Transtorno Bipolar: a Normal
 "Patologia" de Tomás de Aquino
 (em memória de J. Pieper)

 

L. Jean Lauand
Universidade de São Paulo - jeanlaua@usp.br

 

Os apelos da criatura

 

         No dia 6 de novembro , completam-se dois anos do falecimento de Josef Pieper, um dos mais notáveis filósofos do século. Profundamente identificado com o filosofar de Tomás de Aquino - que soube trazer ao diálogo com a realidade contemporânea -, Pieper sempre recusou energicamente o rótulo de "tomista": Santo Tomás é grande demais para caber num "ismo"; e seu pensamento, desconcertante demais para ser espartilhado por compêndios de escola.

 

         Consideraremos aqui - ampliando uma aguda intuição de Pieper - uma das mais surpreendentes teses de Tomás: sua ambivalente postura fundamental diante do mundo, a que Pieper designou por "Psicose Maníaco-Depressiva". Reproduzimos, a seguir, o texto da nota "Manisch-Depressiv" publicada nos Buchstabier Übungen, München, Kösel, 1980. 

 

Josef Pieper (1904-1997)

 

Psicose Maníaco-Depressiva

 

Josef Pieper

(trad.: L. Jean Lauand e H. Marianetti Neto)

 

O mundo está constituído de tal forma que quem o compreendesse a fundo poderia ser precipitado num abismo de tristeza: o próprio Verbo de Deus feito homem teve de padecer uma morte terrível e infamante. E no fim dos tempos, ocorrerá o domínio universal do mal. Tomás de Aquino ensina que o dom da ciência (que permite conhecer o que é este mundo) corresponde à bem-aventurança: "Bem-aventurados os que choram...".

 

Quem pensa nisto (e o ser humano não precisa necessariamente de uma reflexão consciente para aperceber-se dessa realidade) pode muito bem verter lágrimas e cair na mais profunda depressão; depressão que, aliás, não tem porque ser considerada "infundada" ou "sem objeto", uma vez que a criatura procede do nada.

 

Mas a criatura é também - para além de qualquer medida concebível - tão intensamente mantida na existência pelo Amor de Deus que, quem considera este fundamento e sabe reconhecê-lo, pode facilmente ser invadido pela alegria (também aparentemente "infundada" e efetivamente não causada por nenhum motivo externo próximo e determinado). Uma alegria tão arrebatadora que, pura e simplesmente, extravasa a capacidade de recepção da alma. 

 

Como é que fica então o meio-termo, o "normal"? E por que meios é essa normalidade regulada? Talvez pelo estado fisiológico do aparelho hormonal das glândulas ou do sistema nervoso.

         Assim, segundo Tomás, a criatura é dúplice em sua estrutura fundamental: por um lado, participa do Ser (e da verdade, da bondade, da beleza...) de Deus; mas, por outro lado, é treva, enquanto procede do nada. E essa estrutura dúplice projeta-se num apelo contraditório ao homem (também ele criatura...) em seu relacionamento com o mundo: daí a "normalidade" da psicose maníaco-depressiva ou, como se diz hoje, do transtorno bipolar.

 

         A gravidade da "patológica" normalidade - que deveria ser a constante situação do ser humano no mundo -, passa, na verdade, despercebida para a imensa maioria, que não se dá conta de nenhum dos dois pólos do transtorno, situando-se numa morna mediocridade, alheia ao dramático potencial contido em cada centímetro quadrado do quotidiano. Essa incapacidade de se deixar abalar, de sentir a vertigem existencial do apelo da realidade, traz consigo a "tranqüilidade" do anestesiado, que só se inquieta para reagir quando algo ameaça romper a segura redoma em que instalou seu pequeno mundo[1]

 

         Na realidade, a criatura é mais do que seu ser aparente. É uma questão de saber ver, de epistéme theoretiké, no sentido - resgatado por Heidegger - de competência (appartenance) do olhar. Essa competência do mirandum - como diz Tomás, em seu comentário à Metafísica de Aristóteles - é o que aproxima o filósofo do poeta. E ninguém melhor do que a poeta Adélia Prado - que em "De profundis"[2] também fala do transtorno bipolar, da "alma ciclotímica"! - para testemunhar esse plus

 

"De vez em quando Deus me tira a poesia.

