Conferência de Alfonso López
 Quintás na FEUSP

 

A formação adequada à configuração de
 um novo humanismo – Parte I

Alfonso López Quintás
lquintas@filos.ucm.es

 

(Conferência, em duas partes, para a disciplina Filosofía da Educação II da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, em 26-11-99, aos alunos do segundo ano de Pedagogia e a numerosos professores e doutorandos da FEUSP e de outras universidades de São Paulo. O Dr. López Quintás é catedrático de filosofía da Universidad Complutense de Madrid. Tradução de Ana Lúcia Carvalho Fujikura e edição de L. Jean Lauand.)

 

Boa tarde a todos. Antes de mais nada, quero agradecer muito cordialmente o convite para estar aqui com vocês; convite feito pelo Prof. Lauand e também pelo Prof. Severino. E agradecer ao Departamento de Filosofia da Educação.

 

O grande cientista e humanista Albert Einstein disse, pouco antes de morrer, esta dramática frase: "a força desencadeada pelo átomo transformou tudo, menos nossa forma de pensar. Por isso, caminhamos rumo a uma catástrofe sem igual". E qual é a forma de pensar, a mentalidade, que deveríamos ter mudado para evitar essa catástrofe?

 

A cada dia que passa, me convenço mais de que o momento atual da humanidade – não em função da mudança de milênio, que não possui maior importância – é o mais propício para que pensemos séria e detidamente sobre essas questões: Qual é a nossa maneira de pensar? Qual é o ideal que temos na vida? Para onde direcionamos a vida? Qual é a meta?

 

Muitos livros de ética – até mesmo livros didáticos – tratam de muitos temas: liberdade, solidariedade, tolerância, amor etc. etc., temas que são importantes... Mas, não se diz uma palavra sobre o ideal da vida. Apesar disso, alguns pedagogos dizem: mais importante na vida é a meta que se quer alcançar. E isso parece lógico, como veremos.

 

Durante quatro séculos, desde o início da grande ciência moderna (digamos, século XVI) até começos do século XX, qual foi o ideal – o ideal de vida, a meta – que impulsionou a todos aqueles que criaram a grande ciência, a grande técnica? Este ideal era expresso pelo chamado "mito do eterno progresso": pensava-se que algum conhecimento científico produziria um pouco de conhecimento técnico; um pouco de conhecimento técnico produziria algum domínio da realidade, a criação de artefatos, de bem estar e – era assim que se pensava – um pouco de conhecimento científico garantiria, portanto, um pouco de felicidade. Elevando-se essa progressão à enésima potência, pensava-se que a um elevado nível de conhecimento científico corresponderia uma medida correlata de técnica, domínio da realidade, de bem estar e de felicidade. Contudo, no começo do século XX, em 1914, quando o conhecimento científico era assombroso, não encontramos a felicidade humana mas o desastre coletivo: 1914-1918, milhões de jovens inocentes perderam a vida nas terríveis trincheiras, fruto de um erro de seus antepassados.

 

Qual é o erro? Que a ciência produz técnica e bem estar?! Não! Onde reside então o erro? Em pensar que a ciência e a técnica produzem automaticamente felicidade. A questão é: ciência e técnica produzem bem estar, sim, mas... para quem? Para mim, para mim, para mim, para o meu povo. Trata-se, então, de um egoísmo, individual ou coletivo – o que dá no mesmo: há um egoísmo coletivo, igualmente perigoso. Esquecem-se de que a técnica e a ciência, destinadas egoisticamente ao nosso próprio bem estar, não conduzem à felicidade, como se pôde verificar, tragicamente, em 1914.

 

Reparem, a partir de 1918, nessa prodigiosa década de 20 a 30 (como sabem, a filosofia avança por décadas), onde surgem inúmeros caminhos – filosóficos, fenomenológicos, dialógicos etc. –, há muitos autores, grandes pensadores – um Guardini, um Buber, um Heidegger, um Jaspers... – que, ao escrever, transmitem praticamente uma mesma idéia fundamental: é preciso mudar!

 

Mudar o ideal. Vejam, uma sociedade, uma pessoa, pode viver sem ideal? Sim, mas estará como um barco à deriva, em meio a uma tempestade. Um indivíduo, uma sociedade sem ideal, realmente estão perdidos.

 

A partir de 1918, o ideal da Idade Moderna desmoronou totalmente. Este grande pedagogo, este grande pensador, que foi meu professor em Munique, Romano Guardini, disse-me pessoalmente em uma ocasião: "você não imagina como encontrei a juventude alemã, nos anos 30, quando cheguei em Munique para dirigir o Movimento de Juventude Alemã (o famoso Jugendbewegung). Essa juventude – tão cheia de vida e de energia, como o são os jovens alemães – não possuía outro ideal na vida que não encerrar-se nos bares, encher o ar com fumaça de cigarro, embebedar-se com cerveja e jogar cartas". Não possuía mais ideal, depois de quatro séculos promovendo a ciência e a técnica para ser mais feliz... e, ao final, desembocar na hecatombe. O ideal rompeu-se. Daí aqueles autores dizerem sempre: o ideal deve ser mudado!

 

O ideal do domínio deve ser substituído pelo ideal da solidariedade: o que importa não é que eu te domine ou que esta nação domine outra, mas, sim, que lhe seja solidária. O ideal da arrogância deve ser substituído pelo ideal da simplicidade. O ideal do ter deve ser substituído pelo ideal do ser. O ideal que consiste em dominar os outros, em ser mais que os outros, deve transformar-se em um ideal de serviço.

 

Era justamente isso que nos propunham, por exemplo, Heidegger, quando falava de passar da vida inautêntica à vida autêntica, e também Jaspers ou Marcel, que postulava passar do problema ao mistério: no fundo, todos estão a dizer que se deve mudar o ideal. Pois, como veremos em seguida, tudo depende do ideal: conforme seja o ideal, assim será o seu sistema de valores.

 

Com um novo ideal, tudo muda. Mas..., o ideal mudou? Para algumas pessoas, sim; para alguns grupos, sim; mas, para a sociedade em conjunto, não; para os dirigentes, não. E veio a Segunda Guerra Mundial. Todo o período de entreguerras foi dedicado à preparação da vingança: e chegou 1939 e a Europa cobriu-se de escombros.

 

Eu me lembro que, quando jovem, fui à Alemanha – eu tinha 23 anos e a Segunda Guerra Mundial terminara há 5 anos –, cheguei de trem em Colônia e ali me deparei, diante da estação, com a grande mole da famosa catedral – uma imagem guardada na retina desde que, criança, a vira nos livros: a grande catedral gótica – vestida como uma grande dama de luto: fora castigada pelas bombas e, à sua volta, somente ruínas (incluindo as famosas igrejas românicas que circundam a catedral: todas no chão). Eu costumava ir da minha residência à universidade passando no meio daquilo tudo... – não havia ruas, não havia casas – e as crianças questionavam se, algum dia, houve casas ali: cinco colinas surgiram com os escombros; preencheram-nas com terra e agora eram parques... e os jovens passeavam por eles sem saber que, logo abaixo, estavam as casas e, muitas vezes, os cadáveres de seus parentes.

 

Eu me perguntava então: como foi possível que a grande Europa, que criara tanta ciência, arte e cultura, pôde destruir-se a si mesma com tal frenesi, com tal fúria?

 

E encontrei a resposta em um grande antropólogo vienense, um professor de escola primária, Ferdinand Ebner, que, em 1921, publicou uma obra genial (que a editora Herder recusou-se a publicar por ter a "genial" intuição de que sua obra não era filosofia, mas, quando muito, teosofia) A palavra e as realidades espirituais, fonte inspiradora da melhor antropologia filosófica do século XX: grandes autores como Theodor Haecker, Romano Guardini, Karl Rahner e tantos outros valeram-se de Ebner (nem todos o citam, certamente, pois citar exige, às vezes, humildade...). Ebner, em 1921, já dissera: "Cuidado! A Europa criou uma grande cultura, mas, muitas vezes, essa cultura é simplesmente sonhar com o espírito e não viver vida espiritual". Esta idéia é muito importante: a Europa criou muita música, muita literatura, muita arquitetura – fantástico... Mas essa arte será sempre vida espiritual ou é, simplesmente, sonhar com o espírito? Há uma diferença. Ebner acrescenta: se compreendêssemos bem essa idéia, haveria uma revolução em toda a Europa, que daria lugar a uma cultura humana, portanto a um homem novo, a uma época nova, uma época pós-moderna. Desde 1918, estamos dizendo que a Idade Moderna acabou...: um rico período – não nos esqueçamos – que produziu, para a Europa e para todo o mundo, benefícios e avanços fantásticos na ciência, na técnica, na Medicina... Devemos reconhecer e assumir esse fato. Agora, Ebner nos diz: nem tudo que se considerava cultura era cultura do espírito; mas, sim, sonhar com o espírito. E ainda mais: não serei eu quem fará essa revolução (ele era um homem doente, sem forças, era um professor de uma escola do interior); virá alguém que a fará (possivelmente vocês...).

