Escrevendo para
 o Linotipista

Breves rememorações, levemente reflexivas,
 de uma relação de amor e ódio pela imprensa

 

- Extrato da conferência "Ética e Jornalismo", ministrada em 23-11-99 no curso Master em Jornalismo para Editores, promovido pela Faculdade de Comunicação da Universidade de Navarra (Espanha) em convênio com o Instituto de Altos Estudos em Jornalismo do Centro de Extensão Universitária (São Paulo) -

 

L. F. Barros
(educador e escritor)
(doutorando em filosofia da educação - FEUSP
lfbarros@fenix.org.br

 

"Há mais coisas entre o Céu e a Terra
do que sonha a sua vã pauta do dia."

Dito a Horácio, em off, insinuando que as
notícias da corte não eram fidedignas...

 

 

I - Insider no ninho das cobras, enquanto principiante e rito de iniciação

 

Fosse meu texto o de Garcia Marques, relataria a curiosa trajetória de um jovem colunista de jornal que escreveu seu artigo de maior impacto recém saído do hospício, empolgou-se, passou a escrever verdades tão alucinantes que, ao invés de granjearem-lhe glória, tais escritos devolveram-no ao hospício, onde foi declarado esquizofrênico, tendo-se recuperado ao escrever livros em que prestou loas ao Senhor por estar livre de escrever para jornais, pelo que virou notícia, passando a ser procurado por jornalistas que resenharam seus livros, entrevistaram-no, propiciando-lhe pequena porém suficiente notoriedade para que pudesse desenvolver obra de seu maior encanto, que é esta de trabalhar com loucos, sendo ele mesmo um próprio, para, finalmente, tendo fundado uma associação nacional de defesa de direitos de tais cidadãos e, por acaso, simultaneamente correndo o risco iminente de tornar-se doutor em filosofia da educação pela universidade da província, passar a ser considerado expert e fonte, donde sem saber se pela sedução do espaço ou por necessidade de ofício de Brancaleone, aceitou, contrariando jura anterior, voltar a ser colunista de jornal, fato que o levou à página dois de prestigioso vespertino e à contingência de aturar editores, façanha incontestavelmente mais penosa do que lidar com loucos, história esta tão deslumbrante que ainda o levou, não se sabe por quais desígnios da providência, ou simples ironia do acaso, a bissextamente ministrar palestras sobre ética em cursos avançados para jornalistas profissionais.

 

Menos fantástica, embora igualmente realista, se aplicaria em contraposição à minha relação com o jornalismo, a sarcástica reflexão de Camus sobre seus contemporâneos. Dizia ele que "o homem moderno tem dois vícios: fornicar e ler jornais". A mim ele me pega pela tangente, eis que há anos não leio jornais e, à medida que o tempo passa, fornicar deixa de ser um vício e ao que se faz rarefeito o ato vai, ao que parece, adquirindo as dimensões do sublime e os matizes do amor que os jovens apaixonados pensam atingir ao se digladiarem avidamente no sexo da juventude. Mas se meu vício não é ler jornais, nem assistir à TV ou ouvir rádio - tudo que é notícia e propaganda me irrita - talvez eu tenha este outro vício que é escrever para jornais. Melhor pensando, talvez eu justo escreva para jornais porque não os leio - quando os leio é com nenhum prazer e, amiúde nestas ocasiões, com muita raiva.

 

Mas apenas a paciência e a maestria da meticulosidade de Thomas Mann - ah! se eu fosse sagrado para ele de mim se ocupar! -, poderiam abarcar os mil reflexos e o caleidoscópio dos meus sentimentos e do meu pensar (como se emoção e pensamento fossem coisas distintas, acaso tivesse Descartes razão) em minhas complexas relações com a imprensa.

