A Formação Adequada à Configuração de um Novo Humanismo – Parte II

 

Conferência de Alfonso López Quintás na FEUSP
lquintas@filos.ucm.es

 

(Conferência, em duas partes, para a disciplina Filosofia da Educação II da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, em 26-11-99, aos alunos do segundo ano de Pedagogia e a numerosos professores e doutorandos da FEUSP e de outras universidades de São Paulo. Mantivemos o tom coloquial e as formulações – por vezes repetidas ou semelhantes ao português – empregadas pelo conferencista. Edição e tradução de Ana Lúcia Carvalho Fujikura.)

 

O Dr. López Quintás é catedrático de filosofia na Universidade Complutense de Madri e, por determinação do Ministério da Educação, coordena um curso de Ética no site: http://cerezo.pntic.mec.es/~alopez84/ . Outras colaborações do autor em nosso site: A Filosofia da Educação e a Reforma Curricular; El Modo Óptimo de Realizar la LOGSE -PCNs).

Vejam, eu penso que para formular uma boa teoria do homem, para dizermos idéias que sejam fecundas, devemos nos basear em algo muito sério. Não valem os palpites. Eu posso ter muitas idéias geniais, mas também idéias que não valem nada – mais freqüentemente a segunda opção (risos). Eu não posso fundamentar a minha vida em cima de um palpite... Há pessoas que dizem: "minha opinião a respeito disso é assim...". Bem, isso é lá com elas. Pois tais opiniões, talvez não sejam sólidas, não estejam bem fundamentadas. Estas pessoas podem estabelecer suas vidas sobre algo que pode não ser sólido, não ser firme. Eu não subo em um avião se o piloto não souber pilotar bem ou se a companhia não tiver bons aviões, pois as conseqüências podem ser muito graves. Se isto acontece no trânsito, quanto mais na vida ética... Na vida ética, deixamo-nos levar, muitas vezes, por nossas idéias mais ou menos superficiais, ou por idéias de pessoas que não entendem nada disso, mas que têm a possibilidade de falar diante de um microfone todos os dias, aparecer na televisão, escrever etc. etc...

Vejam, vou dizer-lhes uma coisa: um dos grandes males da situação atual é o meter-se a falar do que não se sabe. Por exemplo, se me ponho a falar na televisão de um tema que não conheço bem, eu me arrisco, ao emitir juízos, a desorientar o público... Eu recuso sempre... Às vezes me dizem: "Alfonso, venha falar disso, venha falar na televisão, pois teremos um debate." E eu pergunto: "sobre o quê?" "Ora, que importa? Você vem e diz o que quiser!". E eu respondo: "não!" Dizer o que se quer pode ser uma indevida intromissão... porque se emito opiniões que não estejam bem fundamentadas, posso causar um mal ao público, posso desorientá-lo. E isso eu não posso fazer. Agora, se se trata de um tema que conheço, que conheço bem e não de qualquer maneira, então eu vou, me sinto com liberdade para falar.

Vejam que importante é isso: eu sinto que tenho liberdade para falar – liberdade interior. Dizem-me: mas somos nós que te damos a liberdade. E respondo: não me interessa a liberdade que me dão, me interessa a liberdade que tenho. Vejam, o direito de falar em público sobre temas importantes deve ser comprado, conquistado. E então é quando eu me permito dar liberdade a mim mesmo, senão não. Por quê? Porque se pode causar muito mal.

Bem, então eu diria: temos que recorrer não a nossas idéias superficiais, mas sim ao que diz, por exemplo, a pesquisa científica, a pesquisa ética, a pesquisa antropológica, a pesquisa da teoria da criatividade, não é mesmo? Porque, vejam, a pesquisa não é própria somente de uma pessoa, ou de outra, de um páis ou de outro... Como vocês sabem, hoje há um intercâmbio em todo o mundo, há métodos rigorosos... progride-se... Se vocês vêem, por exemplo, o melhor da pesquisa ética atual, se vocês vêem como se está estudando em todo o mundo, isso merece respeito porque, claro, são muitas pessoas, grupos sociais... O melhor da pesquisa biológica merece respeito. Eu pergunto: o que diz, por exemplo, a pesquisa biológica mais qualificada na atualidade? Há como que um consenso em todo o mundo para se dizer o seguinte: o ser humano – vocês e eu – é um ser de encontro. Vive como pessoa, desenvolve-se, aperfeiçoa-se, criando encontros.

Qual é o primeiro encontro do bebê, quando nasce, com o meio? É o encontro com a mãe. Imediatamente com o pai, com os irmãos, se tiver. Encontro com o lar. Hoje os biólogos dizem às mães: se for possível, as mães devem amamentar seus bebês, pois amamentar uma criança, dar-lhe de mamar, não é somente dar-lhe alimento, é muito mais: é acolhê-lo. O que uma criança mais necessita quando nasce é sentir-se acolhida, perceber-se querida. E estar em um ambiente no qual haja amor. Não basta que o pai ame a criança e a mãe a ame, e eles, entre os dois, estejam se matando... eles têm de amar-se e os irmãos também... criar um espaço de amor. E é nesse espaço de amor onde cresce de verdade a criança, pois há encontro.

O mesmo podemos dizer de uma escola, uma escola primária, uma escola secundária, incluindo a universidade. Se há um âmbito de encontro, é um âmbito de formação; se não o há, pode ser um âmbito de informação, mas não de formação. Se os professores estão um contra o outro e todos contra a direção, se os funcionários estão um contra o outro... isto é um campo de luta, não é um campo formativo. Deve ser um campo de encontro.

Pois bem, os mesmos biólogos dizem às mães: se for possível, vocês mesmas, os pais, os filhos, avós, irmãos, cuidem das crianças. Por que somente se referem aos familiares? Porque se supõe que os familiares amem incondicionalmente as crianças, o bebê que nasce. O que uma criança mais necessita é sentir-se amada. Hoje se dá, a cada dia, como vocês sabem, muita importância a isto: o sentir-se amado, mas naturalmente também se diz à criança que ela deve amar para que haja um intercâmbio. Vejam vocês, cuidar de uma criança, por exemplo, asseá-la, lavá-la... uma babá poderá fazê-lo, não é mesmo? Pode pegar a criança, colocá-la no banho, limpá-la, limpá-la de novo, deixá-la um "brinco", mas eu me pergunto: e se o fizer sem amor? Hoje os biólogos (os biólogos! Não somente os pedagogos, os pediatras...!) dizem: se a pessoa que cuida da criança o faz sem amor, essa criança corre o grande perigo de desenvolver-se anormalmente. E muitas raízes de violência que acabam com a juventude, que são a desgraça da vida dos jovens e das famílias, procedem da falta de carinho dos primeiros anos.