Olho pedra, vejo pedra mesmo"[3]

 

         O pólo positivo do transtorno - a que, segundo Tomás, a criatura nos convoca - é exposto no capítulo 2 da Contra Gentiles II e - como todos os temas essenciais de seu pensamento - remete-nos à doutrina da participação.

 

         "Meditei em todas as tuas obras e em todas as coisas feitas pelas tuas mãos"[4]. Esta sentença do Salmo (143, 5) é posta como epígrafe do Livro II da Contra Gentiles e é - como diz o próprio Tomás - o princípio estruturador de seus estudos[5] sobre a criação. Interessa-nos aqui, principalmente, a segunda parte dessa epígrafe: Deus, como artífice e artista, deixa sua marca nas coisas criadas[6].

 

         A criação impõe um convite a meditar[7]. Meditar sobre as criaturas para conhecer o artista que as fez. E isto - sempre seguindo o II, 2 da CG - por quatro razões: 

 

         1) Para conhecer, admirar e considerar a sabedoria divina. A sabedoria que se encontra "concentrada" em Deus está, em semelhança, espalhada (sparsa) nas criaturas. Este é o sentido do salmo 138, quando afirma que "A noite é luz para mim..."[8]: considerando a obra, proclamaremos a sabedoria de quem a fez. 

 

         2) Essa consideração leva a uma atitude de admiração e de reverência ante o poder de Deus. 

 

         3) Essa consideração produz, ademais, um incêndio de amor a Deus na alma humana pois "toda a bondade e perfeição que se encontra espalhada aqui e ali nas diversas criaturas encontra-se acumulada em Deus como numa fonte". "Se, pois, a bondade, a beleza e suavidade (suavitas) das criaturas cativam tanto o homem, a consideração de Deus como fonte de bondade (e das criaturas como riachinhos) inflamará um arrebatado incêndio de amor".

 

         4) Essa consideração situa os homens em certa semelhança com Deus, que se conhece em suas obras.

 

         A palavra chave - também aqui - é "participação". O arrebatador encanto das criaturas é apenas rivulus, riachinho, "café pequeno" ante o oceano fontal de Deus.

 

Contra Gentiles II, 2

Quod consideratio creaturarum utilis est ad fidei instructionem.

Huiusmodi quidem divinorum factorum meditatio ad fidem humanam instruendam de Deo necessaria est.

Primo quidem, quia ex factorum meditatione divinam sapientiam utcumque possumus admirari et considerare. Ea enim quae arte fiunt, ipsius artis sunt repraesentativa, utpote ad similitudinem artis facta. Deus autem sua sapientia res in esse produxit: propter quod in Psalmo dicitur: Omnia in sapientia fecisti. Unde ex factorum consideratione divinam sapientiam colligere possumus, sicut in rebus factis per quandam communicationem suae similitudinis sparsam. Dicitur enim Eccli. 1-10: Effudit illam, scilicet sapientiam, super omnia opera sua. Unde, cum Psalmus (138, 6 sqq) diceret, Mirabilis facta est scientia tua ex me: confortata est, et non potero ad eam: et adiungeret divinae illuminationis auxilium cum dicit. Nox illuminatio mea etc.; ex consideratione divinorum operum se adiutum ad divinam sapientiam cognoscendam confitetur, dicens: Mirabilia opera tua, et anima mea cognoscet nimis.