 

Complexas, primeiramente, porque antigas. Toda relação antiga começa a ficar complexa e o exato momento em que a gente se dá conta da complexidade é aquele em que se é convocado para o martírio de conversar sobre a relação. Já pensou?, você chegando em casa após ter passado o dia fazendo a cobertura do congestionamento da Imigrantes na volta do feriadão..., ou após tentar obter apenas duas respostas diferentes para dez perguntas ao Maluf em entrevista..., já pensou?, agora você em casa, sentando na poltrona, afins de bebericar seu uísque, puxar seu fumo, cheirar seu pó (segundo pesquisa Ibope recente, mas nem tanto - eis que o fato é antigo..., jornalistas compõem um dos grupos profissionais mais vulneráveis à drogadicção - o que é triste e grave!), enquanto a mulher insiste que é hora de conversar sobre a relação... Isto é que é complexidade, não a demonstração da teoria da relatividade incluída a posterior dos quanta, de quebra. A mesma prova da complexidade da relação é quando alguém lhe pede para escrever sobre a relação, como, de forma gentilmente coercitiva, porque sedutora a oportunidade, pediu-me o Prof. Lauand que eu escrevesse esse texto dando conta de minhas relações com a imprensa.

 

Minhas relações com a imprensa são antigas e só por isto já seriam complexas, dignas de se conversar sobre a relação.

 

Iniciei-me no tablóide, de cara como redator-chefe, fundando um valente jornalzinho colegial. Digo que o jornal era valente porque, coisa de centro acadêmico, saía religiosamente todos os meses em dia certo - 16 páginas tinha o tablóide - com tiragem de 4.000 exemplares, de distribuição gratuita e superavitário financeiramente, tendo mantido tal ritmo por quatro anos consecutivos, três após minha saída do colégio - fato que me impressiona até hoje, dada a transitoriedade notória dos jornais estudantis. Mas, sob o tacão do Decreto-Lei 477, filho do AI-5 para controle dos ambientes estudantis e seus centros acadêmicos, nosso valente jornalzinho, mesmo sem pretensões políticas, passava por cada vexame de censura que apenas hoje é divertido lembrar. Coisas ridículas o espírito da época inspiravam, como o espírito de hoje também inspira. A duras penas conseguimos permissão para entrevistar o Fagundes no tempo em que ele estava no Hair, todo mundo cabeludo e peladão, em magnífico musical, anunciando a era de Aquarius (conseguimos apenas porque ele era ex-aluno do colégio). E teve o caso da censura ao mijo do Clids, personagem de uma história sem igual que um cartunista da quarta-série, 14 anos, havia desenhado em tiras que tomavam uma página inteira do jornal. Parece besteira, mas é preciso explicar para se entender até onde descia a estupidez da censura que conheci já em meu primeiro jornal, ainda enquanto estudante. O Clids, herói do cartoon porque contesta junto ao porteiro do colégio a proibição de entrar com os cabelos compridos, a certa altura da história vai ao banheiro e o quadrinho mostra-o de costas, à frente da privada. Entre seu corpo e a privada há um discreto traço em parábola, indicando o mijo. Fomos censurados e o cartunista viu-se obrigado a apagar o mijo porque aquilo era uma "indecência". Prova da eterna burrice da censura, a essência do cartoon e de toda a história, a questão da luta dos estudantes pelos cabelos compridos, não foi censurada e acabou vitoriosa ao final do ano, para a estupefação do censor, após episódio em que um grupo de nossos rebeldes estudantes burgueses chamou a grande imprensa à porta do colégio e tal proibição foi exposta ao ridículo da opinião pública, embora a opinião pública daquela época incluísse as famosas Senhoras de Santana, que não gozavam de nenhum senso do ridículo.

