Camões, o Medieval Renascentista

 

Gabriel Perissé
Doutorando - Feusp
perisse@uol.com.br

 

Os olhos de Portugal

Camões vê o mundo pelos olhos de Portugal.

E Portugal é o “rosto” da Europa, lugar privilegiado, do qual se avista a construção do futuro, unindo Antigüidade, Idade Média e Modernidade num único esforço de compreensão poético-histórica.

Extrapolando a epicidade portuguesa, o poeta pensa também no drama da fraqueza humana (e da humana coragem) e no mistério da história, incluindo os planos teológico e mitológico do homem medieval-renascentista no seu Poema.

Os Lusíadas tornam-se, assim, documento universal, vestigium hominis, uma pegada humana que reconheço, passados os séculos, como testemunho de nossas perplexidades diante do novo, do divino, do passado, desse “monstro incompreensível” (Pascal) que é o ser humano.

O poeta-historiador

Quando Camões canta o passado português, pretende converter os fatos em exemplos. Pretende debelar e prevenir ignorâncias históricas, possibilitando o reaparecimento daquela consciência de missão que levou à edificação de um Império.

Ora, se “o modo de presença do passado é o ser sabido”(1) e se a “forma da ignorância é o esquecimento(2), fica patente que, ao serem cantados/recordados os acontecimentos, não só se recupera a herança do passado, como se evidencia o quanto a realidade de agora deve a esse passado, o quanto esses feitos integram o ser do presente. Em suma: cantar o passado recobra a identidade real do hoje, virtualmente esquecida/perdida.

Interrompendo a narração para queixar-se da “gente surda e endurecida”, Camões pede ouvintes capazes de se devotarem àqueles ideais de ânimo, nobreza, de lealdade ao Rei e de fidelidade à Lei divina. Critica os homens de ação que não exercitam obras valorosas, oferecendo uma péssima perspectiva aos que conservam os feitos passageiros para a posteridade:

 

Que exemplos a futuros escritores,
Pera espertar engenhos curiosos,
Pera porem as cousas em memória
Que merecem ter eterna glória! (VII, 82)

 

A literatura não tem por função fazer história, mas os historiadores nela encontram a contribuição peculiar da palavra primorosa. No caso d’Os Lusíadas, uma palavra que valoriza a presença do passado no homem de agora, em que a memória é um lugar de sobrevivência, em que a poesia é a forma de “estender a curta vida” (III, 64) dos heróis.

A ação poética “canoniza” a ação heróica (bem como condena o execrável). A Fama, divindade grega, “Deusa Gigantea” (IX, 44), é a forjadora do ser-inesquecível. O poeta, servidor dessa deusa, dilata a vida, eterniza a vida de lutas de um povo e seus heróis. O memorável transforma-se em famoso. A Fama divindade, chamada por Virgílio monstrum horrendum, é este ser onisciente, com numerosas bocas, línguas, ouvidos e olhos, munido de asas, a quem não escapa o menor comentário:

Porém não tardou muito que, voando,
Um rumor não soasse com verdade:
Que foram presos os feitores, quando
Foram sentidos vir-se da cidade.
Esta fama as orelhas penetrando
Do sábio Capitão (IX, 19)

 

Filha do Tempo e da Terra, e aparentada com a Credulidade (cf. IX, 45), Fama personifica a verdade e a mentira, a glória e o erro. Tão poderosa quanto a própria experiência humana, aparece no Canto IX, 44, cumprindo o seu papel sob os olhos fascinados do poeta:

 

A Deusa Gigantea, temerária,
Jactante, mintirosa e verdadeira
Que com cem olhos vê, e, por onde voa,
O que vê, com mil bocas apregoa. (IX, 44)

 

Fé mitológica, fé literária e fé cristã

 

Ser vitorioso é transformar-se em mito, em história, em poema. O herói se eterniza, divinizando-se, poetizando-se. Os gregos “concebían a sus dioses como imágenes agrandadas de los hombres; la inmortalidad era su único signo distintivo. Los mitos daban gran énfasis a la conquista de la inmortalidad por algunos héroes”(3). Baco não quer que a “Lusitana gente” seja amparada por Júpiter. Teme que o domínio português o torne esquecido no Oriente. Ao queixar-se com Netuno, Baco aponta o perigo que a audácia humana representa:

