“É Loucura Contar Segredos às Mulheres!” - Nota sobre a imagem da mulher nos provérbios de El Libro de Calila e Digna

 

Ana Lúcia Carvalho Fujikura
Mestre em Letras – CEAr – DLO-FFLCH-USP
analcf@uol.com.br

 

Um dos mais importantes marcos da influência cultural árabe na Península Ibérica é El Libro de Calila e Digna – tradução de D. Alfonso X, o Sábio (1252-1284) do clássico Kalila wa Dimna, coletânea de contos e fábulas de caráter político e moral, que influenciaram a maior parte do fabulário internacional.

 

A origem de El Libro de Calila e Digna remonta, em parte, ao livro indiano, redigido em sânscrito, chamado Panchatantra, cujas fábulas e provérbios disseminaram-se por toda Europa, Ásia e África, constituindo-se em influência das mais significativas. Para os medievalistas John Esten Keller e Robert Linker (1), não é possível apontar quando os textos que compõem o Panchatantra foram compilados (mas não deve ser anterior a 250 ou 300 de nossa era) ou por quem.

 

A popularidade obtida pelo Panchatantra gerou várias traduções, como, por exemplo, a versão árabe feita por Abdallah Ibn Al-Muqaffa’, por volta de 750, intitulada Kalila wa Dimna – essa versão deu origem a inúmeras outras em várias línguas, como o castelhano: El Libro de Calila e Digna foi traduzido no século XIII, precisamente em 1251, diretamente do original árabe de Ibn Al-Muqaffa’, patrocinado por Alfonso X, o Sábio, infante àquela época.

O Panchatantra pertence ao gênero de livros chamado nitishastra ("ciência ou trabalho sobre ética política ou moral"(2)), ou seja, um "livro de niti: uma maneira prudente e sábia de se viver (...). Niti é um modo prático que conduz ao prazer e ao gozo são do mundo"(3), aliando, em si, elementos que conduzem ao "emprego sábio e decidido das potências, à comunicação de idéias entre amigos e, sobretudo, ao uso digno da inteligência"(4), obtendo-se, assim, um modo de se viver segura e proveitosamente.

 

Tal como ditados e provérbios, os ensinamentos previstos pelo nitishastra pretendem transmitir a "sabedoria dos antigos, de autoridade indiscutível"(5), funcionando, então, como modelo de conduta e constituindo-se, também, em testemunhos importantes "do caráter e do comportamento humanos"(6). Sendo assim, a sabedoria e a realidade cultural refletidas nos mais de 400 provérbios e/ou formulações proverbiais contidos no Calila e Digna justificariam, por si só, seu estudo.

 

De acordo com José Paulo Paes(7), a importância dos provérbios como fonte de conhecimento da realidade é fruto da própria forma de expressão da formulação: "no nível da fala popular, (o provérbio exerce a função) daquela função poética, apontada por Roman Jakobson (...) como ‘o enfoque da mensagem por ela própria’ que faz avultar em primeiro plano ‘o caráter palpável dos signos’. Com isso, o modo por que se diz algo torna-se tão importante quanto aquilo que é dito".

 

Graças, entre outros fatores, ao seu particular modo de enunciação, o provérbio perpetua-se "na memória coletiva como modos de dizer tradicionais, cristalizados"(8), onde a sabedoria popular exprime "sua experiência de vida (...) numa espécie de logaritmo sapiencial", cujo propósito é apresentar "a conclusão tirada de numerosas e repetidas vivências, especialmente no campo das relações morais entre os seres humanos"(9). E, segundo Lauand(10), "a realidade vivida transforma-se em experiência e esta condensa-se em provérbio que, por sua vez, volta para a realidade, iluminando-a e permitindo sua leitura".

 

Além disso, ainda conforme Lauand(11), o estudo dos provérbios remete-nos à sentença de Lunde & Wintle: Perhaps the quickest way to understand a people or a culture is to learn their proverbs.

 

A realidade – tornada viva na linguagem e veiculada por meio dos provérbios – ou a visão que se tem da realidade, é, então a fonte que propicia a moral e a educação moral: daí a função educativa exercida pelos provérbios, conforme Lauand: "Quando se tem em conta que a educação moral é uma ‘educação invisível’, que – mais do que no âmbito oficial da escola – se exerce na interação social informal e que a moral pressupõe, antes e acima de tudo, conhecimento sobre o homem, torna-se imediatamente evidente que a tradição viva de provérbios populares é poderosa instância de educação moral (que, naturalmente, valerá o que valerem os conteúdos veiculados...). No caso, essa educação se faz, antes de mais nada, precisamente pela possibilidade de circunscrever, de configurar uma situação, que passaria despercebida, se os provérbios não chamassem a atenção para ela: especialmente para a educação moral vale a intuição contida na sugestiva acumulação semântica da palavra castelhana enseñar: ensinar e mostrar!"(12)

Entretanto, se constituem "poderosos instrumentos para a educação das novas gerações"(13), os provérbios, por outro lado, podem remeter à posteridade uma série de preconceitos que, "quanto mais engenhosa for a formulação"(14), maior será a sua permanência. São, segundo Lauand(15), as chamadas "disfunções dos provérbios". É o caso, por exemplo, das várias alusões (sempre desdenhosas e depreciativas) à figura da mulher, contidas no Calila e Digna:

 

Há três coisas que só um louco se atreve a fazer e só um sábio as evita: servir ao rei; contar segredos às mulheres; e tomar veneno para experimentar.