 

[Mencionar a totêmica expressão "opinião pública", leva-me à dúvida contumaz a respeito da existência de tal essência. Um indivíduo tem sim ou não opinião a respeito de determinado assunto, embora na atualidade seja cada vez mais vexaminoso declarar que não se tenha opinião sobre qualquer assunto, como se isto pecado fosse. Mas... o que vem a ser opinião pública? (Será mesmo que o público - exceto em relação a algumas questões óbvias -, a massa, o rebanho, como dizia Nietzsche, tem opinião uniforme, desuniforme, ou qualquer que seja, exceto pela manipulação dos líderes de opinião, inclusive da mídia, ou pela abstração pasteurizada das pesquisas de opinião e suas fantásticas metodologias?). Como é possível chamar de opinião pública, como se faz atualmente, a tabulação estatística de um questionário de perguntas fechadas, ou mesmo a resenha de mesas de discussão, quando pede-se às pessoas que digam o que pensam a respeito de assunto sobre o qual nunca pensaram antes? Imagino que ocorra aqui ligeiro erro etimológico e semântico e que o que a imprensa costumeiramente julga ser opinião pública, aferida por meio de pesquisas, não passa de uma impressão, ou reação inicial ou momentânea do público, salvo quando se trate da opinião pessoal do editorialista, do editor ou do repórter, que, por modéstia, classificam suas idéias como sendo as da opinião pública. Tenha o leitor paciência comigo se levanto questões irritantes (principalmente para editores que são useiros e vezeiros em estampar manchetes com resultados de pesquisas de opinião, tal qual fatos fossem), mas sendo este texto dedicado a jornalistas, creio que estamos quites, eis que os jornais impingem aos leitores diariamente coisas desagradáveis de se ler - inclusive suas opiniões editorializadas.]

 

Meu primeiro grande vexame de amadorista redator foi o furo que perdi justo na batalha pelos cabelos, aos 17 anos, dirigindo tal redação, situada no sótão do colégio, à vista das telhas, excelente espaço que eu dividia entre o produzir notícias e os amassos juvenis do redator-chefe com a ativa coadjuvância de algumas de suas atraentes e provocativas repórteres em uniformes escolares. Claro que nosso valente jornalzinho fez a cobertura da cobertura da imprensa de verdade, da visita dos jornalistas profissionais ao colégio - e, em seqüência, obtivemos em primeira mão uma declaração do diretor de que o comprimento dos cabelos seria liberado, bigodes e barbas inclusos no pacote. Só que a gente não sabia que o mais importante se põe em manchete e logo nas primeiras linhas (será que os jornalistas profissionais de hoje ainda sabem de fato distinguir o importante - a essência dos fatos e das versões -, embora conheçam o princípio jornalístico que tal postura filosófica - e não mercadológica! - preconiza?), tendo a declaração bombástica do diretor ficado para o final da matéria. Foi o linotipista, nem sequer o diagramador, quem informou que a matéria tinha estourado o espaço e ali mesmo, no sufoco das madrugadas das rotativas de antão, pela prática de mandar para o espaço os finais, sempre matérias frias (como se fosse a conclusão o menos importante de qualquer texto), que virou chumbo derretido, sem sequer passar pelas calandras, o grande furo de meu jornalismo juvenil.

Melhor rito de iniciação para um jovem iniciante de imprensa estudantil (interessado por filosofia) do que cometer um erro que permitiu granjear à comunidade como um todo, de que éramos apenas parte, o justo mérito pela conquista de um direito, cuja glória pelo feito seria falsa e fartamente explorada só por mim e meu jornal, acaso não fosse eu um ignorante das malícias do jornalismo, encontradiças, de preferência, na manipulação de manchetes, dos inícios e dos finais dos textos?

 

Meu jornal, eu escrevi isto? E por que não?, afinal não era eu da estirpe d' Os Fundadores e, além do mais, O Redator-Chefe, O Editor? Assumo o erro como, naqueles dias, sempre assumi a glória, quando ela não me escapava... Foda são os caras que só assumem a glória sem assumir os erros, correndo atrás dela quando lhes ameaça escapar, soube mais tarde na continuidade de minha relação de amor e ódio pela imprensa.

