A Educação dos Meninos segundo Guilherme de Tournai

 

 

Ruy Afonso da Costa Nunes
Universidade de São Paulo

 

Não é preciso grande esforço da fantasia para se imaginar como viveram as crianças durante a Idade Média. As obras históricas, religiosas e pedagógicas, as biografias, principalmente as vidas de santos, e vários outros documentos literários, deixam transparecer que elas cresciam entre rezas e folguedos, umas; entre rezas, brincadeiras e trabalhos, outras; sob a orientação dos pais, dos mestres, e principalmente das mulheres. É preciso notar que aludimos, de feito, às crianças, e não aos que se consideravam como adolescentes e jovens.

 

Sto. Isidoro de Sevilha, cuja obra Etimologias foi a enciclopédia de assídua consulta e guia dos educadores durante muitos séculos, já ensinava no início do século VII que são seis as idades do homem: a infância, do nascimento aos 7 anos; a meninice, pueritia, dos 7 aos 14 anos; a adolescência, dos 14 aos 28 anos; a juventude, dos 28 aos 50; a maturidade, dos 50 aos 70 e, por fim, a velhice, dos 70 em diante. O menino, diz Sto. Isidoro, é assim chamado - puer - por derivação de puritate, porque é puro, não tem buço e conserva a cor da face. Chamava-se, também, de efebo, nome derivado do deus mitológico Febo. Os meninos não são varões mas pequenos adolescentes, adolescentuli lenes. A característica do adolescente, na idade seguinte à puerícia, é a capacidade de engendrar filhos, embora ele ainda esteja em crescimento1.

Na metade do século XIII, Sto. Tomás de Aquino admite e cita a mesma classificação isidoriana das idades do homem2.

 

Evidentemente, havia grande diferença entre a educação dos meninos nobres e a dos plebeus tocante à formação familiar pois, de regra, aqueles dispunham de um preceptor no lar, quando não eram cuidados pela própria mãe ou por alguma ama. Todos, porém, recebiam, quando escolarizados, instrução igual, quer nas escolas elementares das paróquias, quer nas escolas monásticas, permanecendo muitas crianças pobres no estado de ignorância peculiar à sua família de agricultores, servos da gleba e artesãos. O monge beneditino, Valafrido Estrabão, deixou no seu Diário de um Estudante um nítido retrato da educação pueril no mosteiro de Reichenau, no início do século IX3.

 

No terreno das publicações a preocupação era principalmente com a educação dos príncipes e, depois do tempo de Sto. Agostinho e da sua Cidade de Deus, diz Lester Kruger Born, houve uma longa série de escritores e tratados sobre esse tema, com particular relevo, nos séculos XIII e XIV, das obras de Gilberto de Tournai, S. Tomás de Aquino, Guilherme Peyraut, Egídio Romano, Tiago de Cessoles, Pedro du Bois, Marsílio de Pádua e Tomás Occleve4. Os pedagogos mais insígnes do século XIII, no entanto, foram sem dúvida o dominicano Vicente de Beauvais e o franciscano Gilberto de Tournai.

 

Vicente de Beauvais, falecido provavelmente em 1264, compôs a obra mais vasta sobre a educação nos seus livros De eruditione filiorum nobilium, De morali principis institutione e na enciclopédia Speculum Maius5. Tocante ao ensino, porém, parece-me que a obra mais bem travejada foi a do franciscano Gilberto de Tournai, De modo addiscendi6. Gilberto nasceu entre 1209 e 1213, e faleceu em 1284, e a sua grande obra pedagógica fazia parte de outra mais ampla, o Rudimentum doctrinae. Ela deve ter sido escrita, diz Bonifácio, entre os anos de 1264 e 1268. Gilberto tem o seu nome grafado, também, como Gisbertus, Wibertus, Guillibertus, Guilbertus, Gilbert e Gilbertus. Ele compôs o De modo addiscendi a pedido de Michel de Lille, seu amigo e antigo colega na universidade de Paris. Este fora incumbido por Guy de Dampierre, conde de Flandres, da educação do seu filho Jean, que veio a ser preboste de Bruges, bispo de Metz em 1277, de Liège em 1282, e que faleceu em 1290. Guy de Dampierre solicitou de Gilberto alguns conselhos e orientações de estudo. Gilberto, autor de vários outros livros, inclusive de um tratado de pedagogia política, Eruditio regum et principum, atendeu ao pedido do amigo com o livro De modo addiscendi. "que quase não parece ao alcance de um adolescente de 15 anos, idade que João podia ter nessa época, diz Baudry. Gilberto, porém, aproveitou a oportunidade de ensinar a todos a arte de procurar a verdade"7.

 

É interessante observar como da cidade de Tournai, na Bélgica medieval do século XIII, surgiram dois tratadistas da educação. Um mais ilustre, Gilberto de Tournai, doutor franciscano, e o outro mais modesto no seu projeto, o dominicano Guilherme de Tournai, cujo opúsculo inédito sobre a educação dos meninos só veio a ser editado em 1955 nos Estados Unidos por Corbett, mas cujo pensamento educacional já fora exaustivamente analisado em excelente artigo por R. Fluck, em 19538.

São muito escassos os dados disponíveis a respeito da vida de Guilherme de Tournai. Nasceu nesta cidade à roda de 1230, e faleceu cerca de 1293. Ingressou na Ordem Dominicana, passou algum tempo no convento de Lille, estudou no convento de Saint-Jacques em Paris, cuja escola de teologia, desde 1229, estava agregada à Universidade onde se doutorou em Teologia, tendo ensinado como Mestre, de 1272 a 1274. O cronista dominicano, Stephanus de Salaniaco, que morreu em 1291, coligiu tudo o que pôde ver e ouvir a respeito dos membros ilustres da sua Ordem na obra prosseguida pelo seu confrade Bernardus Guidonis, De Quatuor in quibus Deus Praedicatorum Ordinem insignivit. Ao iniciar a apresentação do elenco dos mestres de teologia em Paris, escreve: "O Senhor também concedeu à Ordem varões excelsos na palavra da glória, dos quais alguns foram doutores autorizados e solenes, e outros, pregadores prestimosos e famosos", e confessa ter anotado os seus nomes desde o ano de 1230 até ao de 1277, mas do nosso Guilherme de Tournai cita apenas o nome, sem nenhum apontamento a mais, com que faz acompanhar as indicações dos outros9.