 

Vistes que, com grandíssima ousadia,
Foram já cometer o Céu supremo;
Vistes aquela insana fantasia
De tentarem o mar com vela e remo;
Vistes, e ainda vemos cada dia,
Soberbas e insolências tais, que temo
Que do Mar e do Céu, em poucos anos
Venham Deuses a ser, e nós, humanos. (VI, 29)

 

O próprio Baco foi “de fraca carne humana” (IX, 91) antes de tornar-se deus, assim como os demais moradores do Olimpo. E isso graças aos feitos soberanos que realizaram no mundo. O máximo de virtude e força eleva os homens ao céu do imemorável.

Sabe-se que “os mitos têm, no Renascimento, um duplo significado: por um lado, substituem, indiscutivelmente, os conceitos gerais e tornam desnecessárias as figuras alegóricas, constituindo, por outro lado, em si mesmos, um elemento de poesia livre, independente, um pedaço neutro de beleza acrescentável a toda invenção poética em combinações múltiplas e sempre renovadas”(4).

Para Camões, poetizar a mitologia é dar “uma unidade de ação e um enredo dinâmico ao seu poema”(5), e usufruir do sentido autônomo de beleza que as imagens possuem. Ao mesmo tempo em que deixa margem à conversão dos mitos “em termos de realidade”(6), servindo-se da tonalidade clássica para elevar a verdade cristã.

Os loci classici e os loci christiani confluem. O que é também uma herança medieval. Para os cristãos a partir do século IV — porque lhes era evidente já a incompatibilidade do dogma católico com a crença greco-romana nos deuses — era aceitável que a Igreja se apropriasse dos símbolos religiosos e formas artísticas dos cultos pagãos, pois tais símbolos e formas não são em si especificamente pagãos, mas humanos no sentido mais universal da palavra.

Já “no século XII os termos mitológicos eram empregados para exprimir conceitos de fé cristã e isso não era considerado de modo algum irreverente ou ímpio. Deschamps, dizendo que ‘Júpiter veio do Paraíso’, Villon chamando à Virgem Santíssima ‘alta deusa’, os humanistas referindo-se a Deus em termos como princeps superum e a Maria como genetrix tonantis não são pagãos”(7). São cristãos. São humanos. Padre Antonio Vieira, num de seus sermões, referindo-se a Narciso, Midas e às Parcas, como símbolos da vaidade, da avareza e da morte como fatalidade, explicava: “Só uma coisa há que não pode passar, porque o que nunca foi, não pode deixar de ser, e tais parece que foram as fábulas que neste mesmo tempo se inventaram e fingiram.”(8). O que lembra o famoso oxímoro de Fernando Pessoa: “o mytho é o nada que é tudo”.

N’Os Lusíadas, a mitologia exerce diversos papéis. Ordenadora e enfatizadora do poema; oficina de imagens; corpo poético para a revelação de forças hostis ou benéficas da natureza, das relações sociais e do coração humano; e veículo da fé do poeta num Deus único, eterno e superior aos homens. Esta última função, em que os deuses são “causas segundas” em relação ao Deus onipotente, corresponde bem aos ideais do século XVI de integrar a teologia cristã no contexto cultural greco-latino. O que não elimina algumas ambigüidades. Ao mesmo tempo que os deuses podem ser elementos para destacar a magnificência do Deus católico, são chamados de demônios. Camões fala da Virgem Maria como “única Fénix” (II, 11), e execra os “Deuses vãos, surdos e imotos” do “Gentio” (X, 15).