 

Mas, de início, na adolescência, foi assim que movido apenas por espírito lúdico e idealista que ingressei pela primeira vez, ingênuo e inconsciente, de fato sem saber dos meus atos, no ninho das cobras, como insider principiante do luminoso mundo que decreta as verdades, mesmo que ninguém saiba de que se trata o real. Ofensivo dizer que sejam ninhos de cobras as redações? Pois não se constitui a imprensa, vangloriando-se disto, no Quarto Poder - e não são todos os poderosos maquiavélicos e viperinos, afora os das parábolas místicas assemelhadas a histórias para boi dormir?

 

Mas, antes de encerrar o capítulo, volto a perguntar se os parágrafos acima a honra de alguém ofendem, porque eu só estava contando minha história de menino e não é minha intenção ofender ninguém, sendo que se preciso for, para salvaguarda da nação e de minha própria pele eu reformulo, meu texto fosse o de João Ubaldo, provocativa e irreverentemente cagando montes para a censura em plena ditadura e recolocando as questões sempre em melhores termos. Se ofender, ao estilo dele, posso dizer que fundadores, redatores-chefes e editores são Príncipes, a quem se deve todo o respeito por direito divino e a quem compete a árdua responsabilidade de zelar pela Política Editorial da Casa, essência inodora, insípida e que de tão transparente só é perceptível aos mortais porque os príncipes a demonstram polidamente a seus súditos, por meio de instruções de nitidez e concisão de fazer inveja à demonstração dos mais belos teoremas da geometria analítica: "Quem manda nesta merda sou eu, porra! Vê se fecha esta matéria como te digo e não me enche mais o saco." Se for studio de TV, então, é ainda mais concisa e incisiva a instrução, porque lá o tempo urge, enquanto o Rato caga e o Leão ruge, abrindo o bocão de hálito fétido como é o de todos os felinos carnívoros e carniceiros... Se continuar ofendendo, desdigo, reconhecendo que é impossível haver autoritarismo, sensacionalismo indecente e preconceituoso, além de outras baixarias, em honrados órgãos da mídia, mormente naqueles que são do povo, eis que existem como concessões públicas. Isto seria impossível, visto que se realizam nestas casas reuniões de pauta diariamente com todos os editores, a todos franqueada livremente a palavra e a opinião.... (fato que todos sabem verídico porque sempre que jornalista não atende ao telefone é porque ele está em reunião de pauta..., a não ser que o jornalista não tenha prestígio, quando então dizem que ele está no fechamento...) [Tanto se dedicam há séculos os jornalistas ao fechamento dos jornais que consiste em verdadeiro milagre que ainda persista alguma redação aberta.] Há uma outra circunstância, rara porém existente, que explica o fato de não se conseguir falar com os jornalistas ao telefone: quem atende ao telefone são eles mesmos, mas após perguntarem quem quer falar?, informam que eles próprios não estão lá, só sua hipocrisia no lugar (costuma acontecer quando, após o uso, descartam uma fonte como bagaço). Executivos de empresa fazem hoje tal coisa todo minuto do dia, com maior tecnologia e desenvoltura, disfarçados atrás de secretárias eletrônicas.

Voltando à questão da democracia das redações, há de se considerar que, além de tudo, os editores, por sua vez, debatem sempre as pautas super democraticamente com suas equipes no botequim da esquina (curiosamente sempre depois do fechamento: é como realizar eleições depois de empossado o candidato...) e a grande imprensa mantém também conselhos de redação e quiçá até homens-bode e colunas de leitores criticando (sem nenhum tipo de copidescagem!!!, é claro) as besteiras publicadas, bem ao lado, como é natural e de direito, de dezenas de outras cartas de leitores ressaltando a nobreza e competência dos defensores da democracia.

