Uma Reflexão sobre a Tecnologia
através dos Milênios

 

Bronislaw Polakiewicz
(FBT - FCF - USP)

 

A revolução industrial consagrou a tecnologia como um elemento de grandes transformações econômicas e sociais, conseqüências iniciais da aplicação da energia do vapor durante o século XIX.

 

Muitos acham que apenas a construção da máquina à vapor é tecnologia, mas o cozimento de alimentos em panelas ou outros vasos também têm conteúdo tecnológico fruto de anos de evolução. O irônico disso é que há séculos milhares de pessoas viam as tampas das panelas pularem por ocasião da fervura dos alimentos, mas apenas um homem se aproveitou do fato e fez uma máquina à vapor. Quais as possíveis características deste "um" que o diferenciaram dentre os outros? Vamos fazer um exercício e tentar enumerá-las:

 

1) Era observador: porém muitos o eram;

 

2) Tinha noção do mecanismo da roda excêntrica com alavanca: porém todos os moleiros conheciam bem o mecanismo;

 

3) Tinha noção da utilidade de um equipamento desta espécie: aqui ele se diferenciou dos outros uma vez que estes não pensaram na utilidade de tal dispositivo.

 

Fica a dúvida: ao observar a chaleira com água fervendo, ele chegou à máquina ou inventou a máquina aproveitando o fenômeno da chaleira?

Na verdade tanto faz, mas o fato mais importante é que o tecnólogo é o indivíduo que articula os fatos para criar um invento. Esta articulação de conhecimentos para criar algo já foi comentada por nós em outro artigo [1] no qual tratamos do engenheiro Felippo Brunelleschi, que, no ano de 1421 em Florença, conseguiu a patente de um dispositivo para transportar mármore.

 

Mas o emprego do vapor no século passado teve um grande impacto no desenvolvimento da indústria química, numa sucessão de fatos, como o emprego do vapor nos teares, navios e trens, o que ocasionou a vinda de lã da Austrália e algodão da América em grande quantidade. Desta maneira os teares a vapor começaram a produzir tais quantidades de tecidos, que os corantes vegetais usados normalmente para tingir esses tecidos não foram suficientes, surgindo então a indústria química produzindo corantes e mais tarde outros produtos abrangendo um grande leque de atividades.

 

Este foi o começo do fim da sociedade rural, provocando a transição para a sociedade urbana tão conturbada e estressante como a conhecemos atualmente.

 

A esta nova sociedade industrial que adentra no terceiro milênio, são atribuídos uma série de males que afligem o ser humano tais como a violência, o álcool e as drogas entre outros.

 

Essa nova sociedade aparentemente desumana criou sistemas contraditórios, ao radicalizar a eficiência criando uma automação que procura descartar a mão de obra, que por sua vez tinha nesse mesmo lugar o seu trabalho, que era a sua fonte de recursos para adquirir bens e serviços, justamente dos lugares aonde ele é descartado "para aumentar a eficiência e diminuir custos".

 

Trata-se de um problema ideológico e não tecnológico, que necessita de instrumentos reguladores da sociedade.

 

Atribuir à sociedade moderna e a tecnologia alguns males atuais como a violência, o alcoolismo e as drogas, é desconsiderar qualquer reflexão sobre as nossas origens. É evidente que a tecnologia não resolve problemas espirituais, e sim resolve apenas problemas materiais sendo este o motivo porque o homem a partir do momento em que se tornou um ser racional, conheceu a ansiedade abstrata, medo de predadores inexistentes e talvez tenha começado a questionar a sua própria existência. Tão logo teve recursos, passou a ingerir o suco de frutas e cereais apodrecidos, certamente não pelo sabor agradável mas sim pela sensação inebriante causada pelo álcool ali existente, e o mesmo teve ter ocorrido com algumas plantas como a papoula do ópio por exemplo.

 

Eram os vinhos e cervejas, os "prozacs" usados contra o "stress da vida moderna" de cinco mil anos atrás. Não nos esqueçamos que os cultos religiosos também tiveram início naquela época. Foram esses tecnólogos antigos que puseram à disposição do homem estas tecnologias primitivas mas que nos soam tão atuais.

