Para Falar a Verdade

Tomás de Aquino Verdade e conhecimento,
 São Paulo, Martins Fontes, 1999, 408 páginas.

 

Gabriel Perissé
perisse@uol.com.br

 

 

Quando Bertolt Brecht escreveu — "a verdade é filha do tempo e não da autoridade" — denunciava o esforço autoritário de impor dogmas que não resistem à cobrança mais radical de todas. As verdades cujo prazo de validade se esgota em alguns anos são mentiras camufladas, manipulação da linguagem, arremedos de verdade que, como tais, causam medo, e não alegria.

 

Conhecer gera prazer. O prazer intelectual de analisar, compreender, sintetizar, rever, concluir, ampliar... é um dos prazeres mais intensos já experimentados pelo ser humano. Conhecer significa buscar a verdade, falar a verdade, revisitar a verdade, sem pagar nenhum tributo a modas fugazes, a preferências pessoais ou a interesses políticos — conhecer é buscar e encontrar o quid das coisas, ou, como dizia Guimarães Rosa numa frase enigmática: o quem das coisas.

 

Conhecer é encontrar. Encontrar uma verdade exige método. E talvez um dos métodos mais resistentes ao tempo (e por este confirmado) seja o adotado por um frade do século XIII, Tomás de Aquino, que consiste em apresentar frases de autores consagrados, entendê-las e contestá-las com todo o rigor, e chegar a novas verdades, sem se preocupar em agradar gregos ou árabes, cristãos ou pagãos, agostinianos ou dominicanos, até mesmo tomistas ou anti-tomistas. Seu único desejo é detectar, verbalizar a verdade.

 

Verdade e conhecimento, recentemente publicado, apresenta duas questões extraídas do De veritate, traduzidas e comentadas pelos professores Luiz Jean Lauand e Mario Sproviero. Uma pequena amostra de uma grande obra. Uma obra científica, de teologia sem frescuras, de raciocínios compactos, em que se pede ao leitor que cultive uma corajosa fé na razão. Que pense. Que argumente. Que esqueça seus preconceitos contra a Idade Média e a Igreja.

 

Que simplesmente pense.

Não é preciso obedecer aos tomistas para ler Tomás de Aquino. Basta lê-lo com o intuito de saborear o vinho que, com o tempo, tornou-se mais saboroso-sapiente.

 

Todo o trabalho de Tomás é, no fundo, uma busca da Verdade pessoal, no sentido mais bíblico da expressão.

 

Tomás procura o Cristo-Verdade. Busca amorosa. Busca engenhosa.

 

Conta-se que Pôncio Pilatos, diante de Cristo, fez a famosa pergunta (Quid est veritas?) nunca respondida. Mas existe uma verdade oculta nas palavras latinas. Com as mesmas letras da frase acima, Cristo teria deixado implícita a resposta demolidora: Est vir qui adest, ou seja: é o homem que está na tua presença.