilidade de uma verdade límpida.

http://www.geocities.com/Heartland/Acres/1923/biblepics.html

            Já entre os primeiros que viram o mendigo passar pela rua, até mesmo entre seus vizinhos, não foram poucos os que simplesmente questionavam se este homem seria o mesmo que, há anos, tinha estado sentado, cego, na rua. Outros afirmavam que sim, que apesar de tudo era ele, inconfundível. Pois não se via no rosto, no cabelo, nos andrajos? Tudo exatamente o mesmo! Outros, ainda, teimavam: não, certamente há determinadas semelhanças, mas trata-se de uma outra pessoa.

            Ora, podia-se perguntar a ele mesmo. E sua resposta, naturalmente, foi contar o que tinha ocorrido. Mas, o que sabia ele do ocorrido? Se o tal do "Bendito" neste instante passasse diante dele, o mendigo não o teria reconhecido, pois nem sequer o tinha visto. E assim, à irônica pergunta: "Onde está, então, o que te curou?", ele teve que responder que não sabia. Não se pode imaginar a envolvente satisfação com que os espíritos críticos constataram o caráter já nem sequer duvidoso do caso: então um cego, um sujeito sempre tido por cego, e, além disso claramente um marginalizado, pretende ter sido curado por aquele de quem tanto se fala; e então verifica-se que a coisa nem sequer se deu na presença do tal taumaturgo; o rapaz só ouviu falar dele e absolutamente não o conhece. Não, esta história está muito esquisita, mal arranjada.

"Então os vizinhos e aqueles que antes o tinham visto mendigar perguntavam: 'Não é este aquele que sentado mendigava?' Respondiam alguns: 'É ele'. Outros contestavam: 'De modo algum, não é ele, mas alguém parecido com ele'. Ele, porém, dizia: 'Sou eu mesmo'. Perguntaram-lhe então: 'Como te foram abertos os olhos?' Respondeu ele: 'Aquele homem que se chama Jesus fez lodo, ungiu-me os olhos e disse-me: Vai à piscina de Siloé e lava-te. Fui, lavei-me e vejo'. Interrogaram-no: 'Onde está esse homem?' Respondeu: 'Não sei'".

            A experiência continua. Porém, deve-se falar ainda de uma circunstância especial e, na realidade, um tanto desconcertante. O milagroso era tido, como já ficou dito, como um detrator dos costumes. E não só havia muitos costumes, mas também cuidava-se com especial rigor de observá-los. Por exemplo, havia dias em que, por motivo algum, se podia sujar as mãos: isso era tido quase como sacrilégio. Ora, por que aquele homem tinha que fazer, precisamente num desses dias, uma imunda pomada de cuspe e pó da rua para esfregar os olhos do mendigo? O fato é que o fez e isto basta! E não é surpreendente que, portanto, a coisa ganhasse o aspecto de provocação pública.

            Em todo caso, o mendigo - ainda meio atordoado pelo ocorrido - foi conduzido ante os detentores do poder. E, novamente, contou de modo breve e já um tanto impaciente o que lhe havia ocorrido.

            A partir daí, formaram-se dois partidos entre os poderosos: um, que julgava que o decisivo era o desprezo pelos costumes e, portanto, tinha por impossível a cura; enquanto o outro indagava se alguém capaz de curar um cego pode ser um mau homem. E ele mesmo, o pretensamente curado, que dizia? Bem, ele o considerava um grande homem. E isso é compreensível. Mas, ele nem sequer conhecia o seu "grande homem"... O resultado foi que já ninguém mais acreditava no fato. Não era verdade, não podia ser verdade.

"Levaram então o que fora cego aos fariseus. Ora, era sábado quando Jesus fez o lodo e lhe abriu os olhos. Os fariseus indagaram dele novamente de que modo ficara vendo. Respondeu-lhes: 'Pôs-me lodo nos olhos, lavei-me e vejo'. Diziam alguns dos fariseus: 'Este homem não é de Deus, pois não guarda o sábado'. Outros replicavam: 'Como pode um pecador fazer tais prodígios?' E havia desacordo entre eles. Perguntaram ainda ao cego: 'Que dizes tu daquele que te abriu os olhos?' 'É um profeta', respondeu ele. Mas os judeus não quiseram admitir que aquele homem tivesse sido cego e que tivesse recobrado a vista".