Na verdade, o poeta vive da fé literária, que por sua vez mantém próximas, sem confundir-se, inter-fecundantes, a fé cristã e a mitológica: “O falso Deus adora o verdadeiro.” (II, 12). É a fé literária que dá voz aos próprios deuses:

 

Aqui, só verdadeiros, gloriosos
Divos estão, porque eu, Saturno e Jano,
Júpiter, Juno, fomos fabulosos,
Fingidos de mortal e cego engano.
Só pera fazer versos deleitosos
Servimos; e, se mais o trato humano
Nos pode dar, é só que o nome nosso
Nestas estrelas pôs o engenho vosso. (X, 82)

 

Embora defensor da teoria de inspiração evemeriana, segundo a qual os deuses são os pró-homens, os homens civilizadores endeusados por seus feitos soberanos, e, graças à qual, os heróis começam a participar desta “bem-aventurança” hic et nunc (cf. IX, 18), Camões no entanto mantém a tensão verdade-ficção, mantém o encantamento, e dá voz também aos que identificam os deuses com os demônios. Em outras palavras, mantém a obra fora do alcance das explicações definitivas. E, assim, aparece-nos “com a mentalidade a equilibrar-se entre a Igreja e o Renascimento, mistura de paganismo e catolicismo, fusão de nacionalismo e cosmopolitanismo, um lado voltado para o humanismo civilizado da cultura européia e outro lado afundado na selvageria guerreira de algumas conquistas a todo preço no Oriente — do mesmo modo, aliás, que tantos artistas, estadistas e até pontífices”.(9)

 

O mistério da história e a humana fraqueza

 

Se se admite que “o cristianismo não suprimiu o que a humanidade criou de mais elevado, mas o batizou”, e que, “em si, os valores humanos são conversíveis, e depois coroados: eles traçam o caminho sagrado para o Triunfo do ‘herói antigo’ mais perfeito, o Cristo”(10) — então pode-se ler Os Lusíadas percebendo o fato de que a “idéia da verdade absoluta do catolicismo e da ombridade nacional constituem como que o alicerce do pensamento do poeta”(11), e, não obstante, observando a coexistência com esta idéia de uma perplexidade, uma incerteza, perante o mistério da história e a fraqueza humana.

Vê-se em todo o Poema (e na descrição da Máquina do Mundo, indiscutivelmente) a mão transcendente que destina, um plano divino, uma construção universal, perfeita, um cosmos em que o homem aparece como bicho pequeno e vulnerável, ser limitado e hostilizado pelo mundo.

De todas as limitações humanas, uma em especial o preocupa. Ele, ao olhar o rumo dos acontecimentos, percebe que só parcialmente pode influir nele. Percebe que uma “vontade” faz com que algumas coisas aconteçam e outras não. Uma vontade inexplicável parece “querer” antes e, às vezes, contra a vontade humana.

Atraídos por esta constatação nebulosa da existência de uma ordem ordenadora, os antigos cunharam a Ananke, “o-que-tem-que-ser”. Um elemento sobre-humano que foge ao nosso controle. O que tem que ser é sempre inesperado, e a morte irrompe como a situação inesperada e arbitrária por excelência. O grito do homem ferido pela realidade é pungente:

 

Oh! Grandes e gravíssimos perigos,
Oh! Caminho de vida nunca certo (I, 105)
Onde pode acolher-se um fraco humano,
Onde terá segura a curta vida,
Que não se arme e se indigne o Céu sereno
Contra um bicho da terra tão pequeno? (I, 106)

 

E sob o nome de “destino”, “fado”, “ventura”, “fortuna” vão-se expressando várias destas perplexidades diante do ritmo e do encaminhamento históricos. É a pesada “mão” da vida que puxa, leva, esmaga. Sob os nomes “fado” e “destino”, há toda a problemática daquilo que estava previsto eternamente:

 

[...] é dos Fados grandes certo intento
Que por ela [a forte gente] se esqueçam os Humanos
De Assírios, Persas, Gregos e Romanos (I, 24)

Prometido lhe está do Fado eterno,
Cuja alta lei não pode ser quebrada,
Que tenham longos tempos o governo
Do mar que vê do Sol a roxa entrada. (I, 28)


A conquistar as terras Asianas
Vieram e, por ordem do Destino,
O Império tomaram a Constantino (I, 60)

Está do Fado já determinado
Que tamanhas vitórias, tão famosas,
Hajam os Portugueses alcançado
Das Indianas gentes belicosas. (I, 74)


Dando-lhe a entender que ali viera
Por alta influição do imóbil Fado (X, 146)