E hoje realizam-se estudos muito sérios, por exemplo, nos Estados Unidos, e também em meu país, e suponho que aqui também, claro, sobre o fracasso escolar. Muitos, muitos meninos e meninas, abandonam a escola porque fracassam, não são capazes de continuar os estudos. E agora realizam-se pesquisas em que se percebe que esses meninos e essas meninas estão demasiado sozinhos em suas casas, não têm carinho. As famosas crianças da chave no pescoço, a chave da casa.

Eu, quando estudei na Alemanha há anos, trabalhava em uma escola e via que todas as crianças tinham uma chave, uma chave dessas pequenas, assim como se fosse uma corrente, pendurada no pescoço. E eu dizia: "e você, para que essa chave?" "Ah, porque quando terminamos aqui, ao meio-dia, vou para casa, abro a porta, fico sozinho porque meus pais não estão, se deixaram alguma coisa para comer, como, e venho à escola de novo. À tarde, ou às seis da tarde, faço o mesmo: vou, com a minha chave, e entro. E se encontro algo, janto". "E seus pais?" "Não estão. Só vêm de noite. Eu, às vezes, nem os vejo. Vou dormir e nem os vejo."

Bem, estas crianças da chave no pescoço são crianças que carecem de ternura – não porque seus pais não as amem, mas sim porque não estão com elas. A criança precisa de acolhimento.

Então, se as coisas são assim, qual é a chave para fundamentar bem nossa vida e, portanto, para criar este homem novo? Um homem que não volte a fracassar em outra guerra mundial, um homem de uma nova época. Qual é a chave? Eu creio que, segundo a pesquisa atual, a chave é a compreensão do encontro, compreender bem o encontro, a fundo. Porque, vejam, o importante na educação não é recitar conceitos, mas sim, dizê-los de tal maneira que a criança e o jovem os compreendam por dentro, não os aprendam superficialmente só porque lhes dizem, mas sim que os compreendam de tal maneira que digam: "ah, sim... claro, isso eu vejo... isso é assim", e, para que isto ocorra, é preciso ensinar de tal maneira que não lhes soe como algo estranho, mas que o captem por dentro... e é então quando se entusiasmam com os valores que há nisso tudo.

Vamos fazer -dentro do pouco tempo que temos- um esforço para compreender o que é o encontro. Permitam-me, entre parênteses, contar um episódio. Escrevi um livro, um grosso volume, sobre a arte de pensar com rigor e de viver criativamente, e começava pelo encontro, porque eu, com a ciência na mão, dizia: a biologia diz que o homem é um ser de encontro, comecemos o livro – um livro para explicar o processo de formação, o processo de crescimento, de desenvolvimento – pelo encontro.

Mas, pouco antes de mandá-lo à grafica, peguei o livro, tencionando lê-lo com distância, como se fosse um leitor, e eu me perguntei, fiz o esforço para ver, se com o que eu dizia no primeiro capítulo, poderia compreender por dentro o que era o encontro. E percebi que não. Então acrescentei seis capítulos, antes deste... e agora o livro, podem ver vocês, tem em seu sétimo capítulo o capítulo do encontro.

E que disse antes do capítulo sete? Tive que acrescentar um capítulo sobre um termo, um conceito de filosofia que não vejo por aí, nos livros, e que é absolutamente necessário para se fazer uma teoria da educação, uma teoria do que seja o homem. Esse conceito, confesso, hoje, não sei dar um passo nem em filosofia teórica, nem em filosofia aplicada, filosofia da educação, por exemplo, nem em filosofia da arte, sem ele. Esse conceito é o de âmbito, em alemão, Raum. Que significa isto? Eu vejo que há muitos autores que escrevem, escrevem, escrevem e tudo fica, muitas vezes, pouco claro e eu, às vezes, digo: que pena!... se introduzissem a categoria de âmbito ficaria muito mais claro.

Vejam, este objeto, esta caneta... pode-se delimitá-la, eu sei que vai daqui até aqui, isto é o que ela abarca, posso segurá-la com a mão, posso pesá-la – pesa tantos gramas –, posso deixá-la aqui, aqui ou aqui, posso manipulá-la, posso fazer com ela o que quiser, não é verdade?

Ora, estou vendo vocês: não conheço a imensa maioria... Você, por exemplo, com uma fita métrica, posso medir, o que possui de altura e de largura, não é mesmo? Com as mãos, toco os ombros e digo: "isto compreende fulana de tal, esta senhora compreende isto." Você poderia me dizer, com toda razão, quanto ao corpo, sim – meu corpo começa aqui e termina aqui –, mas minha pessoa, não. Você abarca certo campo, no aspecto afetivo, você ama pessoas, elas te amam; no aspecto estético, você aprecia, talvez toque algum instrumento; no aspecto profissional, no aspecto ético, no aspecto religioso – se possui crenças –... cada um de vocês abre um campo enorme. Ou seja, cada um de vocês, não abarca só o que eu estou vendo agora, sei que abarcam muito mais. Cada um é um nó de relações, como dizia Saint-Exupéry. E isto inspira um imenso respeito pelas pessoas.

Eu, quando inicio um curso e vejo os alunos diante de mim, penso: este jovem que vejo aí ou esta jovem é muito mais do que estou vendo... Eu, nele, vejo: seus pais, que estão desejando que estude, sua namorada, seu namorado, os irmãos... vejo seus projetos para o futuro, vejo suas recordações do passado – que cada um tem, pois possui uma história –, vejo tantas e tantas realidades, o talento que tem, o afeto... Cada pessoa é um nó. Então, vejam, vocês não são como a caneta, que começa aqui e termina aqui. Vocês são como um campo de realidade, poderíamos dizer, um âmbito de realidade ou, simplesmente, um âmbito.

