Santo Agostinho e a Lua Nova
De Magistro, XII, 39

Pedro Sinde
(Porto, Portugal)

 

Porque o coração deste povo tornou-se duro, e duros também os seus ouvidos; fecharam os olhos, não fossem ver com os olhos, ouvir com os ouvidos, compreender com o coração, e converterem-se para Eu os curar(1).

Santo Agostinho na sua obra O Mestre(2) dá, a determinada altura, um exemplo que soa, à partida, de forma incoerente aos ouvidos mais atentos. Iremos tentar demonstrar que não há, porém, qualquer incoerência; muito pelo contrário, é até uma indicação bem preciosa. Tudo se passa no capítulo XII da referida obra, quando se fala das duas formas de conhecimento: a 'sensorial' e a 'inteligível'.

Vejamos o que nos diz Santo Agostinho relativamente a isto no dito capítulo:

«…todas as coisas que percebemos, ou as percebemos pelos sentidos do corpo ou pela mente. Denominamos as primeiras sensoriais; as segundas, inteligíveis; ou, para falar à maneira dos nossos autores, denominamos carnais as primeiras; espirituais, as segundas. Interrogados sobre as primeiras, damos resposta, se estão diante de nós essas coisas que sensoriamos; por exemplo, quando nos perguntam, estando nós a observar a lua nova [lunam novam], qual é ou onde se encontra. Neste caso, se aquele que pergunta o não vê, acredita nas palavras, e muitas vezes não acredita; aprender, de modo nenhum aprende, a não ser que também ele veja o que se lhe diz»(3).

Ao ler esta passagem de imediato uma questão nos vem ao espírito: qual a razão de Santo Agostinho se referir à Lua Nova num exemplo que deveria ser preenchido por algo bem visível, algo que pudéssemos 'perceber pelos sentidos'? Não seria mais coerente exemplificar com qualquer coisa bem visível à luz do Sol ou, no mínimo, com a Lua mas numa outra fase? Como qualquer um sabe a Lua Nova não é visível. Toda a luz, nesta fase, se apaga do globo nocturno, é o auge da escuridão. Mas, sabemos também que é sempre da mais profunda treva que a luz brota para encher a madrugada. Vejamos, antes de prosseguirmos, uma analogia que Santo Agostinho faz no final do capítulo XI e que nos pode trazer alguma luz à compreensão do porquê do exemplo da Lua Nova:

«Ora, acerca de todas as coisas que inteleccionamos, não consultamos alguém que fala e produz um som fora de nós, mas a Verdade que preside interiormente à nossa mente, sendo talvez incitados pelas palavras a consultá-la. E aquele que é consultado, ensina: é Cristo, de quem se disse que habita no “homem interior” [Efésios, 3, 16-17], e é “o poder incomutável de Deus e a sempiterna Sabedoria”. A esta, de facto, toda a alma racional a consulta; ela porém manifesta-se-lhe na medida em que cada um é capaz de a receber, em razão da própria vontade, boa ou má. Se a alma alguma vez se engana, não é por defeito da Verdade consultada, do mesmo modo que não é por defeito desta luz exterior que os olhos corporais por vezes se enganam. É manifesto que para nos certificarmos acerca das coisas visíveis recorremos a esta luz para ela no-las mostrar, na medida em que somos capazes de ver»(4).

Temos então a analogia seguinte: Sol exterior – Sol interior; tal como o Sol exterior nos mostra, através dos sentidos que «a mente usa como de intérpretes», a realidade sensorial, assim também o Sol interior nos mostra a Verdade. Diz-nos Santo Agostinho que «a esta, de facto, toda a alma racional a consulta». Mas, então, como é que não somos todos iluminados pelo Sol interior, todos conhecedores da «sempiterna Sabedoria»? A resposta de Santo Agostinho prolonga a analogia dizendo que «se a alma alguma vez se engana, não é por defeito da verdade consultada, do mesmo modo que não é por defeito desta luz exterior que os olhos corporais por vezes se enganam». A Luz da Verdade é sempre perfeita, dependendo da vontade de cada um, «boa ou má», recebê-la na íntegra. Parece, no entanto, que seria muita ingenuidade de Santo Agostinho acreditar que a Verdade se nos revela apenas pela «vontade boa». Tentaremos, seguidamente, mostrar que é preciso bem mais do que «vontade boa» para receber a Luz da Verdade.

