Entrevista

Dra. Maria Cándida Pacheco

(Realizada no Porto, em 28-5-99, por Jean Lauand.

Edição de: Gabriel Perissé)

 

JL: Professora Maria Cándida, como diretora do Gabinete de Filosofia Medieval da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, poderíamos falar um pouco sobre os principais temas que a ocupam intelectualmente, no momento, e dos trabalhos do Gabinete?

 

MCP: Neste momento, interessa-me sobretudo o século XII e o século XIII. Em relação propriamente ao Gabinete, que começa a ter uma história com uma certa densidade, a sua origem ligou-se à criação do mestrado de filosofia medieval, primeiro e único mestrado nessa especialidade em Portugal. Uma especialidade que naturalmente não tem muitos alunos, mas que tem conseguido manter uma grande exigência. Um dos primeiros requisitos é que os estudantes saibam latim ou que façam um curso intensivo de latim, porquanto ao longo do mestrado se estuda também o latim medieval. De nossos alunos, dois já estão doutorados; um é professor em Coimbra, outro é-o na faculdade de teologia da Universidade católica do Porto, cinco estão já em fase adiantada de preparação dos seus doutoramentos, um dos quais é assistente aqui na Faculdade de Letras do Porto. Como havia um grande entusiasmo por temas medievais os cursos de mestrados foram se sucedendo e nós sentimos a necessidade de agrupar pessoas com interesses semelhantes. Por outro lado, também sentimos que era necessário fazer traduções de textos latinos para o português, mas traduções em que se fosse afinando uma terminologia filosófica em língua portuguesa. Reunimos pessoas que tinham uma formação filosófica mas que também sabiam o latim suficiente para fazerem essas traduções. Daí ter surgido a revista Mediaevalia - Textos e Estudos que é, em princípio, uma revista semestral, portanto com dois números anuais: um dedicado a estudos - sempre com colaboração internacional - e outro é uma tradução de um texto latino em edição bilíngüe, com introdução e notas. Esta é uma das atividades mais importantes do Gabinete.

 

Além disso, eu própria desda há muito faço parte da Sociedade Internacional para Estudos de Filosofia Medieval (SIEPM, com sede em Lovaina-a-Nova), depois fui eleita para o Bureau, e no Congresso de 1997 fui eleita para uma das três vice-presidências. Isso deu-me naturalmente a possibilidade de um contato internacional muito mais amplo, e permitiu que eu conhecesse pessoas trabalhando em áreas temáticas diversificadas, que também têm vindo colaborar conosco. Temos entrado em concursos do Ministério da Ciência e Tecnologia, através dos quais temos obtido financimanto para as nossas actividades de investigação, e tentamos orientar os alunos para fazerem seu mestrado em temas portugueses. Assim, há já bastantes estudos, alguns deles publicados, mesmo no estrangeiro, sobre Santo Antônio de Lisboa, sobre Frei Paio de Coimbra, sobre Pedro Hispano ou Álvaro Pais, o infante D. Pedro, o rei D. Duarte, etc... Normalmente esses primeiros estudos de mestrado abrem caminho para doutoramentos, como é o caso do Dr. Meirinhos, que leciona filosofia medieval aqui na Faculdade de Letras, que tendo feito a sua tese de mestrado sobre Pedro Hispano, está a terminar seu doutorado também sobre esse autor.

 

JL: Quando foi criado o Gabinete?

 

MCP: O Gabinete foi criado em 1989. Actualmente tem vários projetos de investigação em área como o estudo de manuscritos, a edição crítica de textos, a tradução e a constituição de bases informáticas de textos de autores medievais portugueses. Estamos agora a colaborar também com uma outra instituição de investigação da Faculdade de Letras que é o Instituto de Filosofia. Desenvolvemos uma linha de investigação nesse Instituto que foi classificada como excelente por parte do Ministério da Ciência e da Tecnologia.

 

JL: E um projeto talvez a destacar dentro do Gabinete é a edição eletrônica dos textos de Santo Antônio?

 

MCP: Sim. Um dos projetos do Gabinete é a edição eletrônica de autores portugueses. Quanto a Santo Antônio de Lisboa já está feita a informatização do texto, assim como a de Frei Paio de Coimbra, que é extremamente interessante porque é um autor praticamente contemporâneo de Santo Antônio - ligeiramente posterior – e curiosamente encontramos nele praticamente as mesmas fontes de Santo Antônio. O que nos mostra com nova evidência o meio cultural de Coimbra que os formou a ambos. A nossa idéia - mas esse é um projeto mais vasto, que irá sendo realizado gradualmente - é tentar delimitar a acção de alguns centros culturais como Santa Cruz de Coimbra, bem como estudar os grandes autores que estavam presentes no mosteiro de Santa Cruz no início da nossa nacionalidade. Enfim, trata-se também de descobrir as raízes de nossa cultura.

 

JL: Muito obrigado.

 

MCP: Muito obrigada, o prazer é todo nosso. Penso que deveríamos estreitar laços que, afinal de contas, são laços de família; estreitá-los porque de fato não tem sentido que, falando-se a mesma língua, se ignorem as produções científicas de ambos os lados do Atlântico. Esta cooperação a que agora damos início é uma forma ao mesmo tempo nacional e para-nacional e, afinal de contas, global, de abrirmos os contactos, concretizada pela opção de utilizar também a informática como elo de ligação.

 

JL: O que para nós é particularmente importante. Muitíssimo obrigado.