Secundo, haec consideratio in admirationem altissimae Dei virtutis ducit: et per consequens in cordibus hominum reverentiam Dei parit. oportet enim quod virtus facientis eminentior rebus factis intelligatur. Et ideo dicitur Sap. 13-4: Si virtutem et opera eorum, scilicet caeli et stellarum et elementorum mundi, mirati sunt, scilicet philosophi, intelligant quoniam qui fecit haec, fortior est illis. Et Rom. 1-20 dicitur: Invisibilia Dei per ea quae facta sunt intellecta conspiciuntur: sempiterna quoque virtus eius et divinitas. Ex hac autem admiratione Dei timor procedit et reverentia. Unde dicitur Ierem. 10-6 Magnum est nomen tuum in fortitudine. quis non timebit te, o Rex gentium?

Tertio, haec consideratio animas hominum in amorem divinae bonitatis accendit. quicquid enim bonitatis et perfectionis in diversis creaturis particulariter distributum est, totum in ipso universaliter est adunatum, sicut in fonte totius bonitatis, ut in primo libro ostensum est. si igitur creaturarum bonitas, pulchritudo et suavitas sic animos hominum allicit, ipsius Dei fontana bonitas, rivulis bonitatum in singulis creaturis repertis diligenter comparata, animas hominum inflammatas totaliter ad se trahet. unde in Psalmo dicitur: Delectasti me, Domine, in factura tua, et in operibus manuum tuarum exsultabo. Et alibi de filiis hominum dicitur: Inebriabuntur ab ubertate domus tuae, quasi totius creaturae, et sicut torrente voluptatis tuae potabis eos: quoniam apud te est fons vitae. Et Sap. 13-1, dicitur contra quosdam: Ex his quae videntur bona, scilicet creaturis, quae sunt bona per quandam participationem, non potuerunt intelligere eum qui est, scilicet vere bonus, immo ipsa bonitas, ut in primo ostensum est.

Quarto, haec consideratio homines in quadam similitudine divinae perfectionis constituit. Ostensum est enim in primo libro quod Deus, cognoscendo se-ipsum, in se omnia alia intuetur. Cum igitur christiana fides hominem de Deo principaliter instruit, et per lumen divinae revelationis eum creaturarum cognitorem facit, fit in homine quaedam divinae sapientiae similitudo. hinc est quod dicitur 2 Cor. 3-18: Nos vero omnes, revelata facie gloriam domini speculantes, in eandem imaginem transformamur.

Sic igitur patet quod consideratio creaturarum pertinet ad instructionem fidei christianae. et ideo dicitur Eccli. 42-15: Memor ero operum Domini, et quae vidi annuntiabo: in sermonibus Domini opera eius.

 

Nota sobre ser e participação em Tomás

 

         Assim, para bem entender o pensamento e a linguagem de Tomás, é necessária uma nota sobre sua doutrina da participação. Essa doutrina é a base, tanto de sua concepção do ser, como - no plano estritamente teológico - da graça. Indicaremos, aqui, resumidamente, suas linhas principais.

 

         Como sempre, voltemo-nos para a linguagem. Comecemos reparando no fato de que na linguagem comum, "participar" significa - e deriva de - "tomar parte" (partem capere). Ora, há diversos sentidos e modos desse "tomar parte"[9]. Um primeiro é o de "participar" de modo quantitativo, caso em que o todo "participado" é materialmente subdividido e deixa de existir: se quatro pessoas participam de uma pizza, ela se desfaz no momento em que cada um "toma a sua parte". 

 

         Num segundo sentido, "participar" indica "ter em comum" algo imaterial, uma realidade que não se desfaz, nem se altera quando participada; é assim que se "participa" a mudança de endereço "a amigos e clientes", ou ainda que se "dá parte à polícia". O terceiro sentido, mais profundo e decisivo, é o que é expresso pela palavra grega metékhein, que indica um "co-ter", um "ter com", ou simplesmente um "ter" em oposição a "ser"; um "ter" pela dependência (participação) com outro que "é". Ao tratar da Criação, Tomás já utiliza precisamente este conceito: a criatura tem o ser, por participar do ser de Deus, que é ser. E a graça nada mais é do que ter - por participação na filiação divina que é em Cristo - a vida divina que é na Santíssima Trindade.

         Há - como indica Weisheipl[10] - três argumentos subjacentes à doutrina da participação: 1) Sempre que há algo comum a duas ou mais coisas, deve haver uma causa comum. 2) Sempre que algum atributo é compartilhado por muitas coisas segundo diferentes graus de participação, ele pertence propriamente àquela que o tem de modo mais perfeito. 3) Tudo que é compartilhado "procedente de outro" reduz-se causalmente àquele que é "per se".

 

         Nesse sentido, estão as metáforas de que Tomás se vale para exemplificar: ele compara o ato de ser - conferido em participação às criaturas - à luz e ao fogo: um ferro em brasa tem calor, porque participa do fogo, que "é calor"[11]; um objeto iluminado "tem luz", por participar da luz que é na fonte luminosa. Tendo em conta essa doutrina, já entendemos melhor a sentença de Guimarães Rosa: "O sol não é os raios dele, é o fogo da bola"[12]

 

         Participação envolve, pois, graus e procedência. Tomás parte do fenômeno evidente de que há realidades que admitem graus (como diz a antiga canção de Chico Buarque: "tem mais samba no encontro que na espera...; tem mais samba o perdão que a despedida"). E pode acontecer que a partir de um (in)certo ponto, a palavra já não suporte o esticamento semântico: se chamamos vinho a um excelente Bordeaux, hesitamos em aplicar este nome ao equívoco "Chateau de Vila Xiririca" ou "Baron de Várzea Grande".

         As coisas se complicam - e é o caso contemplado por Tomás - quando uma das realidades designadas pela palavra é fonte e raiz da outra: em sua concepção de participação, a rigor, não poderíamos atribuir o predicado "quente" ao sol, se, a cada momento, dizemos que o dia ou a casa estão quentes (o dia ou a casa têm calor porque o sol é quente). Assim, deixa de ser incompreensível para o leitor contemporâneo que, no artigo 6 das Questões disputadas sobre a verdade, Tomás afirme que não se possa dizer que o sol é quente (sol non potest dici calidus). Na Contra Gentiles (I, 29, 2), o Aquinate explica que acabamos dizendo quente para o sol e para as coisas que recebem seu calor, porque a linguagem é assim mesmo[13].

 

         Essas considerações parecem extremamente naturais quando nos damos conta de que ocorrem em instâncias familiares e quotidianas de nossa própria língua: um grupo de amigos vai fazer um piquenique em lugar ermo e compra alguns pacotes de gelo (desses que se vendem em postos de gasolina nas estradas) para a cerveja e os refrigerantes. As bebidas foram dispostas em diversos graus de contato com o gelo: algumas garrafas são circundadas por muito gelo; outras, por menos. De tal modo que cada um pode escolher: desde a cerveja "estupidamente gelada" até o refrigerante só "um pouquinho gelado"... Ora, é evidente que o grau de "gelado" é uma qualidade tida, que depende do contato, da participação da fonte: o gelo, que, ele mesmo, não pode ser qualificado de "gelado"... Estes fatos de participação são-nos, no fundo, evidentes, pois com toda a naturalidade dizemos que "gelado", gramaticalmente, é um particípio...

 

         Um último exemplo. Participar é receber de outrem algo; mas o que é recebido, é recebido não totalmente: assim participar implica um receber parcial de algo (aliquid) de outro (ab alio). Um axioma de que Tomás se vale, diz: "Tudo que é recebido, é recebido segundo a capacidade do recepiente" (per modum recipientis recipitur). E assim "Omne quod est participatum in aliquo, est in eo per modum participantis: quia nihil potest recipere ultra mensuram suam" (I Sent. d.8, q.1 a.2 sc2), algo que é participado é recebido segundo a capacidade do participante, pois não se pode receber algo que ultrapasse a sua medida (mensura). Numa sala de aula, por exemplo, cada aluno participa da aula segundo sua capacidade de apreensão: alguns aprenderão mais; outros, menos...