Se quiséssemos amplificar a analogia Sol exterior – Sol interior, diríamos que o homem pode receber a luz interior, tal como a Lua a do Sol. A analogia parece tanto mais perfeita quanto na teoria da iluminação de Santo Agostinho nunca chega a haver transmutação do homem na Verdade, sendo apenas por ela iluminado, da mesma forma que a Lua nunca chega a ser Sol, sendo apenas por ele ciclicamente iluminada. Parece que a teoria da iluminação de Santo Agostinho segue no mesmo trilho que a Lua indo da sua fase Nova para a Cheia. Podemos agora perceber porque é que Santo Agostinho terá dado o exemplo da Lua Nova apenas depois de falar nesta analogia com o Sol.

É possível que Santo Agostinho, à maneira de um verdadeiro Mestre, nos desse uma indicação subtil sobre um determinado estado que o indivíduo devesse realizar em si para poder receber a Luz da Verdade. Nesse caso o que significará, então, o homem interior fazer em si a mais densa escuridão, fazer em si a Lua Nova? Procuremos no capítulo I:

«Pelo que me parece, ignoras que por nenhum outro motivo nos foi ordenado que rezássemos em quartos fechados [Mateus, 6, 6] – nome que significa o santuário da mente – senão o de que Deus, para nos conceder o que desejamos, não pretende ser rememorado ou ensinado pela nossa locução. Efectivamente, quem fala mostra exteriormente o sinal da sua vontade, por meio dum som articulado. Deus porém deve-se procurar e suplicar no próprio íntimo da alma racional, o qual se denomina – “o homem interior”. Quis Ele que fossem esses os seus templos. Não leste no Apóstolo: “Não sabeis que sois templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós?” [1 Coríntios, 3, 16] e que “Cristo habita no homem interior” [Efésios, 3, 16]. Nem advertiste o que disse o profeta: “Falai nos vossos corações, e compungi-vos nos vossos aposentos; oferecei sacrifícios de justiça, e esperai no Senhor”? [Salmo, 4, 5-6]. Onde pensas que é oferecido o sacrifício de justiça, senão no templo da mente e nos aposentos do coração? Ora, onde se deve sacrificar, aí se deve também orar. Por isso, quando oramos, não é precisa a locução, isto é, as palavras sonantes; a não ser ocasionalmente, como fazem os sacerdotes a fim de exprimirem o seu pensamento, não para que os oiça Deus mas os homens, e assim estes, graças à rememoração, se elevem para Deus em certa conformidade de sentimentos»(5).

Repare-se que Santo Agostinho assemelha aqui alguns significados como, por exemplo, «quartos fechados» e «santuário da mente». Por acaso um «quarto fechado» não é escuro, uma espécie de Lua nova, ainda não iluminada pelo Sol? Tudo se passa no interior ou, nas palavras do próprio Santo Agostinho, no «homem interior»: nos quartos fechados, no íntimo da alma racional, no íntimo da consciência. A feminina, lunar via que Santo Agostinho nos aponta passa, não pela razão em si mesma, mas antes por uma procura e súplica «no próprio íntimo da alma racional». Não na alma racional, mas no «íntimo» dela. Nós diríamos 'no centro'! São as próprias expressões usadas por Santo Agostinho que indicam esse lugar bem oculto no qual tudo se passa. Mas atrevamo-nos a levar um pouco mais longe estas ideias.

Há três ou quatro pontos que imediatamente ressaltam do excerto citado:

1. Deus é o desvelador da Verdade: na busca da Verdade o que se deve realmente buscar é Deus; Este identifica-se com a Verdade como o Sol com a Luz;

2. “Comunica-se” com Deus através da oração: a forma de encontrar Deus em nós é através da oração do «homem interior»; a oração é puro silêncio, ausência de Verbo, como a Lua Nova é ausência de Luz;

3. A oração é a procura do puro silêncio nos «quartos fechados», no «santuário da mente» no «íntimo da alma racional»: chega-se ao silêncio através da oferta de «sacrifícios de justiça»;

4. A oração faz-se em «quartos fechados», na mente, local onde se deve oferecer sacrifícios: o sacrifício é a renúncia à sua própria luz, para que possa brilhar a Luz da Verdade(6).

