Apresentação Poética

 

- de José Gilberto Gaspar para professores e alunos da disciplina Filosofia da Educação, na Faculdade de Educação da USP em 12-11-99. As poesias são de autoria de Gilberto e os textos aqui apresentados seguem a declamação da Apresentação.

 

O chão da paineira

Eu fiquei olhando a dança das flores
Ao se despencarem de uma paineira.
O vento soprando o bailado das cores
O chão perfumado de flores inteiras.
E o povo pisando sem nem perceber
O tapete lilás de flores caídas.

Só eu escutava o triste gemer
Das flores, o lamento num resto de vida.
E quase chorando em rimas singelas,
Então comparei a morte das flores
Ao se soltarem na queda certeira
De um galho tão altas, tão ricas, tão belas
Com o tempo que passa matando os amores
E a alma pisada é o chão da paineira.

 

Não Pises a Flor

Não pises a flor, porque a flor tem perfume
E deste perfume é que vive a flor.
Se pisares a flor, ouvirás o queixume
Do perfume exalando da vida da flor.

Não pises o amor, que o amor se resume
Na festa da alma, no alívio da dor.
Se pisares o amor, ouvirás o queixume
Do peito clamando o martírio da dor.

No amor e na flor, existe o perfume
E o maldito ciúme, só tem mesmo é no amor.
É por isso talvez que o amor, por ciúme,
Venha a sentir inveja da existência da flor.

 

Diálogo das Rosas

Entrando em uma sala
De uma bonita mansão,
Deparei-me, de repente,
Com uma discussão.

Duas rosas discutiam
Em tons de voz diferentes:
Uma, de voz meiga e dócil;
Outra, em tom estridente.

A de voz meiga era branca,
Vinda de um lindo jardim,
A outra, artificial,
Tinha a cor do carmim.

A vermelha dizia:
"- Eu sou viva eternamente;
Enquanto tu, minha amiga,
Podes morrer de repente,
Tenho até pena de ti...
Já estás envelhecida.
Pela tua palidez,
Tens poucas horas de vida.
E eu continuarei aqui,
Formosa como estás vendo,
Enfeitando este salão.
Tu não vês que
Estás morrendo?".

A natural respondeu,
Com voz trêmula e triste:
"- Tu és uma cópia minha.
É por mim que tu existes...
Estou morrendo...é verdade,
Nisto a vida se resume,
Mas morro e deixo a saudade
No olor do meu perfume.
Quantas vezes, no jardim,
No recanto onde nasci,
Fui beijada com amor
Pelo belo colibri...
Por abelhas visitada,
Minha seiva eu cedi
Para o saboroso mel,
Ao Homem também servi...
E tu, por quem foste beijada?
Estás na jarra esquecida...
Estou morrendo é verdade,
Tu nunca tiveste vida
Não tenho inveja, portanto,
Dos longos dias teus,
Tu foste feita pelo Homem
E eu, pelas mãos de Deus!".

 

Cadê meu doce

Mamãe, cadê meu doce,
Meu terno de marinheiro,
O meu traje domingueiro,
Minha botina de amarrar?

Mamãe, cadê a Néia,
Que escondeu meu canivete,
Onde está o meu casquete?
Eu não acho o meu pião!

Mamãe, cadê as crianças?
Não viram minha fieira?
Terminou a brincadeira,
Vou fazer minha lição.

Mamãe, cadê seus cuidados?
Mamãe, cadê seu menino,
Debaixo do pente fino,
Ouvindo o seu coração?

Mamãe, cadê o meu galo,
Que cantava todo dia?
Onde está minha alegria?
Não ouvi mais a canção!

Mamãe, eu quero meu doce.
Eu já cheguei da escola,
Vem lavar minha sacola
Que eu deixei cair no chão.

Mamãe, cadê o papai,
Que o tempo levou embora?
Mamãe, cadê a senhora?
Ainda sou o seu menino,
Vem cuidar do meu destino
Eu preciso de vocês

 

Retrato de Maria

Onde estará minha primeira namorada?
Maria Rosa filha do Zé da porteira,
ela era linda, muito meiga e educada,
primeiro amor que sempre foi de brincadeira.

Um dia desses, rebuscando os meus guardados,
eu encontrei um retratinho de Maria,
fechei os olhos e voltei no meu passado,
tal qual criança outra vez eu me sentia.

Vi-me vestido com uma blusinha branca,
calça xadrez e portando uma sacola,
meias brancas, botininhas de amarrar,
era o uniforme que eu usava na escola.

Maria Rosa, naquela fotografia,
pra mim sorria um sorriso de criança
e de saudades eu chorei naquele dia
ao relembrar a minha querida infância.

Sem perceber eu fui levando, lentamente,
aos lábios meus, aquela fotografia,
a minha boca, umedecida da lembrança,
beijou a trança do retrato de Maria.

 

Violinha de cabaça

Em criança fui feliz em meus folguedos,
Os meus brinquedos era eu mesmo quem fazia.
Somente a eles eu contava os meus segredos,
Dava-lhes nomes, cores e a fantasia.

E, certa vez, lá no Largo do Rosário,
Até o vigário implicou com a minha vida
Porque dentro do seu confessionário,
Eu escondi a minha raia colorida.

E aquele pião que eu fiz de goiabeira
Ao rodar dentro da finca até zunia;
Os meus colegas invejavam da fieira
E até compravam os brinquedos que eu fazia.

Papagaio... eu fabricava em grande escala.
Em nossa sala, na parede estava exposto,
Vendendo sonhos, alegrias e bom gosto,
Por apenas dez tostões e uma bala.

E as arapucas, as gaiolas de marroio
Onde covardemente eu prendia os bichinhos!
Hoje aconselho e não dou nenhum apoio
A quem gosta de prender os passarinhos.

Eu brincava livremente nas capoeiras
O dia todo, de manhã até a tarde;
E, dentro daquelas gostosas brincadeiras;
Por muito tempo... eu brinquei de liberdade!

Quando ouço o som de um brinquedo eletrônico,
Uma tristeza o meu íntimo transpassa.
E eu sinto pena do garotinho biônico
Que hoje vive neste mundo tão sem graça.

Brincando à sombra de tudo quanto é mau,
A sua infância que correndo logo passa,
Nunca teve um cavalinho de pau
E não conhece uma violinha de cabaça.

 

Reminiscências

Um dia desses eu saí, com o destino
De novamente ver a terra em que nasci,
Passar por onde eu brinquei quando menino.

Quantas lembranças, quase que não resisti,
Quando avistei bem lá no alto da serra
A terra amada em que sempre vivi.

Senti vontade de percorrer novamente
Todos os lugares que em criança percorri.

Fui ver o poço onde nadava sem roupa,
Por mim chamado "Poço da Juriti".

Desci correndo o bequinho da Vilina,
Falseei, escorreguei, mas percebi
Que no momento eu tinha muito de criança
E na lembrança me firmei pra não cair.

Depois eu fui até a fonte da Paulina.

Daquela água cristalina eu bebi.

Senti o gosto da água pura da terra,
Daquela terra abençoada onde eu nasci.

Na água da fonte, como se fosse uma tela,
Refletida, aquela imagem então eu vi.

Envolvido nas lembranças do passado,
A minha imagem quase não reconheci.

Só uma coisa eu não queria ver.

Tentei fugir, porém, não consegui:
A velha casa da rua em que eu morava...
Nem minha mãe, nem meu pai estavam ali.

Quanta tristeza, quanta dor senti no peito,
Quando na janela do meu pensamento eu vi
Papai, mamãe, me acenando com as mãos.

Não quero nunca, nunca mais voltar aqui!


Sôdade
(Ari de Lima - José Gilberto Gaspar)

Vancê divia, Sôdade
praticá a caridade
di largá meu coração
Vancê divia inté tê mágoa
di moiá meus óio d'água
com tanta recordação
Vancê carece de largá dessa vida à toa
deixá de vivê feito loca
de andá batendo boca
nus coração das pessoa.

Eu as veiz fico pensando
prá mim mermo preguntano
pru qui será qui vancê num dexa de amolá, Sôdade?
Os meus óio são triste sem cô
a minha vida é tão deserta
o meu coração é ranchinho qui u distino disteiô
dexano inté sem coberta
Parece inté uma arvi véia bandonada
qui o machado do distino
num cortô na derrubada
i ficô viuvinha
largada na sulidão
onde nem os passarinho
nunca mais fizero ninho
cum medo da ventania
sacudindo as gaiaria
derrubando as foia seca
I matano as criação.

Tar i quar essa arve véia
qui o distino num cortô
tá tomém meu coração
di tanto a dô sacudi
i batê sem cumpaxão.