Um âmbito é como um campo. Os olhos não o vêem, mas a mente, sim. Eu, com a mente, vejo... com a imaginação, vejo que vocês são muito mais do que parecem. Mas isto não somente com as pessoas, mas com muitas realidades que não são pessoas, mas tampouco são objetos como a caneta. Por exemplo, um piano. Eu vejo um piano. Como móvel é igual a esta mesa, não é? Um objeto como esta mesa, mas como instrumento, que tipo de realidade apresenta? Isto deve ser estudado – e muitos autores não o estudam e isso é uma pena porque assim não se pode fazer uma teoria realmente séria do que seja a realidade. Um piano, como instrumento, me oferece possibilidades de tocar. Suponhamos que eu seja pianista: eu ofereço ao piano possibilidades de criar formas musicais no teclado. Imaginem em seguida uma partitura: uma partitura como um monte de papel é um objeto – como esta caneta: pode-se delimitá-la, pesar etc., mas como partitura, como papel, que me oferece possibilidades de criar uma nova obra, a partitura não é um objeto, é mais do que um objeto. Mas tampouco é um sujeito, sujeito é o compositor. É uma realidade intermediária. Há autores que, pensando nisso, ficam confusos e dizem: que sentido, que realidade apresenta esta partitura? É parecida com o compositor porque está revelando uma obra, mas tampouco é o compositor. Também se parece com um objeto porque é um pedaço de papel, é um monte de papel e é, assim, intermediária. Pois, vejam vocês, eu digo simplesmente: uma partitura como partitura é um âmbito, é um campo de realidade que pode relacionar-se comigo e eu com ela. Um objeto pode relacionar-se contigo, pode ter iniciativa para dizer-te algo? Não! Esta mesa tem iniciativa para falar comigo? Não! A partitura, sim! Eu pego uma partitura, coloco no piano..., está me dizendo, está me convidando para tocá-la, está me corrigindo – se eu toco mal, a partitura me diz: não!

Por exemplo, pensemos em outra realidade, como há muitas que, por um lado, são objetos, mas, por outro, são âmbitos. Por exemplo, uma obra de arte. O grande esteta francês Mikel Dufrenne – a quem conheci, um homem simpático – tem uma grande obra: "Fenomenologia da Experiência Estética", em dois volumes. No segundo volume, propõe o seguinte problema: que estatuto ontológico, ou seja, que tipo de realidade possui uma obra de arte... por exemplo, a sétima sinfonia de Beethoven? E ele se atrapalha todo! Pois começa a dizer: "a sétima sinfonia de Beethoven não é uma pessoa – pessoa era Beethoven – mas tampouco é um objeto como é a mesa – porque ela tem iniciativa..., a sétima sinfonia tem vida, a sétima sinfonia se pode assumir como própria". Porque, vejam, eu não posso assumir esta mesa como própria, como uma voz interior, está sempre fora de mim. Mas, por outro lado, um regente de orquestra e alguns músicos podem assumir a sétima sinfonia como própria, tomando-a como o princípio de seu trabalho musical. Isto não se pode fazer com um objeto.

Ele confunde-se e diz: "por um lado, parece um sujeito, que tem vida; por outro, é um objeto no sentido de que é diferente do sujeito, distinto das pessoas." Confunde-se! E sabem como resolve o problema? Depois de um tempo, diz ao final: "bem, digamos que é um quasi sujeito". Vocês aprenderam algo? Eu fiquei na mesma. Eu penso que, quando há uma realidade que é diferente de uma e de outra, deve-se inventar uma palavra – uma palavra que determina exatamente o que é. Eu, então, me recordo que, na margem do livro – que era meu próprio –, escrevi: mas diga simplesmente que é um âmbito e deixa de atrapalhação!

O que significa ser um âmbito? Que uma obra musical é como uma fonte de possibilidades e se pode dialogar com ela, pode-se assumi-la como própria. E você, então, tem de dialogar com ela, ela manda em você e você manda nela. Ou melhor: ninguém manda em ninguém, mas sim ela lhe dá possibilidades para criar uma obra e você lhe dá possibilidades para que essa obra seja – é um enriquecimento mútuo. Temos, então, uma descoberta muito importante que é a das experiências reversíveis: são experiências que têm dupla direção. Aqui está o sujeito, aqui está o objeto – este objeto que não é um objeto, mas sim âmbito. Então, entre um e outro, estabelece-se uma relação reversível. Eu influencio você, você me influencia... e isto é o aspecto reversível. Eu convido você para um passeio pelo jardim e você me diz: sim, mas não agora; depois. Eu convido você, influencio você, mas você responde e diz: sim, mas por aqui. Então estamos, nós dois, colaborando: é reversível.

Estas experiências reversíveis são importantíssimas na vida humana. Uma experiência linear é a que vai do sujeito ao objeto – eu dou um impulso na caneta e a caneta sofre esse impulso e aí permanece. O esquema que estrutura esta ação é o esquema ação / paixão: eu atuo-ele padece. Na experiência reversível, não é assim; eu atuo sobre você, você atua sobre mim, são duas atuações livres que complementam a nós dois. Isto enriquece-nos muitíssimo. Vejam, quanto mais maduros estivermos na vida, menos experiências lineares realizamos e mais experiências reversíveis. Por exemplo, um professor que se considere o "tal", que fale e pontifique... e os alunos não tenham mais que simplesmente padecer o que ele diz, somente recebendo, mas sem iniciativa, seria um professor que vive de experiências lineares. Mas se o professor fala, atua sobre os alunos, mas eles também reagem, por exemplo, fazendo trabalhos, propondo perguntas... é uma experiência reversível na aula, isto é mais maduro.

Então já temos: primeira descoberta (agora, em muito pouco tempo, teremos que fazer várias descobertas...): os âmbitos; segunda, experiências reversíveis e a terceira, o encontro. O que é o encontro? O encontro não é mera proximidade. Eu posso agarrar-me a esta mesa e depois levanto as mãos e o que aconteceu? Não aconteceu nada. Criei algo? Não. Agora, por exemplo, se vejo um piano e o toco por fora, desse mesmo modo, quando levanto as mãos, não aconteceu nada. Houve encontro? Não. Há proximidade, mas não há encontro. Eu posso conviver com você a vida inteira e não lhe encontrar rigorosamente uma única vez – porque o encontro não é mera proximidade. A proximidade é muito fácil: eu dou três passos e estamos perto. Mas, com isso, não criamos encontro . O encontro é um enriquecimento mútuo: você é um âmbito de vida, repleto de possibilidades, projetos etc. Você os oferece a mim e eu os ofereço a você; você tem vontade de compreender-me e eu tenho vontade de compreender você; eu tenho vontade de ir com você, você, comigo; e criamos um campo de jogo comum, criamos um campo de liberdade comum... e isso é o encontro.