A queixa contra o Destino surge no episódio da Ilha dos Amores. Em meio à correria de marinheiros e ninfas, o soldado Leonardo não consegue alcançar a ninfa que lhe fora reservada pelo Amor. E, neste desespero, confessa a dor de ser perseguido por uma força mais forte do que qualquer poder humano:

 

Que Emperador, que exército, se atreve
A quebrantar a fúria da Ventura
Que, em quanto desejei, me vai seguindo,
O que tu só farás não me fugindo? (IX, 79)

 

Força capaz de tudo fazer para tornar real o que já estava previsto:
Minha ventura é tal que, inda que esperes,
Ela fará que não possa alcançar-te.
Espera; quero ver, se tu quiseres,
Que sutil modo busca de escapar-te;
E notarás, no fim deste sucesso,

“Tra la spica e la man qual muro he messo” (IX, 78)

 

Contudo... essa queixa-canto amorosa acaba desautorizando o Destino. O Fatum, que originariamente diz respeito a um falar, à palavra divina e enigmática que decide irrevogavelmente(12), é vencido pelo amor:

 

Já não fugia a bela Ninfa tanto
Por se dar cara ao triste que a seguia,
Como por ti ouvindo o doce canto,
As namoradas mágoas que dizia.
Volvendo o rosto já, sereno e santo,
Toda banhada em riso e alegria,
Cair se deixa aos pés do vencedor,
Que todo se desfaz em puro amor. (IX, 82)

 

Um outro ponto da história humana como lugar de perplexidade: a Fortuna — divindade alegórica que distribui bens e males aleatoriamente. Os homens são guiados por esta Cega (assim a representam), o que lhes dá um profundo sentimento de insegurança. Estão como que soltos num oceano, à deriva. A Fortuna é quem favorece uns poucos (cf. I, 44) e a tantos deixa na pobreza:

 

Do metal que Fortuna a tantos nega. (II, 98)

É quem a alguém pode dar glória e depois lhe tirar (cf. III, 17), lembrando que não há bem quem sempre dure:

Com esta condição, pesada e dura,
Nacemos: o pesar terá firmeza,
Mas o bem logo muda a natureza. (V, 80)

 

A arbitrariedade da Fortuna — “Fortuna injusta” (VI, 15) — sobrecarrega a vida do próprio poeta (cf. VII, 79 e X, 9), mas, ainda assim, poderá ser vencida pela virtude...

 

Por mais que da Fortuna andem as rodas,
Numa cônsona voz todas soavam,
Não vos hão-de faltar, gente famosa,
Honra, valor e fama gloriosa. (X, 74)

 

A mão que convida

De fato, se se fala em derrota da Fortuna pela virtude e pelo amor é porque se admite a possibilidade da indeterminação da História, suscitando uma concepção mais bem elaborada de Onisciência divina e liberdade humana.

 

À perplexidade ante um mundo governado pela Cega(13):
O tempo que ficou na sua suma alteza,
Que assi vai alternando o tempo iroso
O bem c’o mal, o gosto co’a tristeza.
Quem viu sempre um estado deleitoso?
Ou quem viu em Fortuna haver firmeza?
Pois inda neste Reino e neste Rei
Não usou ela tanto desta lei? (IV, 51)

 

contrapõe-se um Olhar poderoso e amoroso. Poderoso, porque tudo governa, inclusive as forças cósmicas mitificadas (cf. I, 21). Mas não só poderoso. O Deus cristão que tudo manda (cf. X, 85) e a “cujo império

 

Obedece o visíbil e o invisíbil (I, 65)
é também um homem - “Deus homem, alto e infinito” (I, 66) - que
[...] padeceu desonra e vitupério,
Sofrendo morte injusta e insofríbil (I, 65)
E se Baco quer evitar que os homens sejam deuses, este Deus humanado
[...] do Céu à Terra, em fim, deceu
Por subir os mortais da Terra ao Céu. (I, 65)

 

A Encarnação, intervenção trans-histórica decisiva na história humana, rompe com os esquemas míticos e instaura a sucessão, a mudança, uma nova etapa, como resultado de um plano inteligente superior. Depois de Cristo, a tragédia tornou-se impossível. A fatalidade, o Fado indiferente, toda a dureza do destino cedem lugar à consciência de que liberdade humana e vontade divina não se excluem. Os lusíadas, na mesma medida em que pretendem a conquista política e econômica do espaço, dão prosseguimento à cristianização da humanidade: tornam-se um povo escolhido.