 

Glorieux informa que o tratado de Guilherme, De modo docendi pueros, foi recomendado aos Irmãos pelo Capítulo Geral de Paris, em 126410, embora nas Atas desse Capítulo o nome do autor da obra não seja mencionado. O Capítulo ordena que os Priores provinciais se empenhem quanto às pregações aos meninos, pueris, nas escolas; que se atendam às confissões dos que quisessem confessar-se, e que se façam cópias do opúsculo de Guilherme para os frades incumbidos das pregações para os meninos, afirmando que esses sermões estavam compilados no dito opúsculo11.

Segundo Glorieux, as obras de Guilherme, além do pequeno tratado sobre a instrução dos meninos, foram um Comentário sobre os Quatro Livros das Sentenças, de Pedro Lombardo, Postilas sobre o Evangelho de São Mateus e as Epístolas de São Paulo, e uma coleção de Sermões12.

 

O texto do De instructione puerorum parece só ter chegado aos nossos dias em três manuscritos: o de Paris, o de Oxford e o de Cambrai. Corbett serviu-se do manuscrito parisiense, o mais completo, tendo acrescentado no aparato crítico as variantes dos outros dois.

 

Fluck observa que só se podem tecer conjecturas sobre a tendência doutrinária de Guilherme de Tournai, uma vez que as obras teológicas do mestre dominicano não chegaram até nós. Uma coisa é certa, porém, à luz do De instructione puerorum: Guilherme não era um tipo "intelectual", e é muito provável que o seu ensinamento teológico tivesse assumido caráter eminentemente prático, como o do seu opúsculo pedagógico. Ele foi um frade devoto e zeloso que se empenhava em pregar e ensinar as verdades religiosas, em recomendar os meios para a salvação eterna, e em indicar o modo de viver convenientemente na prática as verdades, os preceitos, os mandamentos e os mistérios da fé cristã. Como se pode depreender das auctoritates citadas no seu opúsculo, Sto. Agostinho foi o seu mestre dileto, e as obras dele, as suas fontes preferidas. Uma vez que a preocupação com a formação moral perpassa essa obra de Guilherme, e como este cita a Summa de virtutibus et de vitiis de Guilherme Peraldus (Guillaume Peyraut), e a ela remete o leitor por duas vezes, parece-me que a influência deste pregador dominicano foi mais profunda nele do que o dá a entender Corbett que afirma: "One finds some of William's quotations in the Summa of Peraldus, but William does not seem to have used it extensively".

 

A Suma sobre as virtudes e os vícios foi a obra mais famosa e influente de Guilherme Peyraut, devido ao seu caráter vincadamente prático, e foi muito bem acolhida entre os clérigos mais humildes, de modo que o feitio do opúsculo de Guilherme de Tournai se acomoda perfeitamente ao teor dessa obra de Peyraut, como se infere da leitura da excelente monografia de Dondaine sobre a vida e as obras desse abalizado pregador dominicano, e da qual me valho pare lhe debuxar a figura que me parece exemplar, quanto ao pedagogo dominicano de Tournai13.

 

À diferença dos seus famosos confrades que brilharam pelos seus títulos, ensino e obras nas cátedras universitárias, Guilherme Peyraut não foi bacharel nem mestre em teologia. Ignoram-se as datas certas do seu nascimento e da sua morte. Só se sabe que nasceu provavelmente em Peyraut à volta de 1200, se tornou frade dominicano talvez antes de 1236-1240, tendo pregado em Viena (da França) na quaresma de 1249, e tendo sido prior do convento dominicano de Lyon. O traço particular de sua vida, diz Dondaine O. P., é que ele foi teólogo e moralista extra-escolar, ocupa merecidamente um lugar na história doutrinária da Idade Média, e foi, na metade do século XIII, testemunha excepcional de uma teologia moral cristã essencialmente tradicional e latina, a sua obra revela uma cultura clássica pouco comum na época e uma segura ciência teológica. Morreu, ao que parece, em Lyon em 1271. A obra que o celebrizou foi a Summa de virtutibus et de vitiis. Ela se compõe de duas partes bem distintas: o tratado dos vícios, e o das virtudes, dos dons e das beatitudes. Essa é a ordem certa da composição da obra, pois o De virtutibus remete freqüentemente o leitor ao De vitiis, mas este nunca alude ao anterior. O Tratado dos vícios parece ter sido escrito em 1236, e o Tratado das virtudes, antes da primavera de 1249. A Suma, completa, com as duas obras, estava em circulação antes de 1250. Com o seu objetivo prático, não atingido pelos teólogos especulativos, a obra de Peyraut penetrou em todos os meios, foi bem recebida pelos clérigos mais humildes, divulgou-se em centenas de manuscritos em forma completa ou abreviada, nos séculos XIII e XIV, e em várias edições após a aparição da imprensa. A Suma de Peyraut é entressacada de citações da Sagrada Escritura e dos Santos Padres e, animada de profunda inspiração cristã "mergulha o leitor numa atmosfera de intensa vida espiritual". "Poucos livros da Idade Média, observa Dondaine, foram tão perfeitamente independentes do seu tempo, pois Guilherme Peyraut escreveu uma suma da vida moral, que valerá por todo o tempo em que houver homens para praticar as virtudes cristãs". E, se Aristóteles nela não é quase contemplado, é preciso não esquecer que a Ética a Nicômaco só foi conhecida em tradução completa cerca de 124514. Por isso, Peyraut recorre principalmente aos moralistas latinos como Sêneca, Cícero e Macróbio, e a Santos Padres como Agostinho, Gregório Magno e, sobretudo, a São Bernardo. Os seus contemporâneos exaltaram o valor da Suma dos vícios e das virtudes para a pregação e, segundo Dondaine, "sobre ser de uma riqueza espantosa", ela poderia muito bem ser utilizada com proveito pelos pregadores de nossa época, pois a sua doutrina tem valor perene.

 

Além da Suma, Guilherme Peyraut deixou uma coleção de Sermões sobre os domingos e as festas litúrgicas, um Comentário sobre a fórmula da profissão religiosa beneditina, o tratado De eruditione religiosorum com um prefácio e seis livros, e um tratado, o De eruditione principum, em sete livros, que pode ombrear com as obras congêneres escritas em sua época. e no qual Peyraut restringe ao máximo a legitimidade da pena de morte.

 

Como vamos ver, o opúsculo pedagógico de Guilherme de Tournai comporta as mesmas características que a grande obra do seu confrade, de Peyraut, já que se inspira nas fontes escriturísticas e patrísticas, e se socorre dos clássicos, embora só faça 18 citações de autores profanos, e teve alcance prático para a educação dos meninos, e para os pregadores que lhes deviam fazer exortações, de tal modo que, consoante a Fluck, pode ainda hoje ser lido, meditado e seguido pelos educadores, pelos pais de família e pelos orientadores cristãos da juventude, como os irmãos e os sacerdotes das congregações dedica- das ao ensino e à formação de meninos e meninas. Assim como Dondaine acha que a Suma dos vícios e das virtudes de Guilherme Peyraut ainda pode ser utilizada com proveito pelos pregadores de hoje, Fluck afirma que um pregador moderno poderia explorar com fruto a pequena obra de Guilherme de Tournai, que nunca teve pretensão à originalidade nem à sutileza, e sequer se ocupou de filosofia da educação, como o fizeram Sto. Agostinho, no fim do mundo antigo, e Sto. Tomás de Aquino, no século XIII, nos seus respectivos tratados De magistro.

 

Guilherme de Tournai desenvolve o seu pensamento a respeito da educação dos meninos, de acordo com uma técnica peculiar aos autores medievais, particularmente aos pedagogos. Enunciado o tema, ele alinhava textos sacros ou profanos, às vezes com algumas observações de permeio. Esse modo de exposição é típico do seu contemporâneo Gilberto de Tournai no De modo addiscendi, conquanto este autor franciscano seja mais original e se exprima pessoalmente de modo muito mais aberto que Guilherme de Tournai. Em compensação, o dominicano Frei Bartolomeo da San Concordio (1262-1347) adota um processo expositivo idêntico ao de Guilherme, mas de modo ainda mais restrito, pois não esmalta o texto com ponderações pessoais, e se adstringe a enfileirar citações de autores sacros e profanos, após a enunciação do tema, na sua obra pedagógica Ammaestramenti degli Antichi15.

 

Em consonância com as Atas do Capítulo Geral de Paris, em 1264, Guilherme de Tournai confessa no início da sua obra não poder furtar-se à incumbência de compilar um livreto (libellum) sobre a instrução dos meninos para que, extirpados os vícios, eles venham a ser cuidadosamente educados em matéria de fé e de costumes. Adianta, ainda, que o seu trabalho é despretensioso e modesto, já que seria sinal de soberba exprimir mais conceitos sutis que proveitosos. Ele oferece o seu compêndio sobre a educação dos meninos a quem possa interessar: "Sumat ergo, qui voluerit, quod pro pueris instruendis est oblatum". Passo agora a apresentar os ensinamentos pedagógicos de Guilherme de Tournai na mesma ordem em que ele os desenvolve no seu opúsculo.

 

O primeiro tema examinado por Guilherme é o da instrução dos meninos, De instructione puerorum. Conforme as palavras de Jesus a São Pedro: "Simão, filho de João, tu me amas mais do que estes?... Apascenta as minhas ovelhas", a instrução dos meninos é preceito divino, dever do pastor e alimento das ovelhas, dever que se estende à formação moral, ao ensino da ciência da salvação, e que constitui, da parte do educador, uma prova de amor a Deus e ao próximo16. O que se confirma com vários passos das obras de S. Gregório Magno, São Beda e do Sábio, isto é, Cícero; e esse dever é excelentemente resumido por S. João Crisóstomo que assegura: "Nada é tão agradável a Deus como viver para a utilidade comum".

 

Comprova-se que os meninos devem ser instruídos, através dos ensinamentos da Sagrada Escritura - argumento de suma autoridade -, através da razão, e da apresentação de exemplos. Diz a Bíblia: "Presta muita atenção em tua vida, para não esquecer as coisas que os teus olhos viram, e para que elas nunca se apartem do teu coração, em nenhum dia da tua vida. Ensina-as aos teus filhos e aos teus netos" (Dt 4,9), o que se reforça com outros lanços do Livro Sagrado. Assentado o princípio de que os meninos devem ser instruídos segundo o preceito divino, aduzem-se razões ou argumentos em favor dessa causa. A primeira e que é preciso extirpar a inclinação para o mal que se acha principalmente nos jovens. 'Quem ignora, com efeito, com que ignorância da verdade, já patente nas crianças, e com que abundância de vã cobiça, que começa a aparecer nos meninos, vem o homem a este mundo? Se lhe fosse dado viver de acordo com os seus caprichos, e fazer o que lhe aprouvesse, ele viria a cometer todos ou muitos dos crimes mencionados e outros não lembrados". Tal, o ensinamento de Sto. Agostinho na sua obra De civitate Dei (Lib. XXII, 22, 1). E mais, diz o inspirador principal de Guilherme de Tournai: "Aqui não se percebe a que está sujeita e inclinada a natureza viciosa, forçada como que por peso, e de quanta força ela precisa para se ver livre de tudo isso?" (Ib., XXII,22,2). Por isso, diz São Paulo: "Exorta, também, os jovens para que em tudo sejam criteriosos"17.

 

Outro argumento com que justificar a instrução dos meninos, é que eles podem ser mais facilmente instruídos e habituados ao bem, enquanto são de tenra idade do que ao se acharem empedernidos nos vícios, pois os perversos dificilmente se corrigem, máxime os endurecidos no mal. Por isso, os jovens são educados mais facilmente do que os velhos na ciência e nos costumes. Daí afirmar Ovídio: "É um menino, na idade branda, que se deixa guiar"18. O mesmo ensinam autores de prol, sacros e profanos. Assim, os nossos meninos, prossegue Guilherme, seriam bons cristãos, se fossem meticulosamente instruídos desde cedo.

 

Por fim, outra razão de se instruírem os meninos é que a boa educação pode enraizá-los e confirmá-los no bem, pois o que eles tiverem recebido na juventude, guardarão firmissimamente até ao fim. Atesta-o Salomão, ao sentenciar: "Ensina a criança no caminho que deve andar, e mesmo quando for velho não se desviará dele"19. O mesmo acontece com o menino afeito ao vício, como diz Quintiliano: "Mais fácil é quebrar do que corrigir quem se endureceu no mal"20. E o douto médico Galeno afiança: "O hábito é uma segunda natureza". Desses e doutros assertos respeitáveis colhe-se que o hábito confirma o homem, tanto no bem como no mal.

