Conferências de Filosofia
 - Alguns Textos - II

 

Luiz Jean Lauand
Fac. de Educação USP
jeanlaua@usp.br

 

Ao final desta edição-99 Master em Jornalismo para Editores, apresento aqui, com saudade e agradecimento, mais uma seleção - um tanto desordenada - de algumas passagens de nossas conferências de filosofia, que possam servir, ao mesmo tempo de registro e lembrança.

 

1. "Torna-te o que és"

 

Voltemo-nos, agora, para o fundamento da ética, para os antigos: o próprio ser do homem. Tal concepção pode resumir-se - também ela - numa memorável sentença de Píndaro: "Torna-te o que és!".

 

Neste espaço, pretendemos indicar, ainda que brevissimamente, como essa mesma convicção essencial - essencial para o direito, para a filosofia, para o convívio social e para a educação - a afirmação de que a moral se enraíza no ser e até com ele se confunde - é uma convicção universalmente estendida.

 

Ela não é apanágio da filosofia, mas encontra-se também em diversas outras instâncias: é o sentido profundo do to be or not to be shakesperiano (that is the question...), encontra-se na Comédia de Dante, na tradição confuciana; do "Torna-te..." de Píndaro às estruturas da língua tupi (de que trataremos na próxima nota...

 

Na Divina Comédia (Purg. XXIII, 31-33), ao tratar da recomposição do ser, desfigurado pelos desvios morais, encontramos este enigmático terceto:

 

"Pareciam-lhes os olhos anéis sem gemas
E quem no rosto dos homens lê 'homem'
Bem poderia reconhecer o M"

 

Que significa este misterioso M? (emme que rima com gemme). O sentido desses versos é que a ação injusta atenta contra o próprio ser de quem a pratica, desfigura-o, rouba-lhe o to be, o rosto humano - poeticamente figurado, em concretismo, na palavra "OmO" (omo, na língua de Dante, significa homem).

 

Também para Confúcio - e para a tradição do Extremo Oriente, registrada não só em seus tratados sapienciais, mas até mesmo enraizada nas línguas - a moral é o ser homem (ren, em chinês / jin, em japonês), e o imoral (fei-ren / hi-nin - a grafia japonesa é idêntica à chinesa) é o não-homem, como plasticamente indica o ideograma da negação e da falsidade, da desestruturação desde dentro, da desagregação, anteposto ao ideograma ren homem.

 

Mencionávamos, há pouco, a célebre sentença de Píndaro que resume os fundamentos clássicos da ética: "Torna-te o que és!". Encontramos uma inesperada prova da força (e da atualidade...) desta sentença no extraordinário êxito alcançado pelo desenho "O Rei Leão". De fato, para além dos modismos e do cuidado estético, a força da fábula do Lion King encontra-se precisamente em seu centro temático, que remete a Píndaro (ao "torna-te" e também à concepção do homem como esquecente...).

 

De fato, o auge do enredo encontra-se no drama ético. O exilado leãozinho Simba é convidado ao aburguesamento, ao egoísmo e à indiferença, à recusa da estatura moral a que está chamado:

 

Timon: When the world turns its back on you, you turn your back on the world.

Simba: Well, that's not what I was taught.

Timon: Then maybe you need a new lesson. Repeat after me.

Hakuna Matata.

Simba: {Still lethargic} What?

Pumbaa: Ha-ku-na Ma-ta-ta. It means "No worries."

Timon: Hakuna Matata!

What a wonderful phrase

Pumbaa: Hakuna Matata!

Ain't no passing craze

Timon: It means no worries

For the rest of your days

Both: It's our problem-free... Philosophy

Timon: Hakuna Matata!

Simba: Hakuna matata?

Pumbaa: Yeah, it's our motto.

 

Quando - pela ausência de Simba-, a situação de opressão torna-se insuportável - o conselheiro Rafiki sai em busca do jovem leão, procurando chamá-lo à responsabilidade, evocando a figura de seu falecido pai: o leão Mufasa. E convida Simba a contemplar a imagem do pai na superfície da água.

