A Imagem como Ferramenta para o
Auto-Conhecimento

 

Rogério LACAZ-RUIZ
Professor de Metodologia Científica FZEA/USP
 roglruiz@usp.br

William KOURY FILHO
Pós-Graduando FZEA/USP
 william@abelha.zoot.usp.br

Renato MALATESTA
Graduando em Zootecnia FZEA/USP
 renad2@yahoo.com


Tarciso Tozzi Nunes

Graduando em Zootecnia FZEA/USP

 

Introdução

As Pró-Reitorias de Pós-Graduação e de Graduação da Universidade de São Paulo, com o objetivo de melhorar a qualidade de ensino, implantaram o Programa SIAE (Sistema de Apoio ao Ensino). Na sua segunda edição, os editais foram abertos para selecionar Projetos de todas as unidades da Universidade. Um dos projetos selecionados foi o intitulado: A imagem como ferramenta para o auto-conhecimento no ensino de Graduação e Pós-Graduação.

Este artigo pretende discutir com os colegas e colher contribuições dos que utilizam novas tecnologias para aumentar a relação professor-aluno.

A seguir, faremos a transcrição do Objetivo e de outros dois tópicos que fizeram parte do formulário de inscrição dos projetos.

 

Objetivo

Produzir um vídeo com imagens de alunos realizando apresentações em sala de aula, dividido em aspectos positivos, negativos e recomendações gerais.

 

O que vai mudar/melhorar

Visualizar as próprias atitudes bem como a dos colegas é uma forma de auto-conhecimento. Conhecer-se, é a melhor forma de aperfeiçoar as qualidades e evitar os possíveis erros.

 

Resumo do Projeto

A maior parte das "doenças" sociais tem com raiz a falta do conhecimento próprio. Quem não sabe para onde vai, não vai a lugar nenhum reza o ditado popular. Filmar seminários e apresentações dos alunos de graduação e pós-graduação irá gerar um banco de imagens que serão futuramente editadas, no sentido de recolher boas explanações, e também os principais hábitos cometidos pelos alunos, em maior ou menor grau. Como atividade pedagógica, as primeiras imagens recolhidas no vídeo, servirão para o próprio aluno que fez a apresentação conhecer-se melhor, e para os demais, aprenderem do bom exemplo do colega ou mesmo pelo lado negativo examinarem-se para evitar posturas anti-didáticas cometidas.

 

Metodologia e desenvolvimento

Uma vez aprovado o projeto, não contávamos com os equipamentos nem a experiência de filmagem. Teríamos além disso a dificuldade de inserir as atividades de filmagem dentro dos programas das disciplinas Iniciação à Metodologia Científica ZAB 127 na graduação e Metodologia Científica na pós-graduação da FZEA/USP no Campus de Pirassununga.

Os alunos foram informados do projeto aprovado, e receberam individualmente cópias do seguinte texto:

 

Metodologia Científica - 1999

Dicas para você que vai ficar um dia na frente dos alunos...

Não é aconselhável:

1. Dar aula sentado ou conservar-se nesta posição durante a maior parte do tempo de aula.

2. Permanecer longo tempo num mesmo lugar, na frente ou no fundo da sala de aula, junto à mesa, à janela, à porta, ou o quadro negro.

3. Demorar os olhos num aluno(a) ou num setor da classe, enquanto dá explicações.

4. Realizar a lição com o olhar absorto, como perdido na contemplação do teto ou do espaço, além das janelas.

5. Aproximar-se do aluno chamado para ler ou responder às questões formuladas pelo professor.

6. Chegar atrasado à sala de aula, consultar freqüentemente o relógio durante a aula, ou, no final dela, sair apressadamente.

7. Consultar repetidamente, durante a aula, fichas, apontamentos, apostilas ou qualquer espécie de lembretes.

8. Permanecer junto ao aluno que vai responder às questões formuladas pelo professor ou que solicita sua atenção para uma dúvida, omissão ou dificuldade.