 

A "fofoca" encontra-se associada sempre à mulher; nunca se ouve dizer, por exemplo: "que homem fofoqueiro!". O destaque desse defeito, que o preconceito sempre supõe ser "feminino", continua a valer até os dias de hoje – é o caso do provérbio de número 1828, recolhido por R. Lacaz-Ruiz(16):

 

"Quando se fala com homem se olha nos olhos, com a mulher se olha na boca."

 

A mulher não é confiável e não merece que se sacrifiquem por ela:

 

Querer matar o amigo por causa de mulher não é das obras que a Deus apraz.

 

As mulheres não merecem que se faça traição por elas – e o homem deve fiar-se muito pouco nelas.

 

Essa última formulação repete a mesma recomendação recolhida por Lauand(17) no provérbio árabe: "Não confie no céu de março, mesmo que ele ria; não confie na mulher, mesmo que ela chore."

 

A falta de "confiabilidade" da mulher, sua "vocação" para o mexerico, "seu pouco merecimento" de sacrifícios dos homens, formam o "perfil" não de uma ou outra mulher, mas da mulher – o que fica patente no provérbio de número 1457, também recolhido por R. Lacaz-Ruiz(18): "O amor é a ilusão de que uma mulher é diferente das outras" (toda mulher encaixa-se em um único perfil – negativo, naturalmente...).

 

Os amigos, a força do animal, a prata se provam; mas as mulheres...

 

Dizem que a prata se prova no fogo; os amigos, em sua lealdade em dar e receber; a força do animal, na carga pesada; mas as mulheres... não há com que se possam provar.

 

A mulher, se dispensa um, logo arranja outro...

 

Os reis, em sua pouca verdade e lealdade para com seus vassalos e não se preocupando se os perdem, são como a mulher que, se a deixa um, logo vem outro em seu lugar.

 

E é somente graças ao marido que a mulher "existe" e "pobre" daquela que não o tem – é inútil:

 

A mulher não é senão pelo marido.

 

Três coisas são inúteis: rio que não tem água; terra que não tem rei; mulher que não tem marido.

 

E, evidentemente, deve ser devidamente repreendida a "solteira que zomba da casada" (invejosa que é...):

 

Três são os que devem ser escarnecidos: o que se gaba de ser corajoso; o que luta mas não apresenta sinal de ferida; o que finge saber a lei e se diz religioso, mas é corpulento e pescoçudo; a solteira que zomba da casada; o que fala do que já está feito.

 

Em si, a mulher já é "desagradável", mas:

 

A pior mulher é a inconveniente.

 

Um "objeto" que, muitas vezes, não pode ser mantido:

 

Três são aqueles que devem sentir pesar: o que possui cavalo gordo de maus modos; sopa rala com muito caldo e pouca carne; e o que se casa com mulher rica e bonita sem poder sustentá-la.

(Provavelmente ela irá procurar outro... Nesse mesmo sentido, com mais humor, o provérbio 1190 da mesma coleção de R. Lacaz-Ruiz: "Malandro é o sapo que casa e leva a mulher pra morar no brejo".)

 

Mas, mesmo se "gostar de mulher não é defeito(19)", faz "melhor" quem se "resguarda" (protege?):

 

Ainda que seja grande dever amar as mulheres e amigos e guardá-los, mais justo é preservar-se o homem a si mesmo.

 

Notas

 

(1). KELLER, J. E. & LINKER, R. El Libro de Calila e Digna. Madri, Consejo Superior de Investigaciones Científicas, 1967, p. XV. Sempre que citarmos somente El Libro de Calila e Digna, teremos em vista essa edição.

(2). VARGAS, Maria Valíria A. de M. "A fábula indiana e sua expansão para o ocidente". Revista de Estudos Árabes, São Paulo, Centro de Estudos Árabes-FFLCH/USP, no. 4, p. 37.

(3). El Libro de Calila e Digna, p. XVI.

(4). El Libro de Calila e Digna, p. XVII.

(5). VARGAS, Maria Valíria A. de M., op. cit., p. 37.

(6). Ibidem, p. 38.

(7). Tradução: A Ponte Necessária, São Paulo, Editora Ática, 1990, p. 50.

(8). PAES, J. P. op. cit., pp. 50-51.

(9). Ibidem, p. 51.

(10). LAUAND, Luiz Jean. Provérbios e Educação Moral – A Filosofia de Tomás de Aquino e a Pedagogia Árabe do Mathal. São Paulo, Hottopos, 1997, p. 13.

(11). Ibidem, p. 13.

(12). Ibidem, p. 122.

(13). Ibidem, p. 129.

(14). Ibidem, p. 132.

(15). Ibidem, p. 132.

(16). Projeto Provérbios para Escolas de Primeiro e Segundo Graus. São Paulo, Mandruvá, 1998, texto eletrônico:

http://www.usp.br/fzea/zab/indice2.htm.

(17). LAUAND, Luiz Jean, op. cit., p. 133.

(18). É o provérbio de número 1457 da obra já citada de R. Lacaz-Ruiz.

(19). É o provérbio de número 946 da obra já citada de R. Lacaz-Ruiz.