 

Passa, então, Guilherme a aduzir exemplos que lhe corroborem a doutrina, e que se rastreiam nas vidas de Abraão, Davi. Tobias, S. Bernardo e Sto. Agostinho. "Iahweh, reza o Gênesis, disse consigo: Ocultarei a Abraão o que vou fazer, já que Abraão se tornará uma nação grande e poderosa, e por ele serão benditas todas as nações da terra? Pois eu o escolhi para que ele ordene a seus filhos e a sua casa depois dele que guardem o caminho de Iahweh, realizando a justiça e o direito; deste modo Iahweh realizará para Abraão o que lhe prometeu"21. Salomão confessa ter recebido a devida instrução de seu pai Davi: "Também eu fui filho do meu pai, amado ternamente por minha mãe. Ele me instruiu assim: Conserva minhas palavras no teu coração, guarda os meus preceitos e viverás"22. E mais: "Aproximando-se o fim de sua vida, Davi ordenou a seu filho Salomão: Vou seguir o caminho de todos. Sê forte e porta-te varonilmente", etc.23. Famoso, outrossim, foi o exemplo de Tobias que ensinou ao filho a temer a Deus e a abster-se de todo o pecado. Lembre-se, ainda, o exemplo de Susana de quem diz o profeta: "Seus pais também eram justos e haviam educado a filha na lei de Moisés"24. Aleta, a mãe de São Bernardo, educou seis filhos e uma filha com a máxima diligência, acostumando-os às austeridades, formando-os e preparando-os para o serviço de Deus. Sto. Agostinho confessa que sua mãe, Mônica, advertia-o com grande solicitude a não fornicar e, principalmente, a não cometer adultério, "conselhos que me pareciam de mulherinhas e que eu me envergonhava de acatar; no entanto, esses eram conselhos teus, ó meu Deus". E acrescenta: "Ela nutrira os filhos, dando-os tantas vezes à luz, quantas percebia que se desviavam de Ti"25.

 

Exemplos desse porte, conclui Guilherme de Tournai, demonstram suficientemente que os meninos devem ser instruídos.

De seguida, passa Guilherme a tratar das pessoas que têm o dever de instruir os meninos, e das que se acham incumbidas dessa tarefa por um compromisso espiritual. De acordo com as indicações da Sagrada Escritura, esse dever da instrução compete, em primeiro lugar, aos pais carnais e aos espirituais, e eles próprios arriscam-se a perder-se, caso os filhos se tornem indisciplinados, pois diz o Sábio: "Um filho maleducado é a vergonha do pai"26, ao passo que os pais prudentes são glorificados pelos bons filhos. Os meios imprescindíveis à instrução vêm a ser a palavra, o exemplo e a vara. Salomão ensinou sobre o primeiro meio: "Escutai, ó filhos, a disciplina paterna... Conserva minhas palavras no teu coração, guarda os meus preceitos, e viverás"27. Os conselhos paternos, no entanto, hão de ser corroborados pelo bom exemplo dado pelos próprios pais. "O pai deve viver de tal modo, diz Guilherme, que o filho perceba como se deve viver". Contudo, se as palavras e o bom exemplo não levarem o menino a corrigir-se, os pais deverão recorrer ao castigo, a empregar a vara decantada pelas Sagradas Letras. "Obriga-o a curvar a espinha na sua juventude, bate-lhe nos flancos, enquanto é menino"28, pois "quem poupa a vara odeia o seu filho, aquele que o ama aplica a correção"29, preceitos encomiados por Sto. Agostinho30, e que Guilherme endossa com dizer: "Multa autem bona proveniunt ex verberatione filiorum, quia sic de corde stulticia expellitur". O castigo físico produz muitos bens, já que por esse meio a estultícia é expelida do coração.

 

Assentada a obrigação de os pais instruírem os filhos, prossegue Guilherme, cumpre tratar do dever educativo dos padrinhos de batismo. "A insistência do autor, diz Fluck, sobre as obrigações dos padrinhos merece ser salientada, sobretudo em nossa época, quando o esforço dos pastores tende a revalorizar essa função tão depreciada na estima dos nossos cristãos modernos, ainda mesmo fervorosos"31. Essa diretiva de Guilherme de Tournai cresce de monta em nossos dias, após o Concílio Vaticano II e a renovação da catequese. O Decreto Ad Gentes esclarece que "o catecumenato não é mera exposição de dogmas e preceitos, mas uma educação de toda a vida cristã e um tirocínio de certa duração, com o fim de unir os discípulos com Cristo seu mestre", e lembra que "a iniciação cristã no catecumenato não é apenas tarefa dos catequistas e sacerdotes, mas de toda a comunidade dos fiéis, de modo especial, dos padrinhos"32. Segundo Guilherme, estes devem zelar pelos afilhados, a fim de que guardem a castidade, amem a justiça e sejam imbuídos de caridade: a castidade quanto a si mesmos, a justiça quanto ao próximo, e a caridade ou amor para com Deus. Antes de tudo, é preciso ensinar-lhes a recitar com devoção as orações do Credo e do Pai-Nosso. Amparado nos textos sagrados e patrísticos, Guilherme explica minudentemente como essas virtudes devam ser inculcadas nos meninos. "Eles devem guardar a castidade ou continência, afirma, até se unirem a uma companheira pelo matrimônio. Por isso, os pais e os padrinhos aconselhem os filhos a evitarem as meretrizes, e a fugirem dos bailes e das festas que são ocasiões próximas de pecado e muito desagradam a Deus. Como diz Iahweh a Isaías: 'As vossas luas novas e as vossas festas, a minha alma as detesta; elas são para mim um fardo; estou cansado de carregá-lo'"33. Os meninos devem aprender, principalmente, a fugir de certas mulheres, segundo o conselho do Apóstolo: "Fugi da fornicação. Todo outro pecado que o homem cometa é exterior ao seu corpo; aquele, porém, que se entrega à fornicação; peca contra o próprio corpo"34. Sigam os meninos o exemplo do casto José que se salvou da sedução da mulher de Putifar por meio da fuga, deixando nas mãos dela a própria roupa35. Salomão, com toda a sua sabedoria, teve o coração pervertido por mulheres, pois a luxúria é um fogo devorador, que põe a perder até mesmo velhos sábios e experientes.