 

Ebner, então, deu-me uma pista para entender por que a Europa, tão rica em cultura, destruiu-se a si mesma. Muitas vezes, a cultura é entendida de uma maneira desligada da criação de vínculos pessoais: uma pessoa pode ser um grande poeta, pode ser um grande músico e ser cruel com os outros... Esta pessoa é culta? Não me é fácil aceitar! Certa ocasião, participei de um congresso sobre arte com uma pessoa que era um grande poeta, um crítico de arte muito bom, um homem educado; eu havia dado uma conferência e ele, outra. E, na manhã seguinte, ele sugeriu: vamos ver os jornais! E vimos o artigo de um jovem jornalista, que falava sobre a minha conferência, mas não sobre a dele (possivelmente porque só chegou a tempo de assistir a minha e não a dele – não sei... –; não foi por má vontade: era apenas um jovem que começava a carreira...).

 

E aquele homem, um grande poeta, irritou-se tanto que passou a agredir aquele pobre jornalista, insultando-o, dizendo-lhe que não tinha tido o desprazer de conhecê-lo. Eu fiquei estupefacto, com as mãos na cabeça (aliás, passo a vida com as mãos na cabeça...), pensando: mas não dizíamos que a arte forma as pessoas? Na Espanha, agora, gastam-se milhões e milhões de dólares ao ano com arte, esporte etc. Dizem que o esporte forma, que a arte forma... E eu me pergunto: forma incondicionalmente ou só em certos casos? Eu, diante da reação daquele colega, dediquei-me, então, a estudar como um homem tão culto, refinado e bom poeta podia ser tão cruel com os outros. Eu tentava acalmá-lo, segurava o seu braço pois queria bater no jornalista. Quanto mais eu tentava acalmá-lo, mais ele se enfurecia e quase passou a me bater...!

 

A autêntica cultura, em que consiste? Escrever crítica de arte? Fazer poesia? Sim, mas, acima de tudo, consiste em cultivar as relações pessoais: é isto que Ebner nos diz. Quando começa a autêntica vida espiritual? Quando há uma palavra dita com amor e não com ódio: uma palavra dita com ódio destrói a cultura. E não se dá a devida importância a isto. Um professor, por exemplo (façamos um pouco de autocrítica), que dá aulas brilhantes, que possui muitos conhecimentos, mas não cria um ambiente de diálogo na escola, um ambiente de encontro, estará realmente fomentando a cultura ou somente fomenta a informação?

 

E veio então a Segunda Guerra Mundial. Foi terrível como a Europa ficou, a catástrofe física... Vocês sabem quantos jovens russos morreram na frente de batalha? Dezessete milhões! E sete ou oito milhões de alemães, e não se sabe quantos ingleses, americanos, australianos... Não se sabe! Um oficial do exército norte-americano, que desembarcou na Normandia, disse-me: "Nunca saberemos e nunca será revelado quantos morreram ali, pois nós, que avançávamos pela praia, só conseguíamos avançar graças às pilhas de cadáveres dos companheiros, já que a praia era aberta e os alemães atiravam, não desperdiçando uma só bala".

 

Um massacre terrível... Mas a catástrofe moral, a derrocada moral foi pior. Depois de 1945, dizíamos: não há solução, não haverá um meio de vencer o ódio. Esta era a questão.

 

Houve empenho, depois de 1945, para destruir o ódio: tivemos a sorte de contar com três dirigentes: Schumann, Adenauer e De Gasperi que – vamos reconhecer porque realmente foi assim – disseram: a Europa foi cristã, o cristianismo é amor e, nós, eoropeus, temos que esquecer o ódio e viver o cristianismo. E, nesse momento, propuseram unir novamente a Europa. Pensávamos que seria impossível e não foi: já nos unimos no aspecto econômico, agora no aspecto político, mas falta o aspecto espiritual, unirmo-nos pessoalmente... Eu ousaria dizer: amarmo-nos.

 

Até pouco tempo, dizia-se: como um francês pode deixar de odiar os alemães ou vice-versa? Ou um inglês deixar de odiar um francês? E todos eles..., os italianos? Pois agora vemos que é possível com um novo humanismo. E tantos autores nos disseram: é necessário um novo homem, o homem que prefira o amor ao ódio, o homem que se pergunte todas as manhãs: "A que estou chamado? A destruir ou a construir? A amar ou a odiar?"