 

Mas os novos tecnólogos têm incumbências diferentes. Para os novos engenheiros químicos, químicos e farmacêuticos, novos encargos estão surgindo, e que não são apenas os tradicionais problemas de "chão de fábrica" enquanto que os outros problemas eram do departamento jurídico ou administrativo.

 

Os problemas dos novos tecnólogos são muito mais abrangentes na sociedade moderna.

 

Assim vejamos alguns exemplos:

 

- Em termos ambientais, o uso de tecnologias limpas está exigindo soluções em termos de poluição térmica, acústica consumo de energia, combustíveis renováveis, reciclagem de materiais, tratamento de efluentes, investimento em recuperação de meio ambiente etc...

 

- Em termos de relação com os consumidores, os produtos devem ser seguros, atóxicos, eficientes, baratos, e os medicamentos devem ter poucos efeitos colaterais bem como os inseticidas e outros produtos domésticos.

 

- A moderna agricultura também está sendo questionada a respeito do uso de agrotóxicos, adubos artificiais, sementes transgênicas e etc...

 

Por esses exemplos podemos ter uma idéia de como o novo tecnólogo será convidado a pensar em novos processos juntamente com profissionais de outras áreas. Essa situação leva a uma nova reflexão: qual será a formação do tecnológo químico ideal?

 

Para tanto, vários pesquisadores da área de ensino propõem aos estudantes uma formação holística ou seja: os estudantes das áreas de exatas deverão no decorrer do seu curso fazer um estudo da história da ciência e da tecnologia, verificando em que ambiente político, social e econômico se deram as invenções de base para o desenvolvimento da tecnologia.

 

Uma das finalidades disso seria mostrar que a criatividade envolvida com a pressão da demanda de uma comunidade é que gera o desenvolvimento de uma tecnologia.

 

Ao estudar a história da ciência e da tecnologia, o estudante aprenderá a desenvolver "filtros" para selecionar as informações que a cada dia chegam em maior profusão por todos os meios de comunicação.

 

Tal episódio não é novo na história na humanidade pois a invenção da imprensa por Gutenberg deve ter criado impacto igual ao computador de hoje. Enfim instrumentos que se destinam a disseminação de informações ; essa é a tese do filósofo francês Michel Serrès.

 

Essa profusão de informações das áreas tecnológicas têm levado a uma evasão dos cursos das áreas exatas com uma conseqüente migração para a área de humanidades [2].

 

É injusto considerar a tecnologia como responsável pelas mazelas do mundo atual. O mal uso da tecnologia é que em parte responde pelos problemas da humanidade. A tecnologia é apenas um instrumento para o bem ou para o mal, dependendo de quem a usa. No entanto só a tecnologia é que poderá corrigir as desigualdades deste mundo que entra no seu terceiro milênio.

 

Na verdade a tecnologia é o grande atributo da espécie humana. Quando há milhares de anos um antropóide usou pedras para se defender, para caçar e fazer fogo com suas faíscas, também as usou para atacar seus semelhantes pois fazia parte da sua natureza primitiva e que ainda hoje é reacendida em determinadas circunstâncias.

 

Porém com esta tosca tecnologia primitiva ele selou a sorte de seus descendentes, estabeleceu que estes não mais viveriam para sempre em cavernas ou sobre as árvores. Neste momento o "pitecantropo" separou-se dos outros animais e passou a carregar um fardo que é o de não se poder acomodar como os outros animais. A partir daquele dia seus descendentes teriam que seguir em frente, vasculhar toda a Terra e também o espaço pois talvez não viessem a viver na Terra para sempre. Talvez por isso que um grande poeta português desse século disse: "Navegar é preciso". Tudo indica que estamos navegando há muito tempo, mas o poeta esqueceu-se de dizer que para navegar é necessário conhecer tecnologia para construção do barco e dos seus instrumentos.

 

 

Referências:

 

[1] Polakiewicz B. ReGEQ - ANO I No. 2 pag 45 a 52 1998:
http://www.hottopos.com/regeq2/patentes.htm

[2] Pesquisa FAPESP No. 47 pág 17 - outubro/ 1998