Vamos tentar ser mais claros: como vemos, é Deus que nos desvela a Verdade e, se assim é, é na oração – sendo esta a suprema forma de comunicação com Ele – que se deve procurar a Verdade. A oração é puro silêncio(7) e o silêncio é o resultado do sacrifício oferecido. Santo Agostinho parece recomendar, veladamente, que se faça o sacrifício do falso intelecto, aquele cheio de ocas palavras, para que se possa conquistar o Verdadeiro Intelecto – não o nosso, particular, ligado ao pequeno eu discursivo, mas o Si, o Cristo iluminador. Corresponderia, neste caso, ao sacrificium intellectus(8), uma espécie de opus purgationis, para chegar a um conhecimento-visão. Aliás, é o próprio Santo Agostinho a referir-se a este tipo de conhecimento ao dizer, por exemplo, que «quando, porém, se trata de coisas que vemos por meio da mente, isto é, por meio do intelecto e da razão, falamos realmente de coisas que contemplamos presentes nessa luz interior da Verdade, de que é iluminado e goza aquele que se denomina “homem interior”»(9).

Se quisermos sair do campo meramente teórico e perguntar como é que isto realmente se realiza em nós, como poderemos nós efectivamente atingir esse estado em que, qual Lua Nova, estamos aptos a receber os raios do iluminador Sol da Verdade, verificamos que pouco nos é dito nesta obra. Mas se, por um lado, nenhum Mestre diz tudo ao discípulo, por outro, dá as pistas suficientes para que este possa por si e em si descobrir desvelando. É neste sentido que achamos que se deve procurar pistas nas entrelinhas e deixar de lado a infantil crença de que os “antigos” acreditavam, como nós hoje, na democratização do saber: porque não imaginar que Santo Agostinho, tal como o próprio Cristo, a quem reconhecia como o seu Mestre, falava por parábolas para “não dar pérolas a porcos”?

Em relação ao sacrifício, Santo Agostinho diz claramente que é na mente que deve ser oferecido. «Onde se deve sacrificar, aí se deve também orar». E onde se deve orar sem palavras? – «nos aposentos do coração» («Falai nos vossos corações»). Há ainda outra referência importante, que nos pode ajudar a compreender o sacrifício, que diz respeito à rememoração. O acesso à Verdade interior faz-se por ela, como por uma escada. O silêncio, a tal escuridão da Lua Nova, requer uma faculdade de pura atenção capaz de, a todo o momento, se desidentificar do conteúdo da alma(10), cujo ataque, o indivíduo que o tente fazer em si constantemente vai sofrer. Quem quer que tenha tentado, por uns minutos apenas, fazer silêncio no seu interior verá que, em poucos segundos, já está encadeado, preso na corrente do pensamento, esquecendo-se rapidamente de prosseguir no silêncio a que se tinha proposto. Exige-se, portanto, uma atenção que não se deixe identificar, caindo na corrente do pensamento, das emoções e da imaginação, ou melhor, da fantasia, e que seja capaz de ver: «o nosso ouvinte, se também ele as [i.e., as «coisas que vemos por meio da mente»] vê por meio dessa visão íntima e pura, conhece pela sua contemplação o que eu digo»(11). Só uma faculdade deste tipo pode permitir descobrir o Sol-Cristo, atendo-se, firmemente ancorada, ao centro e aí constantemente oferecendo sacrifícios. Quais sacrifícios? Como já vimos, os do seu falso intelecto, renunciando ao demónio da dialéctica.

«A memória, a que estão inerentes as palavras, revolvendo-as faz vir ao espírito as próprias coisas, de que as palavras são sinais». Então, a memória, através das palavras que lhe estão inerentes, chega intuitivamente a esse mundo inteligível no qual está, em acto, a Verdade. Cristo, no nosso interior, constantemente nos envia os raios iluminadores da Verdade e nós a todo o momento lhe interpomos as espessas nuvens dos nossos pequenos pensamentos.