 

Os padrinhos devem advertir seus afilhados para que amem a justiça, isto é, a não prejudicarem o próximo agindo como usurários, comerciantes desonestos, como ladrões e usurpadores, pois quem foi batizado, renunciou ao demônio, a todas as suas pompas, obras, ídolos, sortes, augúrios, furtos, fraudes, fornicações, bebedeiras e mentiras. E essa renúncia, proferida por ocasião do batismo, deve ser praticada não só com a palavra, mas com a ação, a conduta, os costumes.

 

Os padrinhos devem aconselhar aos seus afilhados a caridade, isto é, o amor a Deus e a freqüência à igreja. Grandes e pequenos, aliás, diz Guilherme, devem habituar-se a permanecer no templo que é a casa de Deus, refúgio contra os ataques do demônio, escola do Senhor para a instrução dos fiéis, lugar de oração, conforme as palavras de Jesus: "Está escrito: A minha casa será chamada casa de oração"36. Diz Guilherme que, principalmente, os jovens devem ir à igreja para serem aí instruídos pela pregação, para se afervorarem com as orações, e para adquirirem bons costumes à vista dos exemplos das pessoas piedosas.

 

Por fim, Guilherme passa a falar dos professores. "Não são apenas os pais e os padrinhos, escreve, que devem instruir os meninos mas, também, os professores que ocupam o lugar dos pais, como diz Quintiliano: "Antes de tudo, deve empregar-se o maior cuidado para que a conduta irrepreensível do mestre preserve de todo dano os tenros anos... Revista-se o mestre da natureza de pai para com os seus discípulos, e considere que lhes sucede no ofício dos que lhe confiaram seus filhos37, e aconselho aos discípulos a que não tenham menos amor aos seus mestres que ao estudo, persuadindo-se de que eles são pais, não corporais, mas espirituais"38.

 

Ao discorrer sobre os professores, Guilherme observa que o mestre (doctor) deve ser homem morigerado, isento de vícios, merecendo grande reprovação aquele que negligencia a instrução e a educação moral dos meninos por causa da ambição de dinheiro.

 

Todos os capítulos restantes do De instructione puerorum são dedicados às matérias de ensino, isto é, a tudo aquilo em que os meninos devem ser instruídos, a saber, a fé, os costumes e a ciência. A instrução na fé equivale à educação religiosa. Guilherme disserta sobre os diferentes modos de receber a fé, sobre a sua regra que é o Símbolo dos Apóstolos, sobre a harmonia que precisa existir entre a fé e a vida; sobre as superstições que o cristão deve evitar, remetendo o leitor, desejoso de minúcias, à obra de Guilherme de Peyraut, Summa de virtutibus. A fé, ensina Guilherme, recebe-se por inspiração, pelo ensino ou pregação, por razões naturais e por revelação pelas figuras, como Abraão39. O Credo, Símbolo dos Apóstolos, é distintivo dos cristãos, batizados em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Por isso, antes de empreender qualquer viagem ou obra, antes de dormir e ao acordar, deve o cristão fazer o sinal da cruz, e recitar com fé e devoção o Credo e o Pai-Nosso, orações e gestos que o fortalecem contra os ataques de todos os inimigos, contra as insídias do demônio e os perigos para a salvação. Guilherme delineia, então, o retrato do bom cristão, mostrando que ele não se deixa seduzir por superstições, e que procura informar a conduta com o espírito de fé, pois o homem deve ser cristão não só de nome, mas na vida e na conduta, como verdadeiro imitador e discípulo de Nosso Senhor Jesus Cristo, como homem que observa a justiça, a bondade, a integridade, a paciência, a castidade, a prudência, a benevolência, a inocência e a piedade.

 

Tocante à educação moral, Guilherme ensina que, em primeiro lugar, o menino deve adquirir o temor de Deus e, depois, aprender a obedecer aos pais, a respeitar as pessoas idosas, e a praticar a castidade, a humildade, a clemência, o pudor e as demais virtudes, apontando Nepociano, amigo de S. Jerônimo, e S. Basílio, quando jovem, como modelos concretos das virtudes recomendadas. Guilherme insiste quanto à honra devida aos pais, recomendação preciosíssima nesta nossa época final do século XX, quando avulta o desrespeito aos progenitores, e quando tantos filhos, lamentavelmente, deixam de cumprir as suas obrigações para com os pais, idosos ou necessitados.

 

Num capítulo consagrado aos "costumes das virgens", Guilherme menciona as meninas, e diz que elas, assim como os meninos, tam pueri quam puelle, devem ser educados nas virtudes, segundo os ensinamentos de S. Cipriano, Sto. Ambrósio e S. Bernardo. São Paulo, diz ele, escreve aos coríntios: "Qual foi o homem terrestre, tais são também os terrestres. Qual foi o homem celeste, tais são os celestes. E, assim como trouxemos a imagem do homem terrestre, assim também traremos a imagem do homem celeste"40. Ora, prossegue o pedagogo dominicano, só podem ser portadores da imagem celeste os que lembram, e põem em prática os preceitos de Deus, e se mostram, ao mesmo tempo, justos e religiosos, firmes na fé, humildes no temor, fortes ante as dificuldades, mansos perante as ofensas, misericordiosos, pacíficos e cordiais.

 

Chega-se, então, ao capítulo consagrado à educação intelectual, mas o leitor se decepciona por não encontrar referência alguma ao currículo das matérias escolares, aos programas, aos livros e aos métodos de ensino. Guilherme se propõe a examinar três pontos: em que ciência os meninos devem ser instruídos, como ela pode ser adquirida e qual a sua utilidade. É preciso saber, diz ele, que os meninos devem ser instruídos na "ciência da salvação", na "sabedoria dos santos" que consiste, segundo S. Bernardo, em chorar os pecados da vida passada, em desprezar os desejos mundanos, em buscar com ardor a vida eterna, e a busca dessa sabedoria é o consolo da vida.

 

Adquire-se a sabedoria da parte de Deus, por meio da oração; quanto ao próximo, através da instrução, e quanto a si mesmo, por meio da investigação. Inspirando-se na obra de Hugo de São Vítor, Didascalicon, Guilherme ensina, quanto ao "modo de estudar", que três coisas são necessárias aos estudantes: a natureza, o exercício e a disciplina. A natureza equivale à aptidão pessoal para compreender e memorizar; o exercício é a aplicação diligente ao trabalho; e a disciplina, que para Guilherme não é apenas intelectual, consiste na moralização dos costumes, o que se deduz da própria obra de Hugo de São Vítor, já que o próprio Guilherme não desenvolve esse aspecto da formação no citado capítulo.