            Mas não haveria algum modo de descobrir se aquele mendigo que costumava ficar sentado na rua, aos olhos de todos, era o mesmo que este jovem cujos olhos claramente estavam sãos e que afirmava ter sido cego e subitamente curado? (Talvez até ele nunca tivesse realmente sido cego!). Onde se podia obter informações sobre o que realmente tinha ocorrido? Bem, se há alguém que pode dizer algo são os pais do homem.

            Foram pois trazidos e indagados. Não, não foram simplesmente indagados, foi um autêntico interrogatório. E precisamente isto foi o que pôs tudo a perder. Essas pessoas simples do povo, não acostumadas ao rebuscado linguajar jurídico, ficaram amedrontadas. Já tinham ouvido dizer que quem falasse a favor do taumaturgo seria proscrito, o que era algo que não se podia subestimar. E, além disso, que é que eles tinham que ver com aquele homem? Nada, absolutamente nada. De modo que simplesmente recusaram-se a informar sobre o assunto. Em todo caso, não negaram que era seu filho e admitiram também que tinha sido cego desde o nascimento, pois isso não poderia ser mal interpretado. Agora, de que modo ele hoje vê - disso, não sabiam nada, absolutamente nada. Ele, aliás, já não é nenhuma criança e mudo também não é.

"Então, chamaram os seus pais e interrogaram-nos: 'É este o vosso filho? Afirmais que ele nasceu cego? Pois como é que agora vê?' Seus pais responderam: 'Sabemos que este é o nosso filho, e que nasceu cego. Mas não sabemos como agora ficou vendo, nem quem lhe abriu os olhos. Perguntai a ele. Tem idade. Que ele mesmo explique'. Seus pais disseram isto, porque temiam os judeus, pois os judeus tinham ameaçado expulsar da sinagoga todo aquele que reconhecesse Jesus como o Cristo. Por isso é que responderam: 'Ele tem idade, perguntai a ele'".

            Mas para que, exatamente, era necessário saber o que os pais pensavam da cura? Se eles não tinham deixado nenhuma dúvida sobre o fato de que este homem, hoje com visão, realmente lhes tinha nascido cego; era seu filho e até ontem cego.

            O que então não estava claro? Naturalmente, o que "não estava claro" era como se podia explicar essa cura. Mas que tinha havido cura... Por isso, convocaram, ainda outra vez, o próprio mendigo a interrogatório. Evidentemente, já não se tratava de ouvir e "entender", mas precisamente de não ouvir, de abafar. Numa palavra: o mendigo devia ser reduzido ao silêncio.

            Tal objetivo - como todo mundo sabe - pode ser atingido de diversos modos, ou melhor, pode-se tentar atingi-lo (no caso, não se conseguiria...).

            "Você não pode - assim disseram os poderosos ao mendigo - você não pode, naturalmente, entender nossas razões, por isso seu erro é compreensível. Mas nós estamos muito bem informados de que você se engana. Seria bom para você considerar isso. E, principalmente, grave bem na memória uma coisa: quem está dizendo isto a você não é um qualquer, mas somos nós, nós que somos não só os sábios, mas também os poderosos. Então, pense bem, medite com calma e quando você tiver compreendido conte-nos pela última vez: o que é que realmente aconteceu?"

            Não é totalmente certo que o mendigo se tivesse apercebido das ameaças que se encerravam nessas palavras: ele era demasiadamente simples para isso. Mas sentiu-se subitamente irritado com tanto palavreado e deixou-se arrastar pela ira.

            Ajudou-o a isso (por assim dizer) o fato de não ter nenhuma destreza na arte de ter direitos: tudo o que ele tinha "aprendido" era unicamente levar o transeunte a dar esmola, e isto lhe bastava.

            Seja como for, o mendigo opôs à intimação dos "eruditos" uma resposta inesperadamente atrevida, não lhes poupou sequer a marota e irônica pergunta de se por acaso também eles não estavam querendo se tornar adeptos do Bendito. E, em vez de atender-lhes o desejo de uma vez mais contar o ocorrido, começou a demonstrar-lhes que não era ele quem se enganava, mas eles, os poderosos.