 

Liberdade humana e vontade divina se combinam, por exemplo, na conversão do mouro que...
Inspirado de Angélica influência,
Quer no livro de Cristo que se escreva. (IX, 15)

 

À perplexidade diante do rumo da história(14) contrapõe-se uma confiança que atribui à presciência divina um carinho que só foi possível depois da intimidade com o “Filho de Maria” (III, 45 e cf. X, 108), a ponto de se deduzir o caráter, por assim dizer, do próprio Deus:

 

Mas, despois que o Porteiro tem divino,
Perdendo o esforço veio e bélica arte;
Pobre está já da antiga potestade.
Tanto Deus se contenta de humildade! (III, 15)

 

Agora, os acontecimentos são encarados sob outra luz. Ou melhor, sob a mesma luz, antes menos intensa. A confiança estimula uma inteligência que sabe compreender o que não entende. O que antes poderia ser tido como puro castigo (cf. III, 117) aceita uma interpretação diferente:

 

Mas o alto Deus, que pera longe guarda
O castigo daquele que o merece,
Ou pera que se emende, às vezes tarda,
Ou por segredos que homem não conhece (III, 69)
Oh! Segredos daquela Eternidade
A quem juízo algum não alcançou:
Que nunca falte um pérfido inimigo
Àqueles de quem foste tanto amigo! (I, 71)
Mas de Deus a escondida providência,
Que ela só sabe o bem de que se serve (X, 29)
O dogma da Divina Providência não só não simplifica o mistério
[...] mas o que é Deus, ninguém o entende,
Que a tanto o engenho humano não se estende (X, 29)
como ajuda o homem a conhecer melhor os obstáculos à realização
de sua aventura:
Bem nos mostra a Divina Providência
Destes portos a pouca segurança;
Bem claro temos visto na aparência
Que era enganada a nossa confiança.
Mas pois saber humano nem prudência
Enganos tão fingidos não alcança,
Ó tu, Guarda Divina, tem cuidado
De quem sem ti não pode ser guardado! (II, 31)
E, por fim, a desmitificação do destino cego:
Ocultos os juízos de Deus são;
As gentes vãs, que não nos entenderam,
Chamaram-lhe fado mau, fortuna escura,
Sendo so providência de Deus pura. (X, 30)

 

A forte fraqueza de ser homem

 

Em certo poema húngaro, o homem se volta para Deus, pedindo-lhe uma explicação cabal sobre a significação inequívoca de sua presença no mundo e o verdadeiro destino que lhe aguarda. E obtém como resposta:

 

Se soubesses que a tua alma demora
Na Terra apenas um instante, enquanto
Por ela espera, além, a Eternidade,
Não seria virtude aqui sofrer.
Se soubesses que a alma retorna ao pó,
Que estímulo terias em abrir
Mão dos prazeres de cada momento,
Em holocausto por grandes idéias?(15)

 

Resposta algo enigmática que, no entanto, registra a inegável realidade: como dizia Fernando Pessoa, o “esforço é grande e o homem é pequeno”. Neste mundo, o próprio mundo como totalidade e os indivíduos nele são incômodos, contraditórios, ainda não possuem forma definitiva; o homem constantemente depara com sua grandeza e com sua miséria. Com a sua força, que o surpreende, e com a sua fraqueza, que lhe custa admitir. Com a sua capacidade e com a sua incapacidade para agir e frutificar. A constatação da estranha condição de estar vivo multiplica-se n’Os Lusíadas. Por um lado, constata-se a força do homem. Os portugueses

 