Depois de haver examinado a educação religiosa, moral e intelectual, de um modo que hoje nos parece tão perfunctório, principalmente à vista de outras obras medievais sobre a educação, Guilherme termina o seu opúsculo com uma nota sobre o governo da família, De familia regenda, estribado num escrito antigo, De salutaribus documentis, que ele atribui a Sto. Agostinho41. Ele chama a atenção para a necessidade de se instruírem no lar não só os filhos e as filhas como, também, os empregados e as criadas, tam servi quam ancille. A família inteira, escreve, deve ser pura nos seus membros, fiel e compassiva para com o próximo, humilde e sujeita a Deus. Na linha dessa instrução da família inscreve-se o cuidado, tipicamente cristão, com os pobres. Se queres obedecer a Deus, compadecer-te do próximo e ser recompensado no futuro, aconselha, voca pauperes, chama os pobres para o banquete corporal, para o espiritual e o celeste. Não nos contentemos com as palavras e as belas promessas, mas convidemos sincera e alegremente os pobres para compartilharem dos nossos bens, socorrendo-os com as esmolas, dando-lhes o necessário para se alimentarem, ajudando-os a enfrentar as dificuldades da vida. Esse é o chamado ao banquete corporal. Todavia muito mais importante é convidá-los e compeli-los ao banquete espiritual, cujo alimento lhes é servido com a graça divina, nutrição da alma; com a palavra de Deus, pábulo da mente, e com a doçura da devoção, tal como recomenda S. Pedro: "Desejai, como crianças recém-nascidas, o leite espiritual..."42. Os pobres devem ser chamados e levados ao banquete da glória, conforme o preceito de Jesus: "Quando deres uma festa, chama os pobres, estropiados, coxos, cegos; feliz serás, então, porque não têm com que te retribuir. Serás, porém, recompensado na ressurreição dos justos... Feliz aquele que tomar refeição no Reino de Deus"43.

 

Os pobres devem ser incitados a comparecerem à igreja para rezar e receber boas esmolas. Entretanto, é preciso exercer o discernimento quanto a eles, para que a obra de misericórdia corporal seja praticada de modo lúcido e proveitoso. Há sete espécies de maus pobres, adverte Guilherme: os soberbos, que se revoltam e encolerizam contra a própria condição, os avarentos ou cobiçosos que roubam os bens alheios, os gulosos e luxuriosos cujos vícios os amarram à miséria; os preguiçosos, que preferem a mendicância ao trabalho; os mentirosos, que vivem da fraude; os impacientes nas adversidades, e os caluniadores que prejudicam os seus míseros companheiros. Em compensação, existem os que aceitam a pobreza por amor do Reino do Céu, como os apóstolos e os homens apostó1icos (os frades mendicantes). Esta pobreza deve ser amada, pois ela ajuda a vencer as tentações, a progredir espiritualmente, a viver seguro da vida eterna, a adquirir o Paraíso, a gozar em abundância dos bens espirituais, a adelgaçar o homem para que possa passar pela "porta estreita". Assim como não se entra neste mundo senão com a pobreza corporal, com total despojamento, assim não se entra no céu a não ser com a pobreza espiritual, lembra Guilherme, pois como ensina Jesus, é muito difícil a um rico entrar no Reino do Céu. Por isso, e por outros motivos, ainda, conclui Guilherme tal como diz Peyraut na Summa de virtutibus: "A pobreza deve ser amada e suportada", e só a pobreza de espírito garante a entrada no Reino de Deus.

 

O opúsculo De instructione puerorum traz apensos os dois sermões para os meninos das escolas. Um deles versa sobre a sabedoria, e o outro sobre a disciplina. Cumpre buscar a verdadeira sabedoria, diz Guilherme, no tempo devido e da maneira conveniente. É preciso fugir à "sabedoria má", feita de cobiça, orgulho e luxúria; à "sabedoria vã" que só satisfaz à curiosidade e não concorre para o bem definitivo do homem, e à "sabedoria supérflua", excesso inútil de conhecimento, demasia que impede a ascensão espiritual. Procure-se deveras a "verdadeira sabedoria", doce (ratione saporis), irradiante (candor lucis eterne), preciosa (ratione utilitatis). Essa é a sabedoria que ajuda o cristão a resistir ao mal, e serve para fazer o bem, conduz à glória eterna, ensina a fugir dos perigos e a suportar os sofrimentos.

 

A sabedoria deve ser adquirida desde cedo, já na puerícia. A juventude, em sentido amplo, é a idade pura, aberta e disponível para a ação dos mestres e da graça divina. Quem segue o caminho reto desde pequeno, crescerá na abundância dos bens espirituais que importam à salvação. O modo conveniente de adquirir essa sabedoria é a vida correta, a aplicação ao estudo, a docilidade aos mestres, a correção feita por palavras e por castigos, a prática da justiça e, finalmente, a oração, pois, como diz S. Tiago: 'Se alguém dentre vós tem falta de sabedoria, peça-a a Deus, que a concede generosamente a todos"44.

 

O sermão sobre a disciplina desenvolve o tema em sentido estritamente religioso e moral. "Casas da Disciplina" são a igreja, onde se aprende a amar a Deus; as escolas, onde os alunos são instruídos e adquirem a ciência, e a religião, na qual eles são protegidos. A disciplina é tríplice: forma a mente para ser criteriosa; o coração para ser puro; a boca para ser veraz, e a conduta para ser justa e bondosa. Os meninos devem ser acolhidos nas casas da disciplina para se premunirem contra a tempestade da cobiça, o dilúvio da luxúria e a guerra da soberba. Só a disciplina os conduzirá pelo caminho reto à morada eterna e feliz.

 

Guilherme de Tournai encerra o seu pequeno tratado, dizendo que examinou os temas de modo sumário, a fim de que o leitor perceba como é difícil aos velhos se desprenderem da rotina, dos hábitos inveterados, e como é fácil, útil e louvável, instruir os meninos. Não proceder a esse labor educativo, declara, é algo sumamente culposo e prejudicial. O frade pregador despede-se com as palavras: "Peço a quem souber mais do assunto, que diga e faça melhor".