Agora vejamos algo importantíssimo: quando há encontro de verdade, superam-se as divisões. Se você e eu não somos amigos, não criamos encontro, eu estou aqui e você está aí, fora de mim, verdade ou não? Mas se você e eu criamos encontro, você já não está fora de mim – nossos corpos, sim, mas nossas pessoas não. Eu não estou fora de você, você não está fora de mim. Seus problemas são meus problemas, minhas alegrias são suas alegrias, comunicam-se, isto é maravilhoso. Quando há encontro, há uma comunicação. Seria absurdo, por exemplo, que um centroavante, quando visse que o goleiro de seu time sofreu um gol, dissesse: "ah, isto é problema dele". Isto não é meu problema: não teria entendido o que é uma equipe – uma equipe é justamente um encontro... quando há uma equipe, há encontro. Seus problemas são meus problemas. Outro dia, falando com um grupo de jovens em Madri, disse-lhes: cuidado, pois, às vezes, vocês são cruéis com seus pais. Sexta-feira à noite, sábado à noite, saem, não dizem quando voltam, não dizem aonde vão, seus pais ficam angustiados... E um dos rapazes me diz (um rapaz normal, bom): "Que acontece, que nossos pais sofrem, ficam angustiados porque estamos fora?" "Sim, muito." "Ah, isso é problema deles." E digo: "Como? Problema de quem?" "Deles, dos meus pais." Sabem o que lhe disse então? Disse: "Veja, perdoe-me, se me diz isto, sinto muito mas tenho que dizer-lhe uma coisa muito triste... você não tem lar." "Como não tenho lar?!", disse-me. "Sim, sim, apartamento, casa, você tem, mas lar, não." "Como?" "Sim, senhor. Lar diziam os latinos: focus, é o lugar onde arde o fogo do amor, o lugar onde há encontro. Você não se encontrou com seus pais nunca, pelo menos até agora e me diz: ‘Como que não, se os vejo todos os dias?’" E digo-lhe: "Claro que você os vê todos os dias, mas não se encontra com eles."

Isto de que estamos falando são claves de interpretação da vida, são muito importantes para entender a vida. Então, já temos a descoberta do encontro, porém há ainda mais descobertas por fazer. Como se chega ao encontro? Cumprindo certas exigências.

Para criar um encontro autêntico, um encontro – e não somente estar perto –, devemos ser generosos. A generosidade é importante para abrirmo-nos ao outro. Se sou egoísta, encerro-me em mim mesmo. Segundo, devemos ser verazes, não mentir. Vejam, se me abro a você, mas minto, você não tem confiança em mim, porque se conquista a confiança quando se vê que o outro se abre totalmente. Mas se me abro em parte e, em parte, me escondo, você dirá: Por que se esconde? Você verá que não há comunicação. Sempre que alguém mente, destrói a possibilidade do encontro. A mentira destrói o encontro. A veracidade, ser verdadeiro, ser sincero é condição para o encontro. Quarta condição: a fidelidade. Fidelidade não é meramente "agüentar". "Agüentar" agüentam as pernas das mesas, os muros, as colunas... estão feitos para agüentar. Nós, seres humanos, não estamos feitos para isto, minha vocação não é agüentar, nem tampouco a sua. Sabem qual é? Ser fiel. No dia do casamento, uma pessoa promete a outra criar, com ela, um lar. Este lar não está feito de uma vez por todas como está feita esta mesa. Deve-se criá-lo a cada dia, cada hora. Ser fiel: que significa? Criá-lo. Portanto, a fidelidade autêntica é criativa. Por isso o grande filósofo francês Gabriel Marcel tem um livro que se chama Fidelidade Criadora. Muito bem, não é um mero "agüentar", é fidelidade criadora. Não vale dizer: "Estás cansado? Tens dificuldades? Agüenta." Não! "Tens dificuldades? Sê fiel." Do mesmo modo, a paciência – a paciência não é mero "agüentar", é ajuste aos ritmos naturais.

E há muitas mais: por exemplo, a cordialidade. Eu sempre falo da cordialidade – tema de que nem sempre se fala. Deve-se ser terno, cordial... isso é fundamental para o encontro. Eu digo sempre aos rapazes: eu posso reprovar um aluno ao final do curso e fazê-lo com cordialidade ou sem cordialidade. Portanto, havendo encontro ou não havendo encontro. Lógico, eles me dizem: "Aprove-me sem cordialidade!". Mas isto não vale, porque, se é sem cordialidade, não há encontro. Mas, que significa, eles me perguntam, reprovar com cordialidade? E respondo: bem, por exemplo, se vejo que um aluno, apesar do interesse empreendido durante o ano etc., não sabe bem uma parte da matéria – uma parte essencial que não sabe –, eu tenho que reprová-lo, mas posso recebê-lo em meu escritório. Eu sempre recebo um por um, depois de cada exame, para dizer a todos – tanto àquele que foi aprovado com louvor ou ao que foi reprovado – porque o foram. E posso explicar-lhe: "veja, você fez um trabalho, está bem feito; sabe esta parte da matéria, nem se preocupe mais com ela, mas esta outra parte que você não sabe, estude-a para o próximo exame". Este aluno vai para casa reprovado, mas criamos um encontro. E isto é formativo, ele está orientado.

Às vezes, vejo alguns professores que não agem assim e é terrível. Vi alunos perderem todo um curso... Por exemplo, medicina. Sabem o que isto significa? Uma curso de oito anos e, aos vinte e oito anos, vêem que não têm nada, porque há primeira, segunda, terceira... chamadas, perdem-nas todas e era a última matéria do curso, e perdem o curso. Tenho visto casos tremendos.

