Entrevista - Alípio Maia e Castro
Verdade, Violência e Educação

 

(entrevista a Luiz Jean Lauand e Elian Alabi Lucci, São Paulo, 19-9-99. Maia e Castro é autor de diversos artigos em nossas revistas e dos livros "Violência e Paz Interior" e "A Família - o amor humano à luz dos valores cristãos", publicados em 1997 em São Paulo pela Edix e pela Mandruvá e, em 1998, em Portugal por Barbosa & Xavier. Nesta entrevista, Maia e Castro retoma alguns dos principais temas dessas e de outras pesquisas)

 

 

Mirandum: A doutrina da verdade em Tomás de Aquino continua sendo actual?

 

AMC.: É evidente que a doutrina de Tomás de Aquino, como a de qualquer outro autor medieval ou antigo, só pode continuar actual naquilo que ela tem de perene, de permanente; e que, sendo permanente, pode ser aplicado às circunstâncias modernas. Não há a menor dúvida sobre a principal característica da doutrina sobre a verdade de Tomás de Aquino: o seu carácter objectivo. Verdadeiro - reafirma Tomás com a tradição clássica - é aquilo que é; e verdade é a adequação entre a inteligência e a realidade. E essa objectividade é um elemento fundamental para construir seja o que for em torno da verdade: qualquer sistema, qualquer atitude intelectual ou moral pode encontrar nela uma base firme. Com efeito, a inteligência humana só pode conhecer algo se esse algo é adquirido pela inteligência. E só pode ser adquirido se vier de fora, se "se impuser". