Retratos de Deus

 

Rosane de Oliveira
Editora de Política Zero Hora
rosane.oliveira@zerohora.com.br


O maior de todos os abalos que a arte poderia produzir no meu espírito não foi o da Capela Sistina recém-restaurada, nem o dos ciprestes de Van Gogh, nem o das pontes de Monet, nem o da Vênus de Milo que os japoneses não paravam de fotografar. Aconteceu numa das salas do Louvre, e não foi obra da Monalisa que durante tantos anos eu sonhara conhecer. Foram os retratos de Deus - os santos da minha infância, em quadros originais, espalhados entre reis e rainhas, caçadores e cenas de guerra e de dor.

 

Tinham se passado uns vinte anos desde que o padre me dera o último santinho das Edições Paulinas. Era um anjo de túnica cor-de-rosa, os cabelos loiros e um círculo de luz em volta da cabeça. Aquele foi se juntar ao Santo Antônio com o menino no colo e um galho de lírios, às diferentes representações de Nossa Senhora, ao Cristo crucificado, à Santa Ceia e ao anjo que protegia duas crianças à beira de um precipício.

 

Nunca me ocorreu perguntar ao padre de onde vinham aquelas imagens. Elas tinham vida própria e na minha aldeia ninguém jamais ouvira falar de Michelangelo, Rafael ou Boticelli. Ninguém se perguntava quem pintou a Nossa Senhora do Bom Parto, cercada de bebês, que as mulheres ganhavam de presente de casamento. No Louvre estava um pedaço da minha infância, época em que Paris era só uma abstração. Outros pedaços eu encontraria anos depois, no Vaticano, juntando os fragmentos de uma fé ofuscada pelo medo do inferno e do pecado.

Escavo essas lembranças em busca de resposta para uma pergunta que me inquieta desde aquela tarde de primavera parisiense: o que sobrará da arte deste final de século para se contemplar daqui a 100 ou 200 anos? Ferreira Gullar, que é poeta e não se importa de expor a alma na janela, sentencia: há algo de errado com a arte que precisa de bula para ser entendida.

 

A revista Aplauso mostrou, dia desses, algumas das obras selecionadas para a próxima Bienal do Mercosul. Há uma jovem artista que usa tripas secas em suas instalações e explica a obra com frases do tipo "o interior versus o exterior, a fragilidade do material contrapondo com o cheiro forte que emana, algo que está dentro, mas que não se pode ver".

 

Para uma fileira de tripas coladas junto a uma parede o redator da revista escreveu: "O mesmo acontece com Jogo da Sexualidade, em que a artista fixa junto à parede dezenas das mesmas tripas, dessa vez preenchidas com parafina. Na faixa superior, elas remetem aos seios femininos, enquanto na inferior, ao púbis masculino. Ancorado na repetição, esse trabalho reflete a sexualidade".

 

Pois bem. Na edição seguinte da revista saiu a correção: as tripas na faixa superior remetem ao púbis masculino, e as da faixa inferior, aos seios femininos. O que se vê na dita obra não lembra uma coisa nem outra, e a correção, diria Ferreira Gullar, é tão inútil quanto a legenda.

 

A Zeus restará se conformar com a sentença: o homem é um ser que esquece e não será a arte moderna o remédio para o defeito que nasceu com a ordem no caos.