Mas também ocorre o contrário: um rapaz em Madri ia fazer o último exame da última matéria que lhe restava. Não tinha mais nenhum exame..., mas, se reprovasse nesse, perdia todo o curso – arquitetura, um curso dificílimo –, ele dizia: "eu, se for reprovado, perco o curso", estava angustiado. E eu disse ao pai: "Mas fale você com o professor. Diga o que acontece com este rapaz." "Não, não porque vou a..." E eu o convencia: "Fale com ele." Foi ver o professor. Verificou o arquivo e disse: "Seu filho sabe mal a parte prática; a parte teórica, sabe muito bem." E o pai do aluno disse ao professor: "Mas ele pensa que é o contrário. Estuda, durante todo o dia, a parte teórica e deixa a prática." Faltava um mês para o exame. E eu disse: "Vá a tal lugar de Madri, há um militar que se chama tal, que dá muito bem as aulas práticas. Vá durante um mês, tenha uma aula particular e verá que não terá problema". Foi aprovado! Mas graças a essa conversa que tiveram. Mas vocês podem acreditar que um professor vê que ao aluno só lhe resta uma matéria de todo um longo curso, e não o chama para dizer-lhe: "Olhe, cuidado com isto." Perder a carreira por não lhe dizer, cinco minutos que sejam, o que estava acontecendo... isto não pode ser.

Já descobrimos uma série de coisas: as exigências do encontro. Uma última, muito importante: para encontrar-se deve-se compartilhar valores elevados. Vejam, quando você e eu nos dirigimos rumo a algo valioso, unimo-nos entre nós. Para unir-se o mais importante é fazer o bem em comum, compartilhar algo. Dizia Saint-Exupéry, o autor d’O Pequeno Príncipe, em sua obra Terra dos Homens: "amar-se não é olhar um para o outro; é olhar juntos na mesma direção." E eu comento: amar-se não é tanto um olhar para o outro – pelo prazer de olhar a pessoa amada – mas sim consagrar-se juntos a algo valioso. Quando uma pessoa e outra realizam em comum algo valioso, isto as une muitíssimo. E vocês podem vê-lo, por exemplo, em um coro, um coro que esteja cantando o Oratório de Natal de Johann Sebastian Bach. Eu tenho um vídeo em casa e o coloco aos alunos... uma maravilha: ver 150 crianças cantando, muito unidas entre si, não se entreolham, mas vêem o regente que é quem encarna a obra, mas criam uma harmonia fantástica entre eles. E eu digo a meus alunos: Estão unidos? Muitíssimo, me respondem. E por que estão unidos? Porque cada um está olhando em direção a algo muito valioso que é o Oratório de Natal de Johann Sebastian Bach. Para encontrar-se é preciso olhar em direção a algo valioso.

Bem, sabem como se chamam estas exigências do encontro? Virtudes. Que são as virtudes? Para os latinos, virtudes eram capacidades – virtus, capacidade. Capacidades de quê? De criar encontros, de criar formas elevadas de vida. Vejam que bonito é isto: se eu assumo o valor da generosidade, assumo o valor da fidelidade como próprio, se eu estou realizando, na minha vida, o valor da cordialidade, convertendo estes valores em virtudes, eu estou desenvolvendo a minha maneira de ser, de uma maneira virtuosa. O que isso quer dizer? Uma maneira que facilita o encontro. Eu me comporto em relação a você de maneira generosa, fiel, cordial etc., e você comigo... é muito fácil criar encontro.

Vejam, essa segunda natureza, essa maneira de ser que vou criando ao me comportar assim, denomina-se, em grego, éthos. Esta palavra foi traduzida ao latim pela palavra mos e esta correspondia à palavra grega êthos, com acento circunflexo – esta sim significava costume. Éthos significa a segunda natureza, essa maneira de ser que se adquire através de certos atos e de certos hábitos. Isto é o que a ética estuda. Mos, moris, em latim, significa costume e daí vem a palavra moral – moral é o estudo dos costumes. Ética é o estudo do éthos, ou seja, dessa segunda natureza.

Descobrimos – por dentro – o que são as virtudes, ah, mas também o que são os vícios. Que são os vícios? O contrário: não a generosidade, mas sim o egoísmo; não a cordialidade, mas a dureza; não a fidelidade, mas a infidelidade. O que são os vícios? Maneiras de comportar-se que encarnam anti-valores. Por que anti-valores? Porque não fomentam o encontro; o destróem. Então, o que são os valores? Tudo aquilo que permite o encontro. E as virtudes? As atitudes humanas que encarnam esses valores. Valores e virtudes: muito parecidos, mas diferentes.

Agora temos de descobrir o mais importante, que falei no princípio: o ideal. Porque estão nos dizendo desde 1918 que o ideal deve ser mudado, mas se eu, sozinho, digo isso aos jovens, sem que eles saibam o que é o ideal, eu não estou educando esses jovens. O que lhes digo é verdadeiro: vocês têm que mudar, eu tenho que mudar o ideal. Mas eles devem compreender o ideal por dentro, não é mesmo?

Vamos descobri-lo agora. Quando nós vivemos o encontro, vivemos os frutos do encontro. Se você se encontra de verdade comigo ou com quem quer que seja, você experimentará primeiro: energia. O encontro é fonte de energia. Rubinstein, o grande pianista, conta, por exemplo, que um dia, à tarde, acordou depois da sesta, cansado e disse à mulher: avise à sala de concertos que eu não irei hoje dar o concerto. Ela o arrastou à sala de concertos: como não há concerto? E ele disse: eu estava preocupado porque me sentia muito cansado, mas quando chego à sala e vejo o piano com a tampa aberta, vejo o teclado, já comecei a me inflamar. Quando coloquei os dedos no teclado, me veio uma força e permaneci três horas tocando... Isso está dito em suas memórias, mas ele não explica por quê. E eu me perguntei: por quê? Pelo encontro. Ele se encontra com o público, se encontra com o piano, se encontra com a partitura, se encontra com a obra, com o autor da obra... O encontro fornece-lhe energia e isto ocorre constantemente – em um nível muito pequeno, se vocês quiserem. Eu, às vezes, estou muito cansado nestas viagens, mudanças de clima e, às vezes, chega a hora da conferência e digo: Meu Deus, mal posso falar! Mas quando chego ali, me encontro com as pessoas e começo a falar, depois não há quem me pare... (risos). Nós vemos isso na vida: o encontro é fonte de energia. Há pessoas que vivem em uma família com dificuldades, penúria econômica, doenças etc, mas se há encontro, há força, há força para viver.