 

Eu estou cada vez mais convencido (isto parece simples, mas é muito sério) que, a cada manhã, devemos nos perguntar: "A que me sinto chamado?". Está aí a vocação; vocação vem de vocare, chamar. Bom, para não ficar só no negativo...: isto parecia impossível na Europa, mas agora já estamos sentindo que somos irmãos! Nós, espanhóis, que sempre estivemos em luta contra os ingleses, estamos nos unindo e percebendo que os ingleses são estupendos (e, agora, milhões de ingleses vêm à Espanha) e, eles, por sua vez, vêem que não somos assim tão maus...

 

Mas reparem bem, já está crescendo na Europa a idéia de que, quando estivermos unidos – e seremos muito fortes, sem dúvida alguma –, a Europa não poderá fechar-se em si, terá que abrir-se com amor aos outros continentes. Fala-se muito seriamente, agora, da união da Europa com a África – que é nossa vizinha – e até mesmo com a Ibero-América. Não podemos nos fechar. Para que queremos ter muita força?! Para poder competir com os norte-americanos e com os grandes do Oriente – o que é necessário para que haja um equilíbrio... Mas o ideal é de domínio: o ideal é ser mais que o Japão, mais que os Estados Unidos. E muitas pessoas pensam assim, enquanto outras, não: o ideal ideal requer um equilíbrio de forças para a solidariedade.

 

Por exemplo, os africanos estão tentando vir à Europa; claro, na Europa, há um nível de vida superior ao deles. E os coitados vêm em barcos..., como podem... e muitos naufragam. E há um movimento fantástico na Espanha que diz: isto não pode continuar assim! Estas pessoas que, com boa vontade, vêm em busca de um trabalho, não podem morrer no mar. O governo espanhol disse, alguns dias atrás, e foi aceito pelo Parlamento, que fará contratos com países do norte da África e também da Ibero-América – aqueles que quiserem – para aceitar dois milhões de imigrantes na Espanha, legalmente; porque, hoje, há muitos ilegais, com muitas dificuldades.

 

Abrir-se e criar unidade: isto é um bom futuro! Todos pensam assim e temos que trabalhar para consegui-lo. Em 1962, Romano Guardini – este grande pedagogo e pensador ítalo-alemão – foi a Bruxelas receber o prêmio de melhor humanista europeu e proferir uma preciosa conferência: Europa, realidade e tarefa. Ao terminar a conferência, disse: "A Europa criou, durante séculos, uma magnífica cultura do poder; agora, tem a tarefa de criar uma cultura de serviço" – exatamente uma guinada de 180 graus: do poder ao serviço – e acrescentou: "Que nenhum europeu tenha medo da palavra serviço, pois este tipo de serviço não avilta, não rebaixa; eleva, dignifica a um e a outro: ao que presta o serviço e ao que aceita esse serviço, colocando-nos em atitude de solidariedade".

 

Este é o caminho. Em filosofia, em antropologia, se está agora – e já há muitos anos – ressaltando muito a seguinte idéia: os homens – vocês e eu – não são como uma circunferência, com o centro no "eu", do qual eqüidistam todos os pontos, tudo servindo ao eu... Essa é uma idéia egoísta do ser humano. Hoje, tende-se a pensar que o ser humano deve ser representado como uma elipse, possuidora de dois centros: o eu e o tu, que apresentam um dinamismo reversível nos dois sentidos: eu preciso de você e você precisa de mim. Essa idéia – e o pensamento biológico a tem ressaltado muito – é importantíssima: Ebner, Buber, Guardini, Levinas, Nedoncelle e muitos outros autores a tem enfatizado muito...

 

Muito bem, o que nós devemos fazer agora para que esta orientação que, poderíamos dizer, está começando, de uma maneira bastante forte, em muitos países, esta orientação rumo à unidade e não à luta? O que deveremos fazer, sobretudo vocês, os jovens – que têm toda a vida pela frente, toda energia e talento –, o que teremos que fazer?

 

No meu modo de ver, devemos ter tudo isto bem fundamentado. E fazer ver – aos líderes, aos políticos, aos diretores de jornais, aos dirigentes culturais e econômicos – o ser humano, que é – como o afirma a melhor ciência atual – um ser de encontro.

 

E sobre essa teoria do homem, falaremos na segunda parte.

Parte II