9. Rabiscar a mesa durante a aula ou usar o giz para outra finalidade.

10. Dar aula em voz demasiadamente alta ou demasiadamente baixa.

11. Discorrer durante toda a exposição com o mesmo ritmo na fala e a mesma altura de voz. Falar tão rapidamente que os alunos não possam tomar notas, ou tão devagar que a aula degenere em ditado.

12. Andar demasiadamente rápido durante a aula.

13. Usar roupas que chamem a atenção dos alunos.

14. Falar num nível que ninguém entenda.

15. Articular mal as palavras e usar expressões pouco usuais.

16. Deixar de tomar conhecimento de defeitos e impropriedades da expressão oral ou escrita dos alunos com o pretexto de não ser professor português ou de não desejar invadir a seara deste.

17. Exigir silêncio e imobilidade da classe, o que não é útil nem possível de se obter.

18. Gracejar com a classe acerca de assuntos de outras aulas ou de atitudes e trabalhos de outros docentes.

19. Prolongar a aula além do tempo a ela destinado, suprimindo assim os intervalos de descanso dos alunos.(1)

 

É aconselhável...

1. Dividir o texto em introdução; narração; argumentação; digressão; e epílogo

2. Dizer no início o que pretende falar; falar o que foi preparado, e no final resumir o que foi dito...

3. Pensar o que tem a dizer, e adaptar a forma em função de quem vai ouvir...

4. Falar com determinação e entusiasmo o que precisa ser dito quando for oportuno...

5. Observar os aspectos positivos (para imitar) e negativos (para evitar) das pessoas que nos falam algo...

6. Falar de memória o que precisa ser dito...

7. Contar estórias, usar provérbios, ou contar algo divertido durante a apresentação...

8. Usar corretamente a língua portuguesa, evitando frases ou palavras não eufônicas...

9. Preparar o que vai ser dito...

10. Que o conteúdo esteja um pouco acima do nível da platéia...

11. Interagir de alguma forma com os ouvintes, para que eles falem algo...

12. Não comparar pessoas durante a apresentação...

13. Fundamentar as comparações e os argumentos no campo das idéias...

14. Ser objetivo e prezar pela naturalidade...

15. Ser simples (no sentido clássico - e etimológico - da palavra: sine plicas, sem dobras)

 

F I C H A   D E   A V A L I A Ç Ã O

 

NOTA

1

2

3

4

5

6

7

8

9

10

TÓPICOS

                   

altura da voz

                   

tom da voz

                   

gesticulação

                   

andar

                   

olhar

                   

clareza

                   

entusiasmo

                   

apoios

                   

tempo

                   

recursos

                   

postura

                   

vocabulário

                   

conteúdo

                   

 

Observações:

Após a compra do material (câmara de vídeo, TV, videocassete e home theater), iniciamos as gravações, de modo amador.

Os alunos iniciaram o processo, falando de improviso, sobre algum tema sorteado, que estava escrito em um pequeno pedaço de papel. Temas como: caneta, computador, caneca, cigarro, livro, capacete, eram lidos pelo aluno no momento em que ele já estava diante da câmara. Quando o aluno dava o sinal de que iria iniciar a fala, iniciava a filmagem. Todos os alunos presentes foram filmados.

Na aula seguinte, os alunos falaram sobre suas vidas, e na terceira aula, prepararam um tema a sua escolha para apresentarem aos colegas.

Como a carga horária do curso de graduação era maior, foi possível ainda realizar outra atividade, que consistiu em que cada aluno se apresentasse como candidato a prefeito do Campus ou da Cidade.

Os alunos, sempre que quisessem, poderiam visualizar suas imagens nos aparelhos adquiridos com verbas do projeto.

Como um dos objetivos do projeto era a produção de uma fita contendo os resultados, foram procuradas vários estúdios para auxiliar na edição da arte final da fita.