Segundo, o encontro dá alegria. Porque a alegria surge quando se tem a consciência de estar se desenvolvendo como pessoa. Há encontro, nos diz a biologia, quando vivemos como pessoas, nos aperfeiçoamos, criando encontro. Então, quando você se encontra, sente alegria. Claro! Pois vê que está se desenvolvendo. Vocês, quando são aprovados em uma matéria, se alegram ou se entristecem? Alegram-se. Por quê? Porque vocês querem crescer como pessoas, ter um diploma, ser profissionais e ser aprovados em uma matéria é um passo para isso. Então, se são aprovados, sentem alegria; se reprovados – coisa que eu não desejo – sentem tristeza, não é?

Então, o encontro dá energia, alegria e, ainda mais, entusiasmo. O entusiasmo é uma maravilha, é uma palavra preciosa. Vem do grego, como vocês sabem, e significa estar como que imerso, metido, submerso no divino. Mas o divino para os gregos era o perfeito, a perfeição em bondade, justiça, beleza. Então, se eu me encontro, por exemplo, com um coral de Bach, que é uma perfeição absoluta, eu me entusiasmo e vocês também. O mesmo com uma pessoa que tem força, que tem elevação espiritual... ao se encontrar com ela, você se entusiasma.

O encontro não dá somente entusiasmo mas também felicidade, pois dá plenitude. Quando nos encontramos de verdade – sobretudo se aquilo com que nos encontramos é muito elevado, muito valioso –, nos sentimos realizados, plenos. E essa plenitude dá felicidade. E a felicidade se manifesta no quê? Paz interior, repouso interior, amparo e júbilo festivo, alegria festiva. Sempre que há encontro, há festa. Todas as festas vêm sempre de um encontro: festas religiosas, festas profanas, festas individuais. Vejam, quando vivemos os frutos do encontro, vemos que não há nada maior na vida, não há maior valor, que o encontro. Vemos que o encontro é a chave... Então, quando descobrimos o valor mais alto, dizemos: isso é tudo para mim na vida. Não há nada como isso – essa é a minha meta, esse é o meu ideal.

Descobrimos o que é o ideal. Agora faz sentido dizer a uma pessoa: o ideal deve ser mudado. O que quer dizer "mudar"? Bem, para mim, o máximo na vida pode ser viver, como se diz, "numa boa", quanto mais sensações prazerosas, melhor. Então, isso é um ideal; mas é, a meu modo de ver, um ideal falso. Por quê? Porque o agradável é um valor, mas não é o maior. Por exemplo, a saúde vale mais do que o prazer de um alimento? Vale mais ou não? É mais importante? Creio que sim. Se um alimento de que gosto muito me faz mal à saúde, a prejudica, serei um louco se o comer, pois a saúde está mais acima. Mas a saúde não é tampouco o mais importante, o maior valor... porque, às vezes, deve-se descuidar da saúde um pouquinho, deve-se deixá-la um pouco de lado para, por exemplo, cuidar de um doente. Então, há uma escala de valores. Descobrir essa escala de valores é fundamental na vida – é uma das tarefas básicas da formação –, e a criança e o jovem devem ir descobrindo-a – ajudados pelo adulto, mas devem ir descobrindo-a. Sabem vocês qual é, hoje, uma das calamidades, das maiores desgraças do mundo atual, a meu modo de ver? É que hoje se está subvertendo essa escala de valores, se está invertendo, o que se convencionou chamar de subversão de valores: considera-se o agradável como o valor mais alto e os valores mais altos, que são servir aos outros, estão sendo considerados como os mais baixos. Isto é terrível. Por isso eu escrevi uma obra, recentemente, que se chama A revolução oculta. Por quê? Porque hoje se está alterando a escala, a hierarquia de valores, mas de maneira oculta, através da manipulação da linguagem. E é uma revolução que mina a sociedade – como esses insetos que corróem a madeira e, quando se percebe, está toda oca. Então, a sociedade atual pode ser carcomida por dentro, pode-se destruí-la, de tal maneira que fique vazia graças a essa revolução que altera a escala de valores. Dizem a muitas pessoas: por que você fez isso? E te respondem: porque eu "estava a fim". Nenhuma razão. Que quer dizer? Que o agradável é, para eles, o valor supremo. Imaginem as conseqüências disso para a ética. Hoje há muitos divórcios, como vocês sabem, muitas separações. E há pessoas que dizem: tinha toda razão, pois vive melhor com essa pessoa que com a mulher anterior ou vice-versa. E dizem: tem direito de ser feliz. Digo: bem, vamos devagar. Todos temos direito de ser felizes, mas vamos analisar: felicidade de "estar numa boa" não é felicidade. Pode sê-lo, mas muitas vezes não. "Ah, mas posso tentar viver bem pelo preço de fazer outra pessoa sofrer, por exemplo." Isso é egoísmo; se há egoísmo, não há encontro. Se não há encontro, eu me bloqueio como pessoa, não me desenvolvo. Como vêem, o assunto não é tão simples. Então, isso deve ser estudado muito detidamente. Se a escala de valores é alterada, estamos perdidos. A sociedade não pode ir adiante.

O grande pedagogo, Josef Kentennich, um alemão, dizia em uma ocasião: "não conheço nenhum problema sério de um jovem que não seja resolvido quando o jovem descobre o autêntico ideal. Não conheço nenhum problema sério que não seja resolvido quando se descobre o autêntico ideal". E isso é verdade.