 

         Da citada CG, retenhamos uma sentença essencial: "Deus, que distribui todas as suas perfeições entre as coisas é-lhes semelhante e, ao mesmo tempo, dessemelhante". Pela semelhança-procedência de Deus, as criaturas podem produzir o efeito arrebatador de alegria, o lado "mania" da PMD. 

 

Ainda o pólo positivo do transtorno

 

         Daí que, em palavras de Chesterton, "Há em Santo Tomás um tom geral e um temperamento que é tão difícil de evitar como a luz do dia numa casa grande com janelas. É a atitude positiva de um espírito como que cheio e repassado da luz do sol e do calor da admiração pelas coisas criadas. Por isso deveria chamar-se Tomás do Deus Criador"[14].

 

         Tomás insiste uma e outra vez: todas as criaturas são boas e têm de bondade o que têm de ser: "Unaquaeque creatura quantumcumque participat de esse, tantum participat de bonitate" (Ver. 20,4). E mais: é certo que a felicidade definitiva do homem reside na posse de Deus pela contemplação, pelo olhar de amor; mas, para o Aquinate, essa felicidade não é algo "transferido" para depois da morte, e sim, algo que irrompe, que já se inicia nesta vida, pela fruição do bem de Deus nos bens do mundo, até mesmo em um copo de água fresca num dia de calor: "Assim como o bem criado é uma certa semelhança e participação do Bem Incriado, assim também a consecução de um bem criado é uma certa semelhança e participação da bem-aventurança final" (De malo 5,1, ad 5)[15]

 

         Tudo isto é muito bonito e está na base não só da doutrina do ser de Tomás, mas também de sua estética[16]. Porém, essa análise ficaria incompleta e falsa, se não víssemos o outro lado, o da dessemelhança, o depressivo...

 

O pólo negativo do transtorno

 

         De fato, o dom da ciência (conhecer a fundo as coisas criadas), corresponde à bem-aventurança dos que choram: "scientia convenit lugentibus" (II-II 9, 4 sc). Pois a criatura, enquanto procede do nada, de per si é treva "creatura est tenebra in quantum est ex nihilo" (só é luz enquanto, por participação, se assemelha a Deus"in quantum vero est a Deo, similitudinem aliquam eius participat, et sic in eius similitudinem ducit") (De Ver. 18, 2, ad 5). E obscuro é também o conhecimento que a criatura oferece: "sed quia creatura ex hoc quod ex nihilo est, tenebras possibilitatis et imperfectionis habet, ideo cognitio qua creatura cognoscitur, tenebris admixta est" (In II Sent. r3, c)

 

         Quanto mais scientia, maior a depressão: porque se constata quão deficientes são as coisas do mundo "Ad lugendum autem movet praecipue scientia, per quam homo cognoscit defectus suos et rerum mundanarum; secundum illud Eccle. I qui addit scientiam, addit et dolorem" (I-II, 69, 3 ad3). A referência ao Eclesiastes não é casual: Salomão, que tem "mais sabedoria que todos seus antecessores" (I, 16), verifica - após examinar as coisas mais magníficas - que "tudo é vento" e "quanto mais conhecimento, mais sofrimento". 

 

         Essa situação do homem foi extraordinariamente expressa por Adélia Prado em "Acácias"[17], que fala do transtorno bipolar - "magnífica insuficiência" - ante a beleza de uma criatura, uma simples acácia que seja.

 

 

ACÁCIAS[18]

 

Minha alma quer ver a Deus.

Eu não quero morrer.

Quero amar sem limites

E perdoar a ponto de esquecer-me

Radical, quer dizer pela raiz

O perdão radical gera alegria

Exorciza doenças, mata o medo

Dá poder sobre feras e demônios

Falo. E falo é também membro viril,

Todo léxico é pobre,

Idiomas são pecados;

Poemas, culpas antecipadamente perdoadas

Eis, esta acácia florida gera angústia

Para livrar-me, empenho-me

Em esgotar-lhe a beleza

Beleza importuna,

Magnífica insuficiência,

Porque ainda convoca

O poema perfeito.