Sôdade, vancê é moça sortera
devéra di arranjá uma casa mais brejera
pra vancê pudê morá
Dentro do meu coração
coitado, num tem nada
num tem água prá bebê
num tem pão prá si comê
num tem banco prá sentá
Si vancê tivé cansada
i pidi prá si sentá
prá matá sua cansera
o seu vistido bunito
fica tudo chujo, iscrito
cus rabisco di puera.

Sôdade, saia daqui
qui as cavera dus meus sonho si arrastano
fica inté assubiano
sem dexá vancê drumi
Vancê deve mi dexá
Vancê deve mi largá
Si vancê morá cumigo, Sôdade
num sei pruquê
Os meus óio, esses seus amigo
nunca pára di chorá
di tanta dó di vancê.

Sôdade, qui bobage é esta
dentro du meu coração nunca teve festa
Pru que qui vancê gosta tanto di aqui ficá:
nessa caverna tão iscura
onde as mortáia das ventura
nus canto muntuada
i a banquinha da ternura
toda chuja empuerada
Vancê fica em pé a vida inteira
vancê num sente cansera di ficá ansim parada, Sôdade?
Vai passeá um pôco
num vê qui já tô quaji lôco
di vê vancê sem conforto
drento du meu coração?
Vancê é moça sortera
inda pode tê ilusão
Vancê inda vai sê bem filiz
como as mais linda perdiz
qui tem nus campo do norte
qui canta di tardezinha
junto cuas suas fiinha
mecê tamém vai tê sorte, Sôdade.

Presta atenção no qui digo, Sôdade
Eu sô teu amigo i só ti desejo o bem
O qui eu quero é ti vê sossegada
I vivê eu sossegado também.

Ela oiô no ispeio
iscuitô os meus conseio
I lá si foi a Sôdade
com seu vistido cor-de-rosa
era a caboca mais fermosa
toda cheia de vaidade
Mais ela é tão indiscreta
qui deixô a porta aberta
e veio a Paxão i...
... i entrô...
Vai-simbora Paxão
depressa, por caridade
Saia do meu coração
pruquê esse lugar
É da Sôdade.

Mas a Paxão num é caridosa
É uma caboca teimosa
i num tem dó di ninguém
Eu sei posso contá
Presta atenção meus amigo
Pruquê por toda as banda qui eu vô
a paxão anda cumigo...

 

O Menino e a Carrocinha

Encontrei, chorando, um menino de favela.
Xingava tanto, que chamou minha atenção:
"Eu vou matar o dono da carrocinha
Com esta pedra que está aqui na minha mão.

Ele levou o meu único brinquedo,
Meu cachorrinho, que era de estimação.
Coitadinho, ele agora vai morrer de fome,
Ele não come, se não for da minha mão."

"Como se chama o seu cachorro, meu amigo,
Que você disse que a carrocinha levou ?"

Respondeu-me: "Ele só chama é Meu Cachorro,
Também é pobre, não tem nome não, senhor!
Mas é meu amigo e eu gosto muito dele.
Me ajuda, moço, me ajuda por favor!
Eu tenho um dinheiro guardado lá em casa,
Se for preciso, eu até troco e lhe dou."

E, nos olhos vermelhos do menino,
Vi desespero, tristeza e muita dor.
Saí correndo atrás da carrocinha,
E, a muito custo, alcancei o laçador.
Paguei as taxas, libertei o seu cãozinho
Que, bem contente, para o dono ele voltou.

Veja a maneira como ele agradeceu,
Quase chorando de alegria, ele falou:
"Meu cachorrinho, ele agora vai ter nome,
Vou ponhá nele o mesmo nome do senhor."


Quem sou eu?

Quem sou eu,
que vivo recitando versos,
versos de amor em frases tão sentidas?
Um poeta...? Um louco...?
Como há diversos,
a falar sozinho
arrastando a vida...?
Louco ou poeta, se esvaindo em rimas
a morrer de amor...?
Poeta ou louco, procurando um pouco
disfarçar a dor...? Não estão me ouvindo?
Eu tenho pressa de saber quem sou!
Se estou chegando... ou se estou partindo...
Eu nem sei ficar... mas... para onde vou?
Poeta...? Ou louco
procurando um pouco
disfarçar a dor?
Louco...? Ou poeta,
se esvaindo em rimas,
a morrer de amor...?