Passaram ainda além da Taprobana,
Em perigos e guerras esforçados
Mais do que prometia a força humana (I, 1)
São atrevidos:
[...] cometendo
O duvidoso mar, num lenho leve,
Por vias nunca usadas, não temendo
De Áfrico e Noto a força, a mais se atreve:
Que, havendo tanto já que as partes vendo
Onde o dia é comprido e onde breve,
Inclinam seu propósito e perfia
A ver os berços onde nasce o dia. (I, 27)
Com seu “forte Capitão” (I, 44), com suas “fortes armas” (I, 63),
seus “fortes corações” (I, 33) e seu denodo,
Amostrarão esforço mais que humano,
Que nunca se verá tão forte peito (II, 55)

 

Viriato (“homem forte”) apenas inaugura a fama da “força Portuguesa” (III, 57), “forças mais que humanas” (III, 62), “costumadas / A derribarem quanto acham diante” (IV, 56). E assim em tantas outras passagens: I, 31, 36, 50; III, 98, 99; IV, 14, 46; V, 86; VIII, 21. Por outra parte, porém, constata-se a fraqueza do homem diante das forças da existência:

 

Oh! Caminho de vida nunca certo,
Que aonde a gente põe sua esperança
Tenha a vida tão pouca segurança! (I, 105)
No mar tanta tormenta e tanto dano,
Tantas vezes a morte apercebida;
Na terra tanta guerra, tanto engano,
Tanta necessidade avorrecida! (I, 106)

 

O homem é limitado para arrostar os perigos (cf. II, 31) e acaba vítima de sua debilidade, mesmo sendo um Rei:

 

Do justo e duro Pedro nasce o brando
(Vede da natureza o desconcerto),
Remisso e sem cuidado algum, Fernando,
..................................................................
Que um fraco Rei faz fraca a forte gente. (III, 138 e cf. IV, 17)

 

E nem se fale da “fraca carne humana” (IX, 91), esta fragilidade constitutiva — nossa mortalidade:

 

Quão fácil é ao corpo a sepultura!
Quaisquer ondas do mar, quaisquer outeiros
Estranhos, assi mesmo como aos nossos,
Receberão de todo o Ilustre os ossos. (V, 83)

 

A ambivalência forte-fraco acabará se tornando um paradoxo. Porque os elementos do mundo hostilizam o Português, revelando sua fraqueza humana:

 

Já lá o soberbo Hupótades soltava
Do cárcere fechado os furiosos
Ventos, que com palavras animava
Contra os varões audaces e animosos.
Súbito, o céu sereno se obumbrava,
Que os ventos, mais que nunca impetuosos,
Começam novas forças a ir tomando,
Torres, montes e casas derribando. (VI, 37)
[...] os ventos, que lutavam
Como touros indómitos, bramando,
Mais e mais a tormenta acrecentavam,
Pela miúda enxárcia assoviando.
Relâmpagos medonhos não cessavam,
Feros trovões, que vem representando
Cair do céu dos eixos sobre a terra,
Consigo os Elementos terem guerra. (VI, 84)
Quantos montes, então, que derribaram
As ondas que batiam denodadas!
Quantas árvores velhas arrancaram
Do vento bravo as fúrias indinadas!
As forçosas raízes não cuidaram
Que nunca para o céu fossem viradas,
Nem as fundas areas que pudessem
Tanto os mares que em cima as revolvessem. (VI, 79)
E, ao mesmo tempo, diante do Português o mar treme,
Sem vento suas águas encrespando.
Oh! Caso nunca visto e milagroso,
Que trema e ferva o mar, em calma estando!
Oh! Gente forte e de altos pensamentos,
Que também dela há medo os Elementos! (II, 47)
Porque os Portugueses estão sempre em inferioridade numérica, e, ao mesmo tempo, saem vitoriosos. Porque, inferiores,
Estão de Agar os nestos casi rindo
Do poder dos Cristãos, fraco e pequeno (III, 110)
E, de algum modo, esta inferioridade é providencial:
Não são vistos do Sol, do Tejo ao Batro,
De força, esforço e de ânimo mais forte,
Outros doze sair, como os Ingleses,
No campo, contra os onze Portugueses. (VI, 60)

 

Porquanto, sentindo-se incapaz, o homem arremessa sua linguagem em direção àquela Vontade que não é dele mas que, acredita, dele não se desinteressou. Isto é, reza:

 

Vendo Vasco da Gama que tão perto
Do fim de seu desejo se perdia,
Vendo ora o mar até o inferno aberto,
Ora com nova fúria ao céu subia,
Confuso de temor, da vida incerto,
Onde nenhum remédio lhe valia,
Chama aquele remédio santo e forte
Que o impossíbil pode, desta sorte: (VI, 80)
Divina guarda, angélica, celeste,
Que os céus, o mar e terra senhoreas (VI, 81)
Porque somos de ti desamparados,
Se este nosso trabalho não te ofende,
Mas antes teu serviço só pretende? (VI, 82)

 

A vitória sobre a Fortuna

No momento em que liberdade humana e onipotência divina se combinam no reconhecimento e na vivência do paradoxo — eu sou forte, quando sou fraco —, é então que se realizam as vitórias espetaculares. Dom Nuno Álvares, confiando na “suma e trina Essência” (VIII, 30), baseia-se nas conquistas passadas do menor contra o maior:


Olha que dezassete Lusitanos,
Neste outeiro subidos, se defendem
Fortes, de quatrocentos Castelhanos,
Que em derredor, pelos tomar, se estendem;
Porém logo sentiram, com seus danos,
Que não só se defendem, mas ofendem (VIII, 35)
Sabe-se antigamente que trezentos
Já contra mil Romanos pelejaram,
No tempo que os viris atrevimentos
De Viriato tanto se ilustraram,
E deles alcançando vencimentos
Memoráveis, de herança nos deixaram
Que os muitos, por ser poucos, não temamos;
O que despois mil amostramos. (VIII, 36)
E comprova que tais vitórias são fruto da Fé (cf. III, 111):
Quem poderá do mal aparelhado
Livrar-se sem perigo, sabiamente,
Se lá de cima a Guarda Soberana
Não acudir à fraca força humana? (II, 30)
Em batalha cruel, o peito humano,
Ajudado da Angélica defesa,
Não só contra tal fúria se sustenta,
Mas o inimigo aspérrimo afugenta. (III, 34)
A quem lhe esta vitória permitiu
Dão louvores e graças sem medida;
Que, em casos tão estranhos, claramente,
Mais peleja o favor de Deus que a gente. (III, 82)

 

Na medida em que os Portugueses querem dilatar a Fé, vêem-se fortes em sua fraqueza, fortes por causa de Deus (cf. VII, 3), que os guia (cf. VIII, 29), por “cujo braço o Mouro imigo doma” (VIII, 11) e se comprova a verdade do Cristianismo (cf. IV, 48). A batalha paradigmática é a de Ourique (cf. III, 42 e segs.), “memorizada” no brasão de Portugal (cf. III, 53-4), sinal de que “Deus peleja / Por quem estende a fé da madre Igreja” (X, 40).

Conhecer e viver (histórica e poeticamente) este paradoxo é ingressar numa compreensão do mundo não-fatídica. A fraqueza audaciosa de Prometeu é punida pela força dos imortais, mas o homem tocado pela graça, um sequaz da Verdade (cf. I, 71), pode “cometer as ondas do Oceano” (IV, 48) e lançar-se à conquista do desconhecido, desafiando “a terra, o mar e o mundo” (cf. IV, 14). Abrir “o mar profundo / Por onde nunca veio gente humana” (VII, 25 e cf. X, 91 e X, 147) e, finalmente, vencer a própria Fortuna:

 

Assi, com firme peito e com tamanho
Propósito vencemos à Fortuna (VIII, 73)
[...] ocasião espera boa
Com que a torne a tomar, que esforço e arte
Vencerão a fortuna e o próprio Marte. (X, 42)

 

Vencer o destino implacável é tarefa de homens como um São Tomé, que valorizam a experiência — “Tomé, barão sagrado / Que a Jesu Cristo teve a mão no lado” (X, 108) — e se arriscam no antiburguês salto da Fé:

 