 

Simba: You knew my father?

Rafiki: {Monotone} Correction - I know your father.

Simba: I hate to tell you this, but... he died. A long time ago.

Rafiki: Nope. Wrong again! Ha ha hah! He's alive! And I'll show him to you. You follow old Rafiki, he knows the way. Come on!

Look down there.

{Simba quietly and carefully works his way out. He looks over the edge and sees his reflection in a pool of water He first seems a bit startled, perhaps at his own mature appearance, but then realizes what he's looking at.}

Simba: {Disappointed sigh} That's not my father. That's just my reflection.

Rafiki: Noo. Look harder.

{Rafiki motions over the pool. Ripples form, distorting Simba's reflection; they resolve into Mufasa's face. A deep rumbling noise is heard}.

You see, he lives in you.

{Simba is awestruck. The wind picks up. In the air the huge image of Mufasa is forming from the clouds. He appears to be walking from the stars. The image is ghostly at first, but steadily gains color and coherence.}

Mufasa: {Quietly at first} Simba...

Simba: Father?

Mufasa: Simba, you have forgotten me.

Simba: No. How could I?

Para finalizar, a resposta de Mufasa, que articula os dois momentos pindáricos fundamentais (o homem como esquecente e convocado a tornar-se o que é): todo um programa de reconstrução moral...

 

Mufasa: You have forgotten who you are, and so have forgotten me. Look inside yourself, Simba. You are more than what you have become.

Simba: How can I go back? I'm not who I used to be.

{Shot of cloud-Mufasa, with glowing yellow eyes. He is framed

in swirling clouds, radiating golden light.}

Mufasa: Remember who you are. You are my son, and the one true king.

{Close up of Simba's face, bathed in the golden light, showing

a mixture of awe, fear, and sadness. The image of Mufasa starts to fade.}

Remember who you are.

{Mufasa is disappearing rapidly into clouds. Simba runs into the fields trying to keep up with the image.}

Simba: No. Please! Don't leave me.

Mufasa: Remember...

Simba: Father!

Mufasa: Remember...

Simba: Don't leave me.

Mufasa: Remember...

(Fonte: http://www.lionking.org/~ryan/lionking/text/official/tlkscras.txt)

 

2. Tomás de Aquino e a metafísica tupi

 

"Uma coisa é buriti (...a palmeira de Deus);
outra é buritirana"
(Guimarães Rosa)

 

Coincidência, coincidir nem sempre indicam casualidade. Pois pode ocorrer que dois (ou mais) venham a dar com o mesmo, e, portanto, co-incidam, não por obra do acaso ("Que coincidência, você por aqui?"), mas até deliberadamente, como quem, por exemplo, dissesse: "Já que há coincidência de interesses, podemos fazer uma sociedade". Uma dessas coincidências não-casuais é a que se dá entre duas antigas sabedorias: a da milenar tradição ocidental - representada aqui por Tomás de Aquino - e a tupi. "Sabedoria" tupi que deve ser procurada não em tratados filosóficos, mas - como, certa vez, disse Guimarães Rosa, referindo-se a uma tribo do Mato Grosso - na língua: "Toda língua são rastros de velho mistério".

 

A língua tupi, no seu modo singelo e transparente de olhar para a realidade, vem dar com uma das mais fundamentais convicções da doutrina clássica do Ocidente a respeito da Moral. Moral, entendida no sentido que expusemos anteriormente: o ser do homem, o máximo (ultimum potentiae: Tomás de Aquino) do que se pode ser enquanto homem, um processo de realização pessoal, em que se caminha para a plena realização das próprias potencialidades ontológicas. A moral é concebida, pois, como uma questão de ser ou não ser (to be or not to be...) plenamente homem. Na cultura tupi, evidentemente, não podemos esperar encontrar uma elaborada doutrina metafísica dos transcendentais, mas, na língua, encontramos interessante coincidência.

