A Tocha de Fogo do Rio Itaúnas

 

Alexandre Calais
(Gazeta Mercantil)
acalais@gazetamercantil.com.br

 

            Noite adentro, a bordo de seus barcos, a lua era a única coisa que alumiava os pescadores no rio Itaúnas. Variava de lua pra lua. Na nova, era uma luz fraquinha, que ia aumentando na crescente, explodia na cheia pra depois cair de novo na minguante. Para a gente de hoje, acostumada às modernidades da luz elétrica, é até esquisito pensar em lua como única iluminação, mas era assim. As pedras pretas que abundavam no fundo do rio e que até deram nome a ele (Itaúnas é pedra preta em tupi) tornavam a cor da água mais escura e muito mais escura a noite.

            E, ora, ninguém reclamava! Noite sem lua, as crianças podiam brincar de pique esconde mal o sol ia embora, e alguém pode dizer como é que se pode achar um moleque magrinho encarapitado no alto de uma árvore de quatro, cinco metros? Aquelas árvores de copa bem afolharada, como hoje já nem existe mais? Para a gente moderna, brincadeira de criança é vídeo game ou computador, não pique esconde. E pescador não depende de lua nenhuma para enxergar nos barrancos do rio. Tem lanterna, luz artificial. Barco tem motor, rede se compra no magazine da rua principal. Antes, não. Rede era o pescador mesmo que fazia. Barco, também. Motor era o remo, e cavalo-de-força eram os próprios braços do pescador.

            Mas uma coisa não se pode negar: tinha muito mais peixe no rio. E não só peixe. Essas águas escuras não serviam só para pescaria. Eram também meio de transporte quando estrada era sinônimo de uma picada no meio da mata. E se prestavam para alimentar as famílias dos pescadores, também serviram para levar embora toda a mata que protegia a Vila de Itaúnas dos ventos. Toras e toras de madeira, nobres ou nem tanto, eram transportadas rio abaixo e chegavam até o porto de Conceição da Barra, dali para o Rio de Janeiro e de lá Deus sabe para onde, virar porta, janela, cadeira.

            A mata foi embora, com ela os bichos e sem ela o vento pôde cumprir, lenta e impiedosamente, seu destino de cobrir de areia as casas da Vila. Tudo bem, pescador é bicho calejado, acostuma-se com tudo. A areia cobriu uma casa aqui? Constrói-se outra acolá. Tempo há. Não há é pressa, a vida é levada como Deus concede. Alguns até confundem isso com preguiça. Diziam que a mata foi arrancada de onde estava porque o povo queria ver o mar sem precisar sair de casa... Se assim foi (e quem há de dizer que sim?), foi mal feito. Perderam a mata e a casa também.

            Não acredito muito. Não dá para ser preguiçoso e corajoso ao mesmo tempo. E pescador é bicho destemido, ou não haveria de querer enfrentar rio escuro em noite escura, noite de lua nova ou minguante já bem minguada. Nunca se sabe muito bem o que tem debaixo d'água. Tá bom que tubarão só tem no mar e peixe violento como piranha só no Amazonas, mas vá saber! As águas do Itaúnas não deixam ver muita coisa, e quem é capaz de dizer na ponta da língua os peixes e outras criaturas que passam debaixo dos barcos nas noites escuras?

            Por isso pescador é destemido. Enfrenta serenamente o que não vê. Mas o que vê, aí já é outra história. O seguinte acontecido deu-se no tempo em que luz de noite era só a lua. Ia embora o sol, juntavam-se os pescadores no meio da Vila e saíam juntos para o rio, onde esperavam escancarados os barcos. Uns levavam os cachorros ? mas não por medo da noite, que pescador é bicho destemido. Levava mesmo porque cachorro é criação que a gente vai se acostumando e depois vira que nem um filho, um irmão ou um parente qualquer.

            Na beira do rio se juntavam, e antes de entrar na água contavam umas histórias uns pros outros, e quanto mais escura a noite mais assustador o conto? porque pescador não é medroso, mas é crente, e o que vê é o que vê, isso não dá para negar. E nas noites mais escuras é que se via a tocha de fogo. Na Vila, quem ficava não acreditava muito, mas eram os pescadores que viam, e o que se vê não é pra se negar.

            Viam e ouviam. Antes da tocha aparecer, vinha um assobio longo, que não era de gente vivente? Ah, isso não era, os pescadores juravam de pés juntos. Era um som longo, apavorante, que depois ia transmudando no que quer que os pescadores fizessem. Gritavam? O bicho (ou seja lá o que fosse) gritava junto. Os cães latiam? Latia também, mas de um jeito diferente, muito mais assustador, como algo que quisesse se comunicar e não conseguisse por meio de sua própria língua.

            Aí o tempo parece que demorava a passar, e nem os pescadores e nem os cachorros tinham muito ânimo pra sair do lugar. A verdade é que não dá para negar, era medo mesmo. Mas não que pescador seja temente de qualquer coisa que viva. Mas sabe lá se aquele barulho era de coisa viva? As pernas tremiam, as bocas ficavam secas, e até os cachorros paravam quietos.

            Depois do assobio, vinha a luz. Vinha parece de muito longe, e contando assim alguém pode até achar que era algum cometa desgarrado que resolveu dar uma volta pelo rio Itaúnas, mas não era isso. Era a bem dizer uma tocha vermelha, quase como o sol (mas de noite não costuma ter sol, pelo menos não até hoje). E vinha se aproximando daquele bando de pescadores de pernas bambas, e fazia piruetas no céu, como a zombar daquele punhado de gente, deixando um rastro de fogo que qualquer um podia jurar poder ser visto de muito longe. De pronto, a noite virava dia, mas só o que dava pra ver era o reflexo vermelho na cara assustada de cada pescador. Depois, a tocha passava e ia cair do outro lado do rio, e a noite voltava a ficar escura (e muito mais escura do que antes, porque ninguém se acostumava mais com a falta de luz, e mesmo que a lua fosse cheia, ia ser uma luz muito fraca).

            Ninguém falava com ninguém. Quando algum dos pescadores conseguia reunir saliva suficiente na boca para articular uma palavra, só conseguia dizer: "Isso é o Cão, rapaz! É o Capeta". Nessas noites, os peixes parece que se escondiam mais e mais debaixo das pedras pretas do rio Itaúnas. Até eles tinham medo daquela bola de fogo que ninguém até hoje soube explicar o que era.