Agora, apliquemos isto à nova lei de educação. Vocês sabem que, na Espanha, foi publicada uma nova lei da educação, agora também no Brasil, na Argentina etc. O que a lei prevê? Que as crianças e os jovens sejam educados para ser pessoas integrais; que cresçam como se deve crescer; que tenham o verdadeiro ideal, que não se confundam; que saibam pensar por si mesmos, que não se deixem enganar. Hoje há em todo o mundo uma terrível manipulação. A mim, que viajo bastante, dizem os amigos de todas as partes: manipulam-se os meios de comunicação e tudo... O que significa a manipulação? Tratar as pessoas como se fossem objetos, dominá-las, e isso avilta, isso rebaixa. O que os manipuladores querem é nos dominar para que façamos o que eles querem. Então, uma criança, um jovem deve conhecer a manipulação para ser livre interiormente, não se deixar manipular. Tudo isso que a lei diz é uma maravilha... Agora, o meio para consegui-lo é que é o difícil. O que é que nossa lei diz, e creio a de vocês também, a argentina também etc.? Que cada professor deve ser um orientador, não somente informar, mas sim formar. Até aí, tudo bem. Mas, agora, a lei diz: e como conseguir isto? E diz: bem, os professores devem falar em classe – sobretudo no ensino médio –, devem aproveitar alguns momentos da aula para falar de uma série de valores, por exemplo, a saúde, o amor, a tolerância, a educação de trânsito etc. E falar de vez em quando. Este caminho está causando muitas dificuldades. Por quê? Porque é muito difícil encontrar um momento, por exemplo, em física, para se pôr a falar de amor, de tolerância etc. Segundo, os professores se queixam e dizem: "eu sou profissional, por exemplo, de música, não me faça falar de axiologia, ou seja, de valores; isso não é comigo." Tem razão. Terceiro, esta maneira é muito perigosa para a formação dos jovens, formação como pessoas. Porque esta formação requer uma articulação muito boa, ou seja, não se pode falar de uma coisa um dia; outro dia, de outra... Não! Você pode acabar sabendo temas, mas sua mente, seu espírito não fica bem articulado e aqui é necessário um trabalho de articulação. Então, vi que este caminho empreendido não é autêntico e escrevi um livro sobre isso (Como conseguir uma formação integral – N. do. Ed.), que agora se traduz ao português. Foi difícil porque realmente deveria descobrir como levar isto a cabo. E digo-lhes rapidamente o que consegui. Eu penso que os professores não devem sair de sua matéria, pois cada um quer falar daquilo que sabe. Deve-se descobrir como cada matéria pode contribuir para que o crescimento das crianças e dos jovens seja perfeito. Então, pensei: em que consiste o processo de crescimento? Um pouco o que disse antes, descobrindo o encontro, o ideal, os valores... Que conceitos surgiram? Âmbito, experiência reversível, encontro, valores, virtudes, ideal – eu não imponho todos estes conceitos, como o ministério impõe nove valores chamados transversais; ele impõe porque sabe do assunto, eu não imponho porque é o próprio processo de crescimento que está, por assim dizer, como que estruturado por esses conceitos. Mas esses conceitos que mencionei antes, condensam-se em um, que são as inter-relações. O encontro é relação, os valores são relação, as virtudes... tudo é relação. E o ideal, o mesmo. Então, a minha pergunta é esta: como cada uma das matérias pode colaborar para que aquele aluno descubra a importância das relações, fique admirado diante da importância das relações e as ame, as deseje? Se fizer isto, se cada professor conseguir isto, está colocando as bases firmes da formação dos alunos, formação humana, sem falar nunca de valores, nem de virtudes. O que ensina um matemático? Ensina a operar com estruturas, equações etc. As estruturas são relações. O matemático não deve ensinar somente operações, mas ensinar a descobrir o poder, a força que as relações têm, as estruturas matemáticas e a beleza. Não há nada mais belo do que uma estrutura matemática, uma equação com a qual Kepler, por exemplo, podia determinar o movimento dos astros. Vejam que poder! Mas, ao mesmo tempo, que harmonia, que beleza. Alguém que estude matemática desta maneira sai da aula dizendo: a relação é uma maravilha! E vai para a física, sobretudo a microfísica, e vê o mesmo, porque a última instância da matéria não são pequenos pedaços de matéria, são energias estruturadas, ou seja, inter-relacionadas. E o aluno sai dizendo: quem diria, esse "negócio" de relação está no último fundamento da realidade. E vai às ciências naturais e vê, por exemplo, a polinização das plantas, como as plantas necessitam umas das outras, há palmeiras macho, palmeiras fêmea, e vem o vento e os insentos a fecundar... tudo é inter-relação. E chega à música, a música é toda relação. Enquanto não se colocam alguns sons em relação com outros, não há música. Uma tonalidade, o que é? Relação entre tons, semitons etc. Tudo na música é harmonia. O segredo é a harmonia. O Partenon é antigo, sim, porque é harmônico. O que significa a harmonia? Proporção: certas partes estão em relação com outras. A coluna dórica tem 16 vezes o raio da base, não 15 nem 16,5 – tudo em proporção. E a Vênus de Milo está toda conforme, toda dividida em proporção conforme... se estudou: a menor parte da Vênus de Milo está em relação com todas as outras... daí vem a beleza, a elegância. E aí se aprende o que é a relação. A criança e o jovem vão se surpreendendo, sempre percebendo a relação, a inter-relação... é uma maravilha, em todo o universo. Bem, quando chegar à aula de ética, que é decisiva, já poderá entender...

Quando as normas são fecundas, não se opõem – como milhões de jovens o crêem –: se complementam. Uma jovem dizia-me recentemente em Madri – assim, maternalmente: "Professor, não se aborreça, mas não perca seu tempo com esses assuntos! Veja, na vida, deve-se escolher: eu, ou sou livre ou aceito normas. Como por lei de vida, tenho que ser livre, deixo as normas de lado". E era uma moça muito fina, não creio que era uma revolucionária, louca... não, não! Era uma moça muito fina, muito bem arrumadinha... Disse-me: deve-se escolher.

Bem, pois vejam vocês: esta pessoa, esta jovem acreditava que a relação, o esquema liberdade-normas é um dilema: deve-se escolher. Quando um jovem acredita nisso, não terá maturidade nunca... Eu não podia ter-me desenvolvido como pessoa se tivesse acreditado que liberdade e normas estão em oposição; que autonomia e heteronomia, aceitar leis alheias se opõem...? Não se opõem – quando há criatividade. Por quê? Porque eu assumo como própria a lei que me é dada, quando vejo que é uma lei que me aperfeiçoa e a assumo como algo próprio. Ao princípio é externa, estranha, alheia e distinta de mim. Depois a converto em íntima. Vejam, quando um jovem percebe que uma realidade, por exemplo, uma norma, ao princípio é distinta dele, distante, externa, estranha, alheia, mas que pode chegar a ser íntima sem deixar de ser distinta, este jovem já tem um porvir; está formado. Vejam, que importante é isto: algo distinto e, ao princípio, distante, externo, estranho, se converte em íntimo.