 

[Pô, João Ubaldo, seu estilo era foda mesmo, mas parece que não tenho a sutileza para plagiá-lo, sinto que cada vez me enrosco mais. Caio fora desta e paro por aqui mesmo pois é capaz que alguém acabe se ofendendo de verdade apesar de sua didática insuperável e de meus esforços de esclarecimento de que eu não tenho nada a ver com isto... (Eu estava só falando de minha meninice e você me bota em cada fria! Além de sua lembrança bravia me impor todo este longo parágrafo, quebrando por inteiro o ritmo de meu texto, João Ubaldo! E você me leva a falsear, entrando na caricatura: acaso algum editor algum dia foi grosseiro, xingando assim todo mundo? Eles são príncipes, gentis, você sabe, porra.) Só não te deleto todo é por causa de você me garantir que não vai permitir ao FHC ingressar na Academia Brasileira de Letras. Baiano macho!, mas inconseqüente..., pra evitar isto vais ter de fazer pacto com o ACM, com ofício de galinha preta na esquina do Pelourinho, porque o Marinho e o Sarney já estão lá, escritores de merda a desonrar a Casa de Machado de Assis (como tantos outros políticos medíocres antes, até mesmo o Getúlio, que de próprio punho, ao que se saiba, apenas escreveu a bela frase dando conta de que assim saía da vida para entrar na história... dos ditadores do Brasil!) e o FHC anda rondando a ABL, fascinado por Marimbondos, qual tivesse esquecido que era para todos esquecerem o que escreveu... Além do mais, aturo tua invasão de meu texto por motivo utilitário: logo logo vou precisar de teu estilo novamente, por isso te desculpo a intromissão.]

 

II - Insider novamente, muitos anos depois, no pior lugar possível

 

Cerca de vinte cinco anos mais tarde, voltei pela primeira vez ao tablóide, novamente como Coordenador Editorial (nome mais democrático que se utiliza normalmente para dizer que o redator-chefe não manda picas), embora a este tempo tablóides não mais se chamassem tablóides, mas A3 com dupla dobra, pelo menos os caras chamavam assim o que para mim nunca passou de um tablóide, aliás um tablóide de merda. Imagine editar o house organ de um fundo de pensão estatal... Coisa de louco!, mas para isto eu já estava preparado porque minha psicose já se manifestara e eu já tinha passado por hospícios piores.

Editar tal tipo de folhetim tem grandes vantagens filosóficas e tremendos inconvenientes jornalísticos. A vantagem filosófica é dada pelo fato de que só se pode relatar a verdade oficial e esta, como inexistente, já que consiste numa contradição em termos, é mais próxima da ignorância, que é o destino óbvio de todos os que estudam a sério qualquer assunto, desde o milenar enunciado socrático do "só sei que nada sei". A desvantagem jornalística é que 533 pessoas metem a mão no texto, de aspones a advogados, consultores atuariais, economistas e políticos, de forma que é um cu fechar jornal tão cheio de meias verdades e de quase mentiras.

 

[Alguém poderia me esclarecer sucintamente a diferença entre u'a meia verdade e uma quase mentira? A questão é crucial para que os jornalistas tenham acesso ao sono dos justos, graça concedida, aliás, apenas àqueles que não tem nada a ver com isto...]

 

Aqui é que me valho de novo do João Ubaldo e desdigo o que disse, para não ofender ninguém, salvaguardar a república e minha própria pele. Deve ter sido tudo alucinação minha, pois à época eu sofria plenamente de crises psicóticas. Mas talvez estivesse certo Chesterton ao enunciar que "louco é aquele que perdeu tudo, menos a razão" e por isto às minhas noites de insônia acrescentou-se o bruxismo - las hay, las hay -, síndrome que nada tem a ver com feiticeiras, consistindo em tal tensão muscular nos maxilares que, mesmo com placa de acrílico protegendo a mordedura dos dentes, quebrei em um ano três molares e outros dentes menores, tais minhas reflexões filosóficas noturnas a respeito de qual a possibilidade de se vislumbrar a verdade e como torná-la acessível ao restante do rebanho, apenas ínfima parte dela que fosse, se é que aquelas loucuras que eu alucinava ver fossem a verdade.

 

O problema ético e jurídico de quem trabalha na "imprensa livre" é justo o oposto do daqueles que o destino condena à "imprensa oficial" seja a do governo em si, em qualquer dos três poderes, seja a das empresas estatais ou privadas, para não dizer daquela dos partidos políticos, dos conselhos regionais das corporações de ofício ou dos sindicatos, por certo incluídos neste drama os próprios redatores de jornais dos sindicatos de jornalistas - que não escapam de ser órgãos da imprensa oficial de determinada corporação de ofício.