[...] o núncio de Cristo verdadeiro
Menos trabalho em tal negócio gasta.
Ata o cordão que traz, por derradeiro,
No tronco, e facilmente o leva e arrasta
Pera onde faça um sumptuoso templo
Que ficasse aos futuros por exemplo. (X, 111)
Sabia bem que se com fé formada
Mandar a um monte surdo que se mova,
Que obedecerá logo à voz sagrada,
Que assi lho ensinou Cristo, e ele o prova. (X, 112)

O ideal humanista de Camões é um ideal de completude, plasmado neste ser fraco e atrevido (cf. VI, 28); neste domar o mundo (cf. VI, 30), buscando nele “novas partes” (VI, 85), “novos climas, novos ares” (IV, 76) — “Novos mundos ao mundo” (II, 45) —, e confiando no

 

[...] sumo Deus, que por segundas
Causas obra no mundo [...] (X, 85)


(1) Julián Marías. Introdução à metafísica. São Paulo, Livraria Duas Cidades, 1960, p. 340.

(2) Idem, p. 341.

(3) Luis Suarez. Grandes interpretaciones de la historia. Pamplona, Ediciones Universidad de Navarra, 1976, p. 22.

(4) Jacob Burckhardt. La cultura del renacimiento en Italia. Barcelona, Editorial Iberia, 1984, p. 190.

(5) António José Saraiva e Óscar Lopes. História da Literatura Portuguesa. 6a ed., Porto, Porto Editora, s/d., p. 355.

(6)Hernâni Cidade. Luís de Camões. 2a ed., Lisboa, Revista da Faculdade de Letras, 1953, vol. II – O Épico, 113. O crítico inglês Bowra observou que Vênus encarna o espírito ocidental, harmonioso, ordenado, e que Baco é a corporização do espírito oriental, vaidoso e avesso à ordem.

(7)Johan Huizinga. O declínio da Idade Média. São Paulo, Editora Verbo/Edusp, 1978, p. 297.

(8) “Sermão da Primeira Dominga do Advento”. Em: Os sermões. São Paulo, Difusão Européia do Livro, 1968, p. 139.

(9) Álvaro Lins. Discurso sobre Camões e Portugal. Rio de Janeiro, Serviço de Documentação do Ministério da Educação e Cultura, 1956, p. 52-3.

(10) Charles Moeller. Sagesse grecque et paradoxe chrétien. 2a édition, Paris, Casterman, 1950, p. 17-8. Como um prestigioso autor brasileiro reconhece: “sob muitos aspectos o Cristianismo salvou a mitologia: dessacralizou-a de seu conteúdo pagão e ressacralizou-a com elementos cristãos, ecumenizando-a”. (Junito de Souza Brandão. Mitologia grega. Petrópolis, Vozes, 1986, vol. 1, p. 33.)

(11) J.P.Oliveira Martins. História da civilização ibérica. 8a ed., Lisboa, Parceria A.M. Pereira, 1946, p. 266.

(12) Pierre Grimal. Dictionnaire de la Mythologie grecque et romaine. Paris, PUF, 1951, Fatum.

(13) Giovanni Papini externa a mesma visão em uma de suas mais ambiciosas avaliações da história humana: “Nenhum triunfador triunfava mais de um dia; igualmente para as nações eram breves as épocas de dominação e acontecia, por exemplo, que se convertiam em colônias das que antes foram suas tributárias. A História desconhecia a justiça. [...] Todo o amor e a dor dos povos foram sempre inúteis. Tanto as nações como os indivíduos eram transitórios; também os impérios caíam, todos, um a um, como folhas no outono e como as gerações dos homens.” (Juicio universal. Barcelona, Editorial Planeta, 1968, p. 314-5.)

(14) Em poucas linhas, Oliveira Martins a expressa: “O destino, fatalidade, providência, determinação, ou como se queira dizer — traduzido com as sucessivas palavras, antigas, actuais ou futuras, um mistério eterno — elege ou condena — escolham também os sectários entre as duas expressões — os homens e as nações a uma determinada obra.” (História de Portugal. 17a ed., Lisboa, Guimarães & C a Editores, 1977, p. 173.)

(15) Imre Madách. A tragédia do homem. 2a ed., Rio de Janeiro, Salamandra Consultoria Editorial, 1980, p. 245.