A radical desvalorização das palavras por parte de Santo Agostinho neste diálogo deve-se, com certeza, à necessidade de enfatizar essa outra forma de comunicação, mais pura e directa, que permite a ligação imediata à fonte da Verdade: o Silêncio(12). Este é o veículo no qual é transportado o Verbo interior, a Luz da Verdade. O silêncio é a Lua Nova. É-nos dito ainda que «quando oramos, não é precisa a locução, isto é, as palavras sonantes; a não ser ocasionalmente, como fazem os sacerdotes a fim de exprimirem o seu pensamento, não para que os oiça Deus mas os homens, e assim estes, graças à rememoração, se elevem para Deus em certa conformidade de sentimentos». De seguida, para que não haja dúvidas, confirma-se, pelas palavras de Adeodato, que mesmo quando Cristo ensinou a orar – o Pai Nosso – foi apenas para que, pelas palavras, os homens «recordassem a quem e o que deveriam pedir, ao rezarem no íntimo da consciência». Santo Agostinho parece ir reconhecendo um papel fundamental às palavras, enquanto capazes de cristalizar uma determinada energia, servindo-lhe de suporte, e permitindo guardar sem mácula essas «realidades expressas»: «Não foram palavras que Ele lhes ensinou mas, por meio de palavras, realidades expressas». Como poderia alguém dizer simultaneamente que as palavras são mero ruído e que, no entanto, permitem servir de suporte às tais «realidades expressas»? Parecem coexistir duas doutrinas: uma aparente e outra para “quem tiver ouvidos”. Estamos certos que Santo Agostinho na sua mente sagaz nunca deixaria passar uma contradição tão flagrante.

Antes de concluirmos a explicação devemos acrescentar que houve dois factores que nos dificultaram esta tarefa: o primeiro foi, neste livro, a divisão em capítulos, a qual fragmenta o diálogo que é uno, chegando mesmo a dividir a meio o discurso de cada um dos intervenientes, como é o caso presente em que o discurso de Santo Agostinho se vê repartido por dois capítulos, o XI e o XII. O que acontece é toda a dinâmica inerente ao diálogo ser quebrada. O nosso pensamento discursivo automaticamente se socorre da divisão em capítulos para procurar unidades de sentido para cada uma das partes. Este factor pode ser impeditivo de uma compreensão mais global da obra. O outro factor foi já uma consequência deste: houve quem, seguindo precisamente a automática associação de atribuir significação a cada capítulo, chegasse mesmo a dar uma espécie de título a cada um. Ora, isto parece-nos errado, pois quando se lê o diálogo, vai-se antecipadamente procurar cada uma das denominações nos respectivos capítulos, esquecendo assim outros sentidos que possam aparecer. Parece-nos, portanto, que isto que poderia ser pedagógico, não o é. Repare-se que um texto cria uma determinada energia que lhe é própria e que foi criada pelo autor; se o fragmentarmos vamos, pura e simplesmente, “matar” o texto. Sabemos bem que o todo não é igual à soma das partes.

No caso específico deste diálogo devemos dizer que tem uma importância vital o ritmo segundo o qual ele se desenrola, em espirais cada vez mais profundas. Parece-nos que a energia criada pelo texto surge na tensão sempre interrogativa que obriga o intelecto a esvaziar-se a todo o momento, deslocando-se rotativamente de um pólo a outro. Esta forma é em si um indício da atitude a ter para atingir o silêncio, correspondente ao estado de Lua Nova no indivíduo, conforme vimos: não se trata de passividade, mas de interrogação activa, que cria, no esforço da tensão da busca, um íman. Todo o diálogo se dá num jogo de pergunta a resposta, em que Adeodato se vê constantemente forçado a contradizer-se, para de seguida negar o que tinha já dado como ponto assente. O ambiente que se forma nesta incessante busca propicia o advento da Verdade, pois o estado interrogativo cria no interior do indivíduo um pólo de atracção / evocação. Por isso se diz, tradicionalmente, que colocar a questão é saber já a resposta ou, nas palavras de Al-Makkî, que «metade do conhecimento é a pergunta, a outra metade é a resposta». O “menos” não anda sem o “mais” (e vice-versa). A tensão “menos”, provocada pela questão colocada no íntimo, atrai a si o “mais” da resposta no preciso momento em que nasce a interrogação. A forma como o diálogo decorre é já em si representativa do estado de Lua Nova que, conforme vimos, o indivíduo terá de fazer em si mesmo – tal como o próprio Adeodato se vê constantemente forçado a fazer para poder receber a iluminante Luz da Verdade-Sol. Ouçamos as palavras do próprio Santo Agostinho:

«Com efeito, o facto de o interrogado negar alguma coisa, e urgido por outras perguntas o vir a admitir, como frequentemente acontece, isso deve-se à fraqueza da pessoa que contempla, a qual não é capaz de divisar nessa luz a totalidade de um assunto. Leva-se a fazê-lo por partes, ao interrogá-la sobre aquelas mesmas partes que constituem esse conjunto, ao qual ela não conseguia contemplar na totalidade. Se é levada a isso pelas palavras de quem a interroga, essas não são de ensino, mas de inquirição, e feita segundo a medida que tem a pessoa interrogada, de aprender»(13).