Bem, vocês conhecem a experiência que lhes vou contar: aprendam de memória um poema ou uma canção – por menor que seja. E, depois, vocês, sozinhos, à noite, com a luz apagada, quando ninguém os ouvir, vocês repitam o poema, de maneira criativa. Não o façam mecanicamente, mas criativamente, procurando viver o poema, voltar a criá-lo como se fosse a primeira vez que se criara. Em menos de cinco minutos, vocês farão esta experiência que é maravilhosa. O poema, quando vocês não o conheciam, era distinto, distante, externo, estranho, alheio, depois, quando o aprendem e o repetem dessa maneira, o poema deixa de ser distante, externo, estranho, alheio, e se converte em íntimo a vocês, sem deixar de ser distinto. O mesmo ocorre com as normas. Vejam, resolve-se o grande problema da ética. Ah, mas quando o professor perguntar: "o que são as normas?". São princípios que regulam nossa vida, a ordenam, a inter-relaciona. Por quê? Minha vida regula-se com relação aos demais, com relação à natureza, às obras de arte etc. que a regulam, estruturam a relação. Um aluno que tenha estudado matemática, física, arte grega – vital como disse antes –, sabe o que responderá quando o professor lhe perguntar sobre isto? "Claro, evidente! E como poderia ser de outra forma?" Se todo o universo está inter-relacionado, se a relação é o fundamento da vida (vida animal, vida vegetal, o fundamento da vida inanimada), se é assim, como poderia ser diferente quando se trata da vida humana? Ah, mas aí há uma diferença colossal: o homem deve viver a relação, deve viver em relação, mas ele é quem cria essa relação – esse grande privilégio que o animal e o vegetal não têm. Vejam, as flores vivem unidas ecologicamente ao universo; o astro vive, ao percorrer sua órbita, unido a todo o universo – mas não o sabem, nem o desejam. Quem sabe e deseja é o homem. Por isso quando, por exemplo, duas pessoas se casam e a jovem leva algumas flores na mão, por que leva essas flores tão bonitas? Porque são bonitas, sim, mas há uma razão mais profunda: porque essas flores – vamos dizer em termos da cultura ocidental bem conhecida –, essas flores, poderíamos dizer, dão glória ao universo, mantendo-se em união com o universo – ecológico – e o mesmo dirá o cristão: ao Criador. Mas não o sabem: as flores dão glória a Deus, mas não sabem. Como o astro ao percorrer a órbita... e os círios que estão ardendo no templo, por exemplo, na cerimônia de casamento... é o mesmo. Portanto, a noiva que leva as flores e o noivo que vai com ela, serão, ao criar a unidade do casamento, porta-vozes do universo inteiro: dão voz a todas as coisas, voz às flores, voz aos astros. E porque eles sabem que criar uma unidade é uma meta não somente do homem, mas do universo inteiro. Por isso poderíamos dizer que o universo vem, desde a criação, como que dando voltas, voltas que culminam na unidade. Quando alguém cria unidade, poderíamos dizer que está na mesma orientação do universo, está como que colaborando com o universo e sua perfeição. Quando se rompe a unidade, poderíamos dizer que vai contra a direção do universo, vai contra tudo do universo.

Então, com isso, eu terminaria dizendo: o que conseguimos com este método? Primeiro, que os professores se sentissem à vontade, porque estão explicando o que sabem. Segundo, estão dignificando cada área, cada matéria, porque há matemáticos que sabem muita matemática, como um catedrático da Universidade de Madri, que me disse: "eu, como matemático, não posso fazer nada pela formação pessoal dos alunos, somente ensinar-lhes matemática, que não tem nada que ver com isso. Tudo que posso fazer é dar-lhes bom exemplo, chegar pontualmente à aula, ser amável". Eu respondi: "Veja, você sabe muita matemática, mas está enganado. A matemática em si pode contribuir muito para a formação porque nos abre para o maravilhoso mundo das relações". Vocês sabem o que significa, por exemplo, que um matemático elabore um instrumento, aparentemente afastado do mundo, e elabore uma matemática e com essa linguagem vocês acabam por poder aprofundar-se até os estratos últimos da realidade. Vejam que relação mais enigmática há entre a mente do homem e a realidade. É algo fantástico, que deve nos ajudar a compreender que o mundo está bem feito, que o mundo está bem ordenado. Bem, o mesmo com a física. Heisenberg dizia, uma vez em Madri, em uma mesa redonda: Kepler, que tinha fé religiosa, apesar de sua vida muito dura, continuou pesquisando, pesquisando o quê? As leis da natureza, porque sua fé religiosa lhe dizia: o mundo foi criado por Álguem que o criou com ordem – portanto, bem feito – e eu tenho, ainda que me custe muito, que continuar procurando essas leis. E se não estivesse certo de que as leis existem, não iria passar a vida procurando-as, sendo tão difícil. Bem, então, a matemática, a física... é fantástico o que nos podem dizer. Max Planck, o fundador da física quântica, que não era propriamente um cristão no sentido rigoroso, dizia: "se eu, como físico e todos os físicos, não tivéssemos fé na existência de um Criador que criou o mundo com ordem, teríamos paciência, força e energia para procurar por toda a vida, equações, procurar a unidade do universo, procurar as inter-relações...?" Não o fariam! Então, perceber isso te dá uma luz fantástica sobre o universo.

O mesmo ocorre com a música. Meus amigos músicos dizem: que pena, passamos quarenta anos ensinando música e não tínhamos idéia de que a música tivesse tanto poder formativo e me dizem que só em fazer música, ouvir música, já está havendo formação – porque há vivência de um mundo de relações. Então, se se percebe que na música as relações são tão grandiosas, o que não será na vida social? Se eu conseguisse, na minha família, no meu ambiente, no meu colégio, criar a mesma harmonia que Mozart, Brahms, Bach criavam na música... isto seria um paraíso! Bem, pois isso é educação.

Muito bem, queridos amigos, vocês poderão ver tudo isso, se quiserem, quando tiverem o livro. Eu, lamentavelmente, sinto ter que ir para o aeroporto. Eu, por mim, ficaria conversando mais com vocês, mas tenho que ir porque o trânsito é tremendo. Somente quero desejar-lhes tudo de bom, não deixem que se estrague a primavera com os exames, não se deixem matar pelos exames e que Deus vos abençoe. Muito obrigado a todos.