 

         A doutrina de Tomás encontra uma inesperada e discreta confirmação na famosa canção "Garota de Ipanema" de Vinicius e Tom Jobim[19]. A letra, como todos recordam vai falando da beleza ("Olha que cosa mais linda / mais cheia de graça / É ela menina que vem e que passa") e de como "o mundo inteirinho se enche de graça etc. " e, de repente, o verso, tão profundo quanto inesperado e (só) aparentemente contraditório: 

 

"Oh, por que tudo é tão triste?"

 

         Por que a beleza traz consigo também a sensação de solidão e tristeza? Talvez também porque se advinha que a criatura tem a beleza de modo precário e contingente; só Deus é a Beleza incondicional e simpliciter. "Est autem duplex defectus pulchritudinis in creaturis: unus, quod quaedam sunt quae habent pulchritudinem variabilem, sicut de rebus corruptibilibus apparet (...) Secundus autem defectus pulchritudinis est quod omnes creaturae habent aliquo modo particulatam pulchritudinem sicut et particulatam naturam; hunc defectum excludit a Deo, quantum ad omnem modum particulationis... Deus quoad omnes et simpliciter pulcher est" (De div. nom. cp 4, lc 5).

 

         Para finalizar, a título de Apêndice, apresentamos alguns textos selecionados de Agostinho.

 

A Dúplice Mensagem das Criaturas - Textos de Agostinho

(Extraídos das Enarrationes in Psalmos. Trad.: de LJL)

 

 

 

Está em toda a parte a beleza da obra que te dá a conhecer a grandeza do artífice. Admira a obra, ama o seu autor.

Undique pulchritudo operis, quae tibi commendat artificem. Miraris fabricam, ama fabricatorem. (En. in Ps. 145, 5; PL 37, 1887).

 

Olhai para o mundo: vede a harmonia que tem. Que belos são a terra, o mar, o céu, os astros! Acaso não estremece de espanto toda consideração dessas realidades?

Mundum istum attendite; decorem habet. Quem decorem habet terra, mare, aer, coelum, sidera! Omnia haec nonne omnem considerationem terrent? (En. in Ps. 144, 15; PL 37, 1879)

 

Tudo aquilo com que nos deparamos nos é amargo a não ser Deus; nada do que nos deu queremos, se não se nos dá a si mesmo aquele que no-las deu.

...in miseriiis suspiremus. Quidquid nobis adest praeter Deum nostrum, non est dulce: nolumus omnia quae dedit, si non dat seipsum qui omnia dedit. (En. in Ps. 85, 11; PL 37, 1090).

 

Se abismo é profundezas, não é abismo o coração do homem? Haverá algo mais profundo que esse abismo? Pode o homem falar, podemos vê-lo pelo movimento, ouvir-lhe as palavras; mas acaso se lhe pode penetrar o pensamento e o coração? Quem é capaz de entender o que ele traz dentro de si? O que dentro de si pode? O que faz, o que maquina, o que dentro de si quer ou não quer? 

Si profunditas est abyssus, putamus non cor hominis abyssus est? Qui enim est profundius hac abysso? Loqui homines possunt, videri possunt per operationem membrorum, audiri in sermone: sed cuius cogitatio penetratur, cuius cor inspicitur? Quid intus gerat, quid intus possit, quid intus agat, quid intus disponat, quid intus velit, quid intus nolit, quis comprehendet?  (En. in Ps. 41, 13; PL 36, 473)

Admiras-te do mundo; por que não do artífice do mundo? Contemplas o céu e estremeces de medo. Teu pensamento percorre a terra e tremes. Podes com teu pensamento abarcar a grandeza do mar?