            Naturalmente, a coisa terminou com a expulsão do mendigo.

"Tornaram a chamar o homem que fora cego, dizendo-lhe: 'Dá glória a Deus! Nós sabemos que este homem é pecador'. Disse-lhes ele: 'Se esse homem é pecador, não o sei... Sei apenas isto: sendo eu antes cego, agora vejo'. Perguntaram-lhe ainda uma vez: 'Que foi que ele te fez? Como te abriu os olhos?' Respondeu-lhes: 'Eu já vo-lo disse, e não me destes ouvidos. Por que quereis tornar a ouvir? Quereis vós porventura tornar-vos também discípulos dele?...' Então eles o cobriram de injúrias e disseram: 'Tu que és discípulo dele! Nós somos discípulos de Moisés. Sabemos que Deus falou a Moisés; mas, este não sabemos de onde é'. Respondeu aquele homem: 'O que é de admirar em tudo isto é que não saibais de onde ele é, e no entanto ele me abriu os olhos. Sabemos, porém, que Deus não ouve a pecadores, mas atende a quem lhe presta culto e faz sua vontade. Jamais se ouviu dizer que alguém tenha aberto os olhos a um cego de nascença. Se este homem não fosse de Deus, não poderia fazer nada'. Responderam eles: 'Tu nasceste todo em pecado e queres nos ensinar?... E expulsaram-no'".

            Mas o mendigo ainda não tinha visto o homem a quem devia a luz dos olhos...

            E não demorou muito até que se encontrassem. Todas as audiências e também o desfecho do último interrogatório não eram desconhecidos pelo Bendito. E, de propósito, fez com que o mendigo inesperadamente deparasse com ele no meio da agitação e barulho do mercado. Falou ao curado e perguntou-lhe de modo totalmente direto se ele cria no homem capaz de fazer coisas sobre-humanas.

            O indagado, de início, mal se surpreendeu, cansado que estava de perguntas que não levam a nada, e sua resposta foi um tanto evasiva: que lhe mostrassem afinal este homem e então examinaria o assunto da fé. Mal, porém, acabava de falar, interrompeu-se e fechou os olhos - num máximo esforço de escutar - fechou os olhos, para nas trevas - que lhe eram tão familiares - reconhecer, ou melhor, re-conhecer a voz do outro. E quando a voz lhe disse: "Este homem está diante de ti" - então, num instante, o mendigo compreendeu tudo. Soube, de um só golpe, que só naquele preciso momento é que tinha realmente começado a ver. E essa felicidade atravessou-o como um raio e lançou-o ao solo, enquanto o Bendito, inclinando-se sobre o mendigo prostrado, disse algo muito obscuro a respeito de cegos que vêem e de gente que vê mas é cega.

            É quase certo que ninguém ali compreendeu o que ele queria dizer. E quando um dos que por lá estavam, um do partido dos poderosos, disse, irônico e ameaçador, que então, segundo isso, eles, os poderosos, seriam também cegos, obteve a resposta de que precisamente isto é que era o mal: que eles não eram cegos. Aí já não houve mais ninguém que perguntasse o que isso significava; perguntavam-se, sim, se tinha afinal algum significado, se havia, afinal, algo a ser compreendido.

            E assim termina a experiência com a cegueira.

"Jesus soube que o tinham expulsado e, havendo-o encontrado, perguntou-lhe: 'Crês no Filho do Homem?' Respondeu ele: 'Quem é ele, Senhor, para que eu creia nele?' Disse-lhe Jesus: 'Tu o vês, é o mesmo que fala contigo'. - 'Creio, Senhor', disse ele. E, prostrando-se, o adorou. Jesus então disse: 'Vim a este mundo para fazer uma discriminação: os que não vêem vejam, e os que vêem tornem-se cegos'. Alguns dos fariseus que estavam com ele, ouviram-no e perguntaram-lhe: 'Também nós somos acaso cegos?...' Respondeu-lhes Jesus: 'Se fosseis cegos, não teríeis pecado, mas agora pretendeis ver, e o vosso pecado subsiste'".

            Disse eu que termina a experiência com a cegueira? Não, essa seria uma formulação um tanto imprecisa, e até mesmo injusta. O que terminou foi o relato; a experiência..., a experiência continua...