 

Dizem os editores de "jornais livres" que sua grande angústia é não poderem publicar tudo o que sabem porque não têm provas suficientes. Na verdade, declaram aos íntimos que a imprensa livre publica a ínfima parte do que sabe. Acrescento, desdenhando de quem desminta, que outro tanto não publicam, os livres, mesmo com provas, porque não lhes convém.

 

[Antigamente Jornalistas, observaram a caixa alta?, (alguns, nem todos, lembremo-nos) eram presos e exilados por buscarem a verdade - hoje, temem processos e obrigação de ceder "espaço de resposta", e se calam, calando igualmente seus editores, seus repórteres, colaboradores, colunistas, para não dizer até dos freelas... Naturalmente deve ser saudosismo meu, esta tendência de reverência pelos antigos que quase todos nós atavicamente carregamos, mas tenho a impressão de que a imprensa já foi de mais importância e de mais peso. Talvez porque as rotativas não se alimentavam de impulsos virtuais dos computadores, mas do chumbo que os linotipistas remetiam para as calandras. Escrever em chumbo talvez fosse mais sólido do que escrever em bits.]

 

O dilema ético dos homens de boa vontade da imprensa oficial é justo o inverso. Como não publicar aquilo de que se tem as provas nas mãos?

 

Guimarães Rosa diria: Nonada. Verdade não sei o que é. "O demo existe?"

 

Nunca vi, a Verdade, na minha vida, exceto no sorriso das crianças pequeninas, e creio tratar-se de essência inatingível a qualquer tipo de ciência, filosofia ou religião - grande soberba esta a de o jornalismo arvorar-se a estupidez de conhecê-la! Não-verdade conheci à vontade em muitos meandros de meu caminhar, e neste emprego oficial, que acabou por me destruir os dentes e fragilizar ainda mais minha saúde mental, a tal ponto que para não ofender ninguém, se preferem, como dizia o Ubaldo, "reformulo": devo ter passado um ano inteiro delirando, coincidindo este ano como sendo o mesmo em que os caras cometiam loucuras que em meu delírio pareciam verdades puras. Mas deviam de ser mentira essas verdades, visto que nenhuma imprensa, oficial ou livre, publicou porra nenhuma do que estes meus olhos que a terra há de comer alucinaram ter visto. E todos sabem que o que a mídia não divulga é por que não existe, nunca existiu e nunca existirá. Para não dizer do tanto que ela divulga o que não existe, não existiu e nunca existirá exceto no stress das redações (obcecadas por produzir pautas capazes de garantir pontos de ibope pelo que se catapulta aos satélites, na mídia eletrônica, e índices favoráveis na medição de circulação, na mídia impressa.) Todos no mundo da mídia fingem ignorar a advertência a Horácio: há mais coisas entre o céu e a terra do que sonha a sua vã pauta do dia - se não foi isso o que a Horácio se falou, era o que pensava Sheakespeare, visto contestar, toda a tragédia na Dinamarca, justo as versões oficiais e livres da corte em notícias.

 

 

III - Outsider afinal, ufa!

 

Justo 30 anos depois de fundar um tablóide estudantil, encontro-me em situação complexa na minha relação de amor e ódio pela imprensa. Não mais apenas porque a relação é antiga e portanto merece de qualquer forma ser conversada, ou escrita, mas porque minha tortuosa trajetória levou-me hoje a exercer múltiplos papéis por trás das rotatórias, das câmeras e microfones.

 

Sou escritor, colunista de jornal, mas jornalista nunca! Nunca mais, como insistia o corvo de Poe. Porra, finalmente assumo a plena consciência de que nunca fui jornalista e a convicção de que jamais serei. Mesmo escrevendo para jornais e revistas meu ofício é outro e só por isto posso escrever livremente o que me der na telha.