 

Resultados e discussão

Logo no primeiro dia, alguns alunos manifestaram o interesse em observar o seu desempenho. Foi uma atividade gratificante. Conforme as cenas iam se passando, os comentários eram feitos. Os alunos não queriam ver somente a si mesmos, queriam ver os outros.

Rapidamente estes alunos estavam comentando para os demais, que num processo multiplicador, levou praticamente todos para a sala de TV e vídeo. No início, o professor gastava muito tempo acompanhando os alunos e tecendo comentários, mas este processo fugia um pouco do objetivo do projeto. A imagem falava por si só, as pessoas receberam critérios, e ao mesmo tempo, pode-se de dizer que tinham critérios próprios.

Valores que as pessoas se atribuem a si mesmas, são muito particulares. De certa forma, pode se afirmar que ao se verem, as imagens mexiam com seus brios. Suas inteligências moviam suas vontades para modificar num aspecto ou outro.

O primeiro objetivo foi atingido. Os alunos souberam usar a imagem gravada para mudar e melhorar.

As dificuldades existiram. Um dos alunos participou de toda a atividade, mas disse abertamente que não gostava de ficar diante da câmara. Outros se sentiram envergonhados de que suas imagens fosse vista pelos colegas. Mas no geral, o clima foi de alegria, descontração, e bastante produtivo. Praticamente estavam no mesmo barco e aceitavam o comentário feito pelo professor a um colega, como uma forma de ajuda, nunca como crítica destrutiva ou humilhante.

Outro aspecto, que envolvia a edição final da fita, e na realidade era o segundo objetivo do projeto, foi rico em lições.

A equipe - que era formada por alunos, um de graduação e um de pós graduação, além do professor responsável - nunca havia feito uma gravação ou edição. Dicas de como filmar, utilizar o zoom, acertar a velocidade da fita na filmagem foram sendo incorporadas ao longo das semanas. Imaginávamos que a filmagem seria o mais difícil, e a edição o mais fácil; mas foi exatamente o contrário.

Inúmeros contatos foram feitos dentro e fora da Universidade de São Paulo para nos auxiliar na edição do material. Muitas semanas foram gastas para encontrar o melhor lugar: a própria USP.

Neste ponto, cabe um parêntesis. A Universidade de São Paulo é paradoxal. Produz uma quantidade enorme de pesquisa, possui um pessoal altamente qualificado, e na hora que precisa de um serviço, paga para terceiros fazerem com uma qualidade duvidosa. São inúmeros os casos em que me fundamento para fazer este comentário. É preciso resgatar e utilizar este "gigante adormecido", atualizar este potencial. Encontrei pessoas com entusiasmo dentro do Projeto Univídeo e da TV USP. Elas foram muito mais que profissionais, mas só isto já bastava. Acreditamos que para construção de salas de aula, vias, praças, laboratórios, etc, podemos contar com o auxílio de alunos de graduação, Empresas Jr., Técnicos e Docentes que estão instalados nos nossos próprios campi. Aqui acaba o nosso parêntesis.

A fita foi editada em tempo recorde, na TV USP. Em uma hora foi feita a arte final. E em meia hora, já contávamos com quatro cópias.

Outras dificuldades foram no orçamento, no pessoal e equipamento. Precisamos alterar dinheiro e atividade dos bolsistas. Filmar não é tão difícil. Complicado é editar. A gravação feita em câmara amadora, em velocidade EP, compromete a qualidade da imagem. Este problema não afetou significativamente a qualidade do conteúdo, que foi o objetivo principal.

 

Considerações finais

É gratificante reproduzir as imagens da fita editada, e no final recebermos a aprovação dos alunos. Não que trabalhássemos para receber elogios, mas eles ajudam, são uma espécie de retorno, estímulo para continuarmos o nosso trabalho.

Na Pós-Graduação, a câmara de vídeo já está sendo utilizada dentro da Disciplina de Seminários, para gravar as apresentações dos alunos. O que era um projeto, hoje é uma ferramenta de trabalho. Afinal, uma imagem fala mais do que mil palavras.