Currículo e Reformas
 Curriculares

Trivium e Quadrivium - as Artes Liberais na Idade Média,
 Lênia Márcia Mongelli (coord.), Cotia, Íbis, 1999, 334 p.

 

L. J. Lauand

 

A questão do currículo está hoje no centro das discussões pedagógicas e políticas: no Brasil - e em diversos outros países - estão se implantando reformas curriculares, que procuram atender - pelo menos é o que se proclama - às exigências sociais de nosso tempo. Questiona-se o academicismo dos currículos tradicionais: que sentido tem ensinar tais e tais conteúdos? Que matemática, por exemplo, deve-se ensinar para "o exercício da cidadania"? Naturalmente, não se trata só de conteúdos, mas a própria forma de aprendizagem deve propiciar a aquisição de determinados valores etc. E assim vamos realizando nossas reformas, estabelecendo nossos parâmetros curriculares etc., regidos principalmente por doutrinas psicológicas.

 

Nossos empreendimentos curriculares encontram um sugestivo contraste na história: a experiência medieval, tal como exposta pelos oito autores de Trivium e Quadrivium (coordenação da Profa. Lênia Márcia Mongelli). Neste oportuno livro, são-nos apresentadas as concepções que a Idade Média tinha de suas disciplinas curriculares (e de seu ensino e valor educativo), as "artes liberais": o trivium (Gramática, Retórica e Dialética) e o quadrivium (Aritmética, Geometria, Música e Astronomia).

 

Além do extraordinário interesse que a obra traz para os cultores dessas disciplinas e para o estudioso de história da cultura, o próprio conceito de "arte liberal", herdado da antigüidade clássica, merece ser retomado: não em seu superado (ao menos teoricamente...) sentido social de disciplina própria para ser cultivada pelos homens livres (em oposição às artes serviles), mas em seu outro significado: aquelas disciplinas dignas de ser estudadas "por si" (livres da utilidade prática). Nesta virada de milênio em que se anuncia, para nós, o fim da "era do trabalho", a filosofia da educação pode ver na "Pedagogia das Artes Liberais" algo mais do que uma mera curiosidade histórica.

 

Há um outro ponto importante em que a experiência da educação medieval guarda certa semelhança com os problemas que enfrentamos hoje: trata-se - sobretudo nos princípios da Idade Média - de uma situação em que o patrimônio cultural e humanístico da antigüidade corre o risco de, pura e simplesmente, desaparecer. O desafio da educação medieval são os bárbaros, que ocupam o espaço do extinto Império Romano: que atitude terão para com "o currículo" clássico? Que acesso - psicológico e até físico - teriam eles, digamos, à Geometria de Euclides ou a Aristóteles?

 

Não é de estranhar, portanto, que a obra contemple, em diversos capítulos, o grande educador Boécio, o "último romano, o primeiro escolástico", em seu quase desesperado projeto pedagógico de transmitir aos bárbaros um mínimo que fosse da civilização clássica. Boécio renuncia ao brilho que poderia ter, como pensador e homem de ciência, para instalar-se no reino dos ostrogodos e tentar ensinar-lhes os rudimentos do quadrivium. Nós, hoje - novos ostrogodos, pragmáticos e com requintes tecnológicos -, podemos estar seguros da sobrevivência dos clássicos? Quem hoje lê Platão ou Dante? Quem estuda Geometria? Projetos contemporâneos minimalistas, de resumos e antologias (como os Great Books) ou, digamos, de concertos populares em parques públicos são, no fundo, medievais.

 

Desse modo, o próprio livro em questão é, ele mesmo, em certo sentido, medieval. Tal como Boécio, Beda, Alcuíno ou Isidoro de Sevilha, os autores nos põem em contato resumidamente com aquela humilde tentativa de salvar valores clássicos, com as dificuldades, acertos e desacertos de uma época que, também ela, vivia seu problema curricular (evidentemente, há notáveis diferenças em relação aos interesses de hoje: o preparo alegórico para a compreensão das Escrituras, por exemplo, era "tema transversal" nos "PCNs" medievais). Cada capítulo da obra mostra a evolução de cada "arte", desde as precárias origens de seu ensino na Idade Média, passando pelo "renascimento" do século XII e alcançando o limiar dos tempos modernos.

 

No capítulo introdutório, geral, Tereza Aline Pereira de Queiroz, descreve o alcance e o significado pedagógico das artes liberais em Roma, na transição e em plena Idade Média. Evanildo Bechara, apresenta a evolução da Gramática, a mais estudada das artes na Primeira Idade Média, com a amplitude em que era entendida na época. Particularmente interessante é o estudo sobre a inovação, iniciada no século XII, "pelos novos problemas que passaram a ser objeto da reflexão lingüística, que permitiram a passagem de uma gramática de caráter descritivo para outra com preocupações preceptivas" (p. 54). Com a redescoberta das Categorias e do De Interpretatione de Aristóteles no Ocidente, a Lógica - e sua interface com a Gramática - adquire especial relevo e já no fim do século XIII a "gramática especulativa" ocupa importante posto no cultivo dessa arte. Lênia Mongelli se encarrega da Retórica, "a virtuosa elegância do bem dizer", examinando a Retórica medieval - necessária, afinal, para a pregação religiosa - no âmbito dos embates entre a cultura sagrada e a profana, outro problema constante para os educadores da época. A autora recolhe criteriosos dados sobre essa arte (e suas disfunções...) na antigüidade e sobre sua complexidade - que, afinal, remete à complexidade do tema: palavra - que inclui uma vertente filosófica. Celina Lértora Mendoza é a autora de "Dialética medieval ou a arte de discutir cientificamente", retomando as relações desta com a gramática especulativa e a progressiva individuação da Lógica como ciência autônoma. São apresentados os grandes temas da reflexão "dialética" medieval: desde os tradicionais - como "os universais" e a silogística -, aos novos, como a teoria da suposição. César Polcino Milies apresenta a Aritmética medieval, seus curiosos conceitos e suas dificuldades (por exemplo como dividir: 234 por 19, com o sistema de numeração romano: CCXXXIV / XIX ?). A Geometria, especialmente empobrecida como ciência teórica na Primeira Idade Média, é exposta por Eduardo Carreira em sua dimensão prática, e na crescente retomada da reflexão geométrica a partir de Gerbertus (séc. XI) Aqui, particularmente, refletem-se as "contradições do sistema herdado dos romanos": a arte liberal é prática como arte (ars refere-se ao factibilium) e é teórica (liberal). As contribuições medievais para a Música (como a invenção e a evolução da notação musical) são analisadas por Gerardo V. Huseby. Também neste caso, como em todas as dimensões da cultura medieval, com seu caráter acentuadamente cristão, o problema é "como conciliar os diferentes repertórios e tradições musicais herdados da cultura greco-romana". Naturalmente, a evolução da música acompanha as exigências da liturgia e "com o correr do tempo, a linguagem musical sofreu grandes transformações no Ocidente (...) o século XIV presenciou o importante desenvolvimento de espécies polifônicas, feito que tinha sido iniciado mais de um século antes" (pp. 279-280). Amâncio Friaça, apresenta a Astronomia, destacando interessantes aspectos técnicos (como o "redespertar da Astronomia observacional", ligada a aquisição de instrumental como, por exemplo, o astrolábio) e culturais (sua ligação com interpretações filosóficas). Discute, ainda, o próprio status ontológico que a Idade Média conferia às Artes Liberais.

 

Trivium e Quadrivium - as Artes Liberais na Idade Média é uma valiosa e original contribuição que devemos à coordenadora, autores e tradutora (os capítulos referentes à Dialética e Música foram traduzidos do castelhano por Elenir Aguilera de Barros). O livro cumpre perfeitamente seu objetivo de permitir visualizar como resultante da educação medieval "a profundidade e a diversificação das ciências na modernidade globalizada deste fim de século" (p. 8).