 

Entretanto, sou novamente editor de um tablóide, (A3 + 1, sei lá quantas dobras, depende, em cada caso da expedição o número de dobras é diferente). Tablóide quixotesco e valente também este, o pequeno jornalzinho, "voz" da luta associativa de nós loucos contra a insanidade absoluta do Congresso Nacional, do ministério e secretarias da Saúde. Quando tenho forças, empenho nele minha alma brancaleone na batalha por Direitos Humanos e Civis, assim como tento continuar fazendo, a duras penas, em minha coluna no Jornal da Tarde, talvez a única coluna e o único jornal de expressão no Brasil que se dedica permanentemente à questão dos portadores de doenças mentais e da violação de seus direitos elementares de cidadania, abrindo espaço nobre em suas páginas.

 

Nestes afazeres digladio-me contra o descumprimento da Constituição neste país infame por obra da insanidade de seus governantes e da complacência de sua imprensa livre e oficial ao mesmo tempo.

 

 

IV - Deus abençoe todos os jornalistas

 

Deus abençoe todos os jornalistas do mundo e me guarde de ser um deles. São suficientes os meus pecados, não almejo acumular outros. Sendo que também são apenas dos jornalistas os méritos e as qualidades necessárias para tal ofício, méritos e qualidades que não possuo.

 

Tendo-me declarado um outsider conheço, entretanto, o suficiente das redações e seus meandros, desde o tempo do linotipo e das calandras, da Major Quedinho, Barão de Limeira e Marginais, a nada confessar do que conheço dos studios, para fazer cara de chinês quando algum jovem jornalista, ao me entrevistar, começa a me explicar as dificuldades de seu ofício, em resposta aos mínimos compromissos éticos que solicito de sua parte, dados os meus direitos de entrevistado.

 

Ofício (penso eu), meu amigo, jovem repórter, editor de jornal ou dono da Casa, cada um escolheu o seu, tenha sido desta ou daquela a forma que o acaso e o destino (a tyche e a moira) lhe açambarcaram a consciência para que V. se iludisse cogitando que a escolha foi de seu livre arbítrio.

 

Meu ofício atual, de escritor, minha hora e minha vez à beira do precipício como Matraga, andando descalço, e já quase sem dentes, sobre o Fio da Navalha, diria talvez Sommerset Maugham, sei que não escolhi. Foi-me concedido apenas aceitá-lo ou rejeitá-lo, sendo que rejeitá-lo seria renegar o meu ser, impedindo-me de tornar-me o que sou, fazendo pouco da exortação de Píndaro.

 

Não estou aqui do jeito que estou porque algum dia tenha sonhado com isto. Ninguém sonha ser portador de uma doença mental, e, com a ajuda da própria imprensa, tornar-se um dos líderes dos loucos de um país. (Desculpem-me a grosseria da expressão, mas é da própria imprensa e do código civil brasileiro que retiro a palavra loucos para referir-me àqueles "que perdem tudo, exceto a razão", como disse Chesterton, ou àqueles que realmente perdem a possibilidade do livre arbítrio, sofrendo de uma patologia da liberdade, como dizia Henry Ey, porque mesmo mantendo a razão podem estar impossibilitados de expressá-la, eventualmente comportando-se fora dos padrões socialmente aceitos, sendo assim estigmatizados por todos.)

 

Sendo isto o que sempre fui e sou, escritor e louco, não esperem de mim que eu trate das mesmas amenidades costumeiras e me aceitem e ao meu texto, se puderem, com minhas peculiares idiossincrasias, entre as quais se inclui esta obsessão pela busca da verdade, que só me leva a um melhor reconhecimento do que é falso, sendo certo para mim que a ninguém é dado o condão de encontrá-la, a ela, a Verdade.

 

A partir destes pressupostos, poderei continuar, em outra oportunidade, a conversar sobre a relação de amor e ódio que mantenho com a imprensa há mais de 30 anos, se lhes aprouver seguir compartilhando tal martírio.