A importância dada à dinâmica do diálogo deixou-a bem clara aqui o Mestre Santo Agostinho.

Com este pequeno artigo quisemos, tão-só, levantar a hipótese, que poderá vir a ser mais tarde explorada por outros mais competentes do que nós, da coexistência de duas linguagens neste diálogo. Escolhemos um exemplo particularmente flagrante, de forma a que fosse notória a exigência de uma explicação menos ortodoxa para justificar a sua aparente incoerência.

(1) Mt 13, 10-16.

(2) Servimo-nos da edição Santo Agostinho, O Mestre, introdução e comentários de Maria Leonor Xavier, trad. de António Soares Pinheiro (Colecção Filosofia. Textos, 8) Porto Editora, Porto 1995; as citações serão dadas também segundo a divisão do texto original.

(3) De Magistro, XII 39; ed. cit., p. 93, linhas 18-29, itálicos nossos.

(4) De Magistro, XI 38; ed. cit., pp. 92, 93, linhas 35-8.

(5) De Magistro, I 2; ed. cit., pp. 58-59, linhas 22-2.

(6) O que pode querer isto dizer? E o que é que significa essa outra alusão aos sacrifícios que se deve oferecer, mas desta feita no coração? Uma resposta precisa a estas questões afastar-nos-ia demais do assunto que aqui abordamos, não queríamos, no entanto, deixar de lembrar que Santo Agostinho antes da sua conversão contactou grupos que detinham conhecimentos esotéricos, os quais sabemos fazerem alusão à coincidência dos «centros» que filtram a energia que vive no homem, dois dos quais são precisamente o coração e a mente (o reino vegetal e animal). Para o conhecimento e a crítica dos textos herméticos, em particular o Asclépius, vejam-se as abundantes citações em De civitate Dei, VIII cap. xxiii-xxiv.

(7) “A oração silenciosa / Deus transcende tudo de tal modo, que nada se pode dizer. / Portanto é também em silêncio que melhor o adoras.”; “É através do silêncio que ouvimos / A Palavra ressoa em ti mais que na boca do outro; / Se podes calar-te diante dela, no mesmo instante a ouves.”, Angelus Silesius, A rosa é sem porquê (excertos da segunda edição de 1675 do Cherubinischer Wandersmann), tradução de José Augusto Mourão, Vega, 1991.

(8) “Dado um conceito, dado um esquema, logo as imagens acorrem impelidas por uma necessidade íntima, a que se pode chamar espírito de associação ou de contiguidade, a tentar subordiná-lo. É então que o espírito tem de manter-se bem firme no conceito, actuando como um poder que, em vez de se deixar dominar, pelo contrário a si submete a energia da imagem, dirigindo-a e modificando-a de harmonia com o fim que se propôs. Ao exercício deste poder que é, aliás, a própria actividade do pensamento, chama Bergson «esforço intelectual». Tal actividade é comparável à espada com que Ulisses afasta os espíritos atraídos pelo sangue do sacrifício.” António Telmo, Arte Poética, pág. 21, Guimarães Editores, 1993.

(9) Pág. 94, linhas 9-12.

(10) A este propósito lembramos esse grande vulto, já por alguém chamado “o hindu europeu”, Mestre Eckhart, concretamente no tratado Du Détachement, em Les Traités et le Poème, Spiritualités vivantes, Albin Michel, 1996.

(11) De Magistro, XII 39; ed. cit., p. 94, linhas 12-14.

(12) Se, por um lado, Santo Agostinho nos diz que as palavras são mero ruído até sabermos o seu significado, por outro lado, fala numa conexão das palavras à memória, «à qual estão ligadas interiormente».

(13) De Magistro, XII 39; ed. cit., p. 94, linhas 27-29.