 

Guilherme de Tournai desincumbiu-se ciosamente da tarefa que lhe fora delegada pelo Capítulo Geral da sua Ordem, e compôs um vademécum de instrução religiosa, cuja leitura e meditação sempre servirão de modelo e auxílio aos educadores e aos alunos cristãos.

 

Uma passagem do De modo docendi pueros de Guilherme de Tournai

 

Notandum est quod doctor debet esse plenus bonis moribus et a viciis alienus. Unde philosophus: "Nemo recte monitoris personam suscipit nisi qui actibus suis errata condempnat et amorem innocentie conversatione demonstrat". Quintillianus : "Doctor vicia nec habeat nec ferat. Minime quod sit iracundus, non tamen eorum que emendanda erunt dissimulator. Interrogantibus libenter respondeat, non interrogantes ultro percuntetur". Idem: ``Non solum carendum est crimine turpitudinis sed etiam suspicione". Seneca: "Eligamus non aos magistros qui verba magna cum celeritate precipitant, sed eos qui vitam docent, qui cum dixerint quod faciendum est, numquam in eo quod fugiendum dixerint comprehenduntur". Idem: "Elige adiutorem quem magis admireris cum videris quam audieris". Augustinus: "Desine inquirere nascio quem malum doctorem qui, si doctor, est, bonus est; si malus est, doctor non est". Boecius: "Quisquis officium magistri prosequi desiderat universa morum honestate oportet ut polleat".

TRADUÇÃO

 

Deve notar-se que o mestre deve ser uma pessoa de bons costumes, isento de vícios, pois disse um filósofo: "Ninguém pode assumir devidamente o papel de orientador, se não demonstrar com as suas ações que condena as coisas erradas, e se não revela no seu convívio o amor da pureza.

 

Quintiliano (Inst. Orat., II, 2, 5) diz que "o mestre não pode ter vícios nem consenti-los nos seus discípulos. Tampouco deve ser um homem colérico nem dissimular o que deve ser emendado. Deve responder de boa vontade aos que lhe fizerem perguntas e, além disso, fazê-las aos que se mantenham calados". Quintiliano acrescenta que "o professor não só deve evitar qualquer ação indecorosa, como sequer deve ser alvo de suspeita a tal respeito". Sêneca proclama (Ep. Mor. 52, 8): "Não escolhamos aqueles professores que se derramam atabalhoadamente em palavras altissonantes, mas os que ensinam a bem viver e, ao dizerem o que se deve fazer, não se contam entre os que incidem naquilo mesmo que dizem deva ser evitado." O mesmo filósofo ainda afirma: "Escolhe para te ajudar quem mais admires ao ver do que ao ouvir.

 

Sto. Agostinho, por sua vez, declara (De lib. arbitr., I, 1, 3): "Desiste de procurar por não sei que mau doutor ou mestre, porque se é, de fato, doutor, é bom, e se não o for, é mau". Boécio, por fim, adianta: "Quem quer que deseje exercer a profissão de mestre, precisa sobressair por completa honestidade de costumes."

NOTAS

 

1. ISIDORI HISPALENSIS EPISCOPI, Etymologiarum sive Originum Libri XX. Ed. Lindsay. Oxford, 1966, T. II, Lib. Xl, cap. II.

2. S. THOMAS, Commentum in Quartum Librum Sententiarum, Distinctio XL, Quaestio I, Art. IV et Expositio textus. Editio leonina, p. 1035.

3. O Diário de um Estudante foi publicado por Messer na sua obra Geschichte der Paedagogik. Breslau, Ferdinand Hirt, 1931, 3 vol.

Sobre o papel educativo das mulheres e sobre a educação das meninas consultem-se obras como as de Régine Pernoud, La femme au temps des cathédrales. Paris, Stock, 1980 (há uma tradução portuguesa), e de Eileen Power, Les femmes au Moyen Age. Traduit de l'anglais par Jean-Michel Denis. Paris, Aubier-Montaigne, 1979.

4. LESTER KRUGER, The Perfect Prince: a study in thirteenth and fourteenth Century Ideals, in Speculum, vol. III, 1975, pp. 470-504.

Sobre a situação das escolas elementares consulte-se LYNN THORNDIKE, Elementary and secondary Education in the Middle Ages, in Speculum, vol. XV, 1940, pp. 400-408.

5. MCCARTHY, JOSEPH M., Humanistic Emphasis in the Educational Thought of Vincent of Beauvais. Leiden-Koeln, E. J. Brill, 1958, 182 pp. —ASTRIK GABRIEL, The Educational Ideas of Vincent of Beauvais. Indiana, The University of Notre Dame Press, 1962, 66 pp.

6. GILBERTO DE TOURNAI, De modo addiscendi. Introduzione e Testo inedito a cura di E. Bonifacio. Torino, Società Editrice Internazionale, 1953. Sobre a pedagogia de Gilberto de Tournai veja-se o meu livro: RUY AFONSO DA COSTA NUNES, A Formação Intelectual segundo Gilberto de Tournai. São Paulo, MEC-INEP, 1970, 227 pp. (Série I, Estudos e Documentos, vol. 7)

7. L. BAUDRY, Wibert de Tournai, in Revue d'Histoire Franciscaine. Janvier-Juin, 1928, pp. 23-61. Veja-se, também, o artigo de Jean Labbens, L'oeuvre de Guibert de Tournai, in Bulletin des Facultés Catholiques de Lyon. Juillet-Décembre, 1938, pp. 26-31.

8. JAMES A. CORBETT, The De instructione puerorum of William of Tournai, O.P. Notre Dame, Indiana, U.S.A. The Mediaeval Institute. University of Notre Dame, 1955, 50 pp. (Texts and Studies in the History of Mediaeval Education. Edited by A. L. Gabriel and J. N. Garvin, n. III).

— R. FLUCK, Guillaume de Tournai et son Traité "De Modo Docendi Pueros", in Revue des Sciences Religieuses, Tome XXVII (1953), pp. 333-356.

9. STEPHANUS DE SALANIACO et BERNARDUS GUIDONIS, De Quatuor in quibus Deus Praedicatorum Ordinem insignivit. Edidit Thomas Kaeppeli, O.P. (Monumenta Ordinis Fratrum Praedicatorum Historica, vol. XXII). Roma, Instituto Storico Domenicano, Santa Sabina, 1949, 210 pp.

10. P. GLORIEUX, Répertoire des Maitres en Théologie de Paris au XIIIe Siècle. Paris, Librairie Philosophique J. Vrin, 1933, pp. 130-131.