 

Ensinam as gramáticas que o superlativo (portanto o ultimum, o máximo), em tupi, constrói-se pela justaposição de -eté ao termo: assim, por exemplo, catu (bom) tem o comparativo catupiri (melhor) e o superlativo caturité (o melhor). Note-se que -eté pode significar não só o superlativo, mas também "verdadeiro e bom" (no sentido ontológico dos transcendentais, como quando se diz: "Amélia é que era mulher de verdade", ou que tal cheque "é bom para dia tal", isto é, vale, é em ato, a partir do dia tal).

 

Em tupi, uma mesma palavra yaguar, designa de cachorro a onça. Mas yaguareté não significa cãozinho qualquer, mas somente a onça que é o yaguar-máximo, para valer, de verdade, eté. Já o contrário de -eté far-se-á com o sufixo -ran (ou rana). Ajuntar -ran pode significar - em primeiro lugar - mera semelhança, e é natural que uma língua primitiva como o tupi, construa muitos conceitos com base na parecença: cajarana (parece cajá), tatarana (parece fogo) etc. Mais interessante, porém, para este nosso estudo, é o significado derivado do sufixo -ran: parecido no sentido de falhado, fracassado, o que parece mas não é. Precisamente o oposto de –eté(1). Um exemplo nos ajudará a comparar esse sentido de -ran com seu contrário, -eté. Terra é ibi; uma terra boa, fértil, onde basta lançar a semente e logo, sem maiores cuidados, ela germina, floresce e dá abundantes frutos é, naturalmente, ibi-eté. Já uma terra (mesmo trabalhada e adubada) em que a semente não vinga, é ibi-ran: parece terra, tem cor de terra, cheiro de terra, consistência de terra mas, na realidade, não é terra.

 

Que tem tudo isto que ver com a moral clássica? Homem, em tupi, é aba. Um homem moralmente bom, honrado, digno é aba-eté (homem ao máximo, de verdade, ao superlativo, ultimum); já o canalha, o imoral é aba-ran: parece homem, mas não é. Tal como na concepção de Tomás. Como explicar a coincidência? Talvez pelo fato de ambos incidirem sobre um terceiro fator: a realidade!

 

Apêndice

 

O drama fundamental ético-existencial do homem transcende o âmbito da filosofia acadêmica e atinge a arte popular: é apresentado até numa canção de Milton Nascimento, Yauaretê (canção-título do álbum de mesmo nome). Nessa canção, o homem dialoga com a onça yauaretê, pedindo-lhe - a ela que já atingiu o ultimum potentiae de seu ser-onça: yauar-eté - que lhe ensine o correspondente ser-homem. E aí se retoma todo o problema ético, de Platão a Sartre: o que é verdadeiramente ser homem? Maria, a onça yauaretê, já realizou a plenitude do ser-onça (que, no caso, se resume na "sina de sangrar") e o poeta, entre perplexo e invejoso, pergunta-lhe: O que é ser homem?(2)


1- Contou-me Dito Quevedo, futebolista matogrossense (que também jogou no Paraguai), que quando um jogador perde um "gol feito" por querer "enfeitar", a torcida de seu time (entre muitas outras coisas...) o chama de Peré-ran: um Pelé que não deu certo, um pseudo-Pelé, que parece Pelé mas não é, um Pelé falhado.

2 -  Entre outros versos de profunda sintonia com o pensamento clássico, diz a canção: "Senhora do fogo, Maria, Maria / Onça verdadeira me ensina a ser realmente o que sou (...) / Vem contar o que fui, me mostra meu mundo / Quero ser yauaretê / Meu parente, minha gente, cadê a família onde eu nasci? / Cadê meu começo, cadê meu destino e fim? / Pra que eu estou aqui? (...) / Dama de fogo, Maria, Maria / Onça de verdade, quero ter a luz (...) / Me diz quem sou, me diz quem foi / Me ensina a viver meu destino / Me mostra meu mundo / Quem era que eu sou?