Miraris mundum, quare non artificem mundi? Suspicis coelum, et exhorrescis; cogitas universam terram, et contremiscis; maris magnitudinem quando cogitatione occupas? (En. in Ps. 145, 12; PL 37, 1892)

 

Acaso quando contemplas toda a beleza deste mundo não ouves essa mesma beleza responder-te a uma só voz: "Não fui eu que me fiz, foi Deus que me fez? 

Nonne considerata universa pulchritudine mundi huius, tamquam una voce tibi species ipsa respondit: Non me ego feci, sed Deus? (En. in Ps. 144, 13; PL 37, 1878-9)

 

Propõem-se às crianças na escola louvores, louvores de todas as coisas que Deus fez. Propõe-se ao homem o louvor do sol, do céu da terra; e - para às coisas menores me referir também -, o louvor da rosa, o louvor do louro. Tudo isto são obras de Deus. Propõem-se, aceitam-se, são elogiadas. Festejam-se as obras, mas nem uma palavra sobre o seu criador. Eu, por mim, quero que nas obras se louve o criador: a quem louva e é ingrato, eu não o amo.

Proponantur laudes pueris in schola, et omnia talia proponuntur quae laudentur, quae Deus est operatus: proponitur homini laus solis, laus coeli, laus terrae, ut ad minora etiam veniam, laus rosae, laus lauri: omnia ista opera Dei sunt, proponuntur, suscipiuntur, laudantur; opera celebrantur de operatore tacetur. Ego in operibus volo laudari Creatorem; ingratum non amo laudatorem. (En. in Ps. 144, 7; PL 37, 1873)

 

 


[1]. Tomás - comentando aquela inquietante cena do Evangelho na qual, após Cristo livrar a cidade de um energúmeno furioso, os habitantes unanimente rogam-lhe que vá embora (Mt 8, 34; Mc 5, 17; Lc 8, 37) - desfere um terrível diagnóstico: "Infirma enim mens... non potest pondus sustinere sapientiae", a mediocridade não suporta a grandeza da sabedoria...

Só a partir da "felicidade" do néscio, se faz, de algum modo, compreensível a mudança de sentido da palavra "nice" (do latim nescius) em inglês (cfr. OED): desde seu significado original - 1. Foolish, stupid, senseless. (common in 14th and 15th c.) - até o atual: 15. Agreeable; that one derives pleasure or satisfaction from; delightful. O OED observa ainda - no sentido do Aquinate: "Dicitur enim aliquis insensatus, si in aetate perfecta discretione careat, non autem in puerili aetate" (In Met. X, 6, 20) - que nice se aplica propriamente a adultos. The Oxford English Dictionary, 2nd. Edition on Compact Disk, Oxford University Press, 1992.

 

[2]. Prado, Adélia  Poesia Reunida, São Paulo, Siciliano, 1991.

 

[3]. Ibidem, "Paixão".

 

[4]. "Meditatus sum in omnibus operibus tuis, et in factis manuum tuarum meditabar".

 

[5]. "Quem quidem ordinem ex praemissis verbis sumere possumus" CG II, 1

 

[6]. "Secunda vero, eo, quod sit perfectio facti, 'factionis', nomen assumit; unde 'manufacta' dicuntur quae per actionem huiusmodi ab artifice in esse procedunt" (CG II, 1).

 

[7]. "Divinorum factorum meditatio necessaria est - CG II, 2

 

[8]. "Nox illuminatio mea..."

 

[9]. Cfr. Ocáriz, F. Hijos de Dios en Cristo, Pamplona, Eunsa, 1972, pp. 42 e ss.

 

[10]. Weisheipl, James A. Tomás de Aquino - Vida, obras y doctrina, Pamplona, Eunsa, 1994, pp. 240-241.

 

[11]. Evidentemente, não no sentido da Física atual, mas o exemplo é compreensível.

 

[12]. Noites do Sertão, Rio de Janeiro, José Olympio, 6a. ed., 1979, p. 71.

 

[13]. "Como os efeitos não têm a plenitude de suas causas, não lhes compete (quando se trata da 'verdade da coisa') o mesmo nome e definição delas. No entanto (quando se trata da 'verdade da predicação'), é necessário encontrar entre uns e outros alguma semelhança, pois é da própria natureza da ação, que o agente produza algo semelhante a si (Aristóteles), já que todo agente age segundo o ato que é. Daí que a forma (deficiente) do efeito encontre-se a outro título e segundo outro modo (plenamente) na causa. Por isso não é unívoca a aplicação do mesmo nome para designar a mesma ratio na causa e no efeito. Assim, o sol causa o calor nos corpos inferiores agindo segundo o calor que ele é em ato: então, é necessário que se afirme alguma semelhança entre o calor gerado pelo sol nas coisas e a virtude ativa do próprio sol, pela qual o calor é causado nelas: daí que se acabe dizendo que o sol é quente, se bem que não segundo o mesmo título pelo qual se afirma que as coisas são quentes. Desse modo, diz-se que o sol - de algum modo - é semelhante a todas as coisas sobre as quais exerce eficazmente seu influxo; mas, por outro lado, é-lhes dessemelhante porque o modo como as coisas possuem o calor é diferente do modo como ele se encontra no sol. Assim também, Deus, que distribui todas as suas perfeições entre as coisas é-lhes semelhante e, ao mesmo tempo, dessemelhante".

 

[14]. G. K. Chesterton, São Tomás de Aquino, Livr. Cruz, Braga, 1957, pág. 164.

 

[15]. "Sicut bonum creatum est quaedam similitudo et participatio boni increati, ita adeptio boni creati est quaedam similitudinaria beatitudo".

 

[16]. Cfr. p. ex. "A doutrina da participação na Estética clássica", Revista Internacional d'Humanitats, Univ. Autònoma de Barcelona - Dep. de Ciències de l'Ant. i de l'Edat Mitjana/ Edf-Feusp, Barcelona-S. Paulo, vol. II, 1999, pp. 51-58.

 

[17]. Um poema desgarrado, pois a autora ofertou-me o único manuscrito - durante a entrevista que me concedeu em 5-11-93 e que foi publicada em Lauand, L. J. Interfaces, São Paulo, Hottopos, 1997 - com a sugestiva dedicatória "com a esperança do Reino, que já está aqui".

 

[18]. Na citada entrevista, a autora comenta: "O poema, minha Nossa Senhora!..., o que está por trás dele é o que interessa, por isso que não dá para adorar a arte (os adoradores da arte...). A arte..., ela remete, ela remete... A única coisa que não remete é Deus. Deus, Ele não remete a mais nada. E o que você quer? Esta acácia aqui, essa benditinha dessa acácia..., o que é uma acácia florida? É uma coisa tão angustiante, uma coisa bela demais, que você quer morrer pra ter sossego, não é? (risos). Aí você faz um poema pra ver se descansa. Mas, é porque a alma, ela quer realmente adorar, ela quer seu fundamento, não é? A gente quer adorar a Deus, essa é a única coisa..., eu acho que a gente nasceu só pra isso...".

 

[19]. Note-se que Tom Jobim afirma uma concepção de arte como participação, no sentido tomasiano, como procurei mostrar em "A Filosofia da arte de S. Tomás e Tom Jobim", Atualidade, semanário da PUC-PR, N. 246, 28-7 a 3-8-91, p.8. Nesse sentido está "... o depoimento, imensamente profundo, de Tom Jobim sobre a criação artística em recente entrevista quando foi contemplado nos EUA com a mais alta distinção com que pode ser premiado um compositor, o Hall of Fame : 'Glória? A glória é de Deus e não da pessoa. Você pode até participar dela quando faz um samba de manhã'. E complementa: 'Glória são os peixes do mar, é mulher andando na praia, é fazer um samba de manhã'".