11. Priores provinciales habeant curam quod praedicetur pueris in scholis. et confessiones eorum. Si ipsi confiteri voluerint, audiantur. Et praedicantibus dictis pueris, fiat copia de libello, qui est compilatus de hiusmodi praedicacione". Acta Capituli Generalis Parisius celebrati anno Domini 1264, in Acta Capitulorum Generalium, vol. I. Recensuit Fr. Benedictus Maria Reichert, Roma (Monumenta Ordinis Fratrum Praedicatorum Historica, Tomus III), 1898, p. 125.

Em apêndice ao De instructione puerorum, ed. Corbett, aparecem os dois sermões para meninos: Sermo ad pueros in scholis, et item Alius sermo.

12. As apostilas eram comentários escriturísticos compostos nas escolas de teologia. O termo, quiçá, deriva das palavras latinas "post illa verba". DU CANGE, Glossarium mediae et infimae latinitatis Vl (1886), 434. BERIL SMALLEY, The Study of the Bible in the Middle Ages. Indiana, University of Notre Dame Press, 1964. Chapt. Vl, The Friars. I. Postills and Postillators, particularmente as páginas 270 e seguintes.

13. ANTOINE DONDAINE, O.P., Guillaume Peyraut. Vie et Oeuvres, in Archivium Fratrum Praedicatorum, vol. XVIII, 1948. Roma, Instituto Storico domenicano di S. Sabina, 1948, pp. 162-236.

14. "Autour de 1230-1240, le programme des études inclut de grosses tranches de texte d'Aristote, et particulièrement de I'Ethica Vetus et nova". M. D. Chenu, O.P., Introduction a I'etude de Saint Thomas d'Aquin. Deuxième édition. Montréal, Institut d'Études Mediévales/Paris, Librairie Philosophique J. Vrin, 1954, p. 32.

Hermann, o Alemão, traduziu a Ética a Nicômaco do árabe para o latim em 1240. Diversos fragmentos da Ética a Nicômaco, vertidos do grego, circulavam na primeira metade do século XIII e, à roda de 1240-1243, Roberto Grosseteste empreendeu, na Inglaterra, a primeira tradução greco-latina de toda a Ética a Nicômaco. FERNAND VAN STEENBERGHEN, La Philosophie au XIIIe Siècle. Louvain, Publications Universitaires/Paris, Béatrice-Nauwelaerts, 1966, p. 116.

15. FRA BARTOLOMEO DA SAN CONCORDIO, Ammaestramenti degli Antichi Latini e Toscani. Raccolti e volgarizzati. Ridotti a miglior lezione coll'aiuto de Codici e corredati di note dal Prof. Vinc. Nannucci. Firenze, Presso Ricordi e Compagno, 1840, 671 pp.

16. Joao, XXI, 15. Nas citações da Sagrada Escritura sigo o texto da Bíblia de Jerusalém. São Paulo, Edições Paulinas.

17. Epístola a Tito, II, 6.

18. "Sed puer est. aetas mollis et apta regi". P. OVIDII NASONIS Artis Amatoriae (A Arte de Amar). Liber Primus, 10.

19. Provérbios, XXII, 6.

20. "Frangas enim citius quam corrigas, quae in pravum induruerunt". M. FABIUS QUINTILLIANUS, Institutiones Oratoriae Libri Duodecim (A Educação do Orador), I, 3, 12.

21. Gênesis, XVIII, 17-19.

22. Provérbios, IV, 3.

23. I Reis, II, 1-2.

24. Daniel, XIII, 3.

25. "Volebat enim illa, et secreto memini ut monuerit cum sollicitudine ingenti, ne fornicarer maximeque ne adulterarem cuisquam uxorem. Qui mihi monitus muliebres videbantur, quibus obtemperare erubescerem''. S. AUGUSTINUS, Confessiones. Lib. II ,3,7.

"Nutriebat filios totiens eos parturiens, quotiens abs te deviare ernabat". Ib., Lib. IX, 10,22.

26. Eclesiástico, XXII, 3.

27. Provérbios, IV, 1-4.

28. Eclesiástico, XXX, 12.

29. Provérbios, XIII 24.

30. S. AUGUSTINUS, De civitate Dei, XXII, 22, 2.

31. FLUCK, R., Guillaume de Tournai et son Traité "De modo docendi pueros", in Revue des Sciences Religieuses, T. XXVII (1953), p. 342.

32. Compendio do Vaticano 11. Constituições, Decretos, Declarações. 3 edição. Petrópolis, Vozes, 1968, n. 894 e 897.

33. Isaías, 1, 14.

34. I Coríntios, VI, 18.

35. Gênesis, XXXIX, 7.

36. Mateus, XXI, 13.

37. "Ideoque maior adhibenda tum cura est, ut et teneriores annos ab iniuria sanctitas docentis custodiat... Sumat igitur ante omnia parentis erga discipulos suos animum, ac succedere se in eorum locum, a quibus sibi liberi tradantur, existimet". QUINTILLIANUS, Inst. Orat. Liber II, cap. 2, 3-5.

38. Plura de officio docentium locutus discipulos id unum interim moneo, ut praeceptores suos non minus quam ipsa studia ament, et parentes esse non quidem corporum sed mentium credant". Ib., Lib. II, cap. IX, 1.

39. Por inspiração: "Paulo, apóstolo — não da parte dos homens nem por intermédio de um homem, mas por Jesus Cristo e Deus Pai que o ressuscitou dentre os mortos..." Gálatas, I, 1.

Pelo ensino: "Pois a fé vem da pregação e a pregação é pela palavra de Cristo". Romanos, X, 17.

Por razões naturais: "Sua realidade invisível —seu eterno poder e sua divindade — tornou-se inteligível, desde a criação do mundo através das criaturas, de sorte que não têm desculpa". Romanos, I, 20. Por revelação pelas figuras, cf. Gênesis.

40. I Coríntios, XV, 49.

41. "Note de familia regenda. Elle s'inspire d'un passage du De salutaribus documentis, chap. XXIX. PL, XL, 1057, qu'il attribue à saint Augustin. Sur l'auteur cf. D.T.C., art. Augustin, 2309". FLUCK, ib., p. 348, note 1.

42. I Pedro, II, 2.

43. Lucas, XIV, 13-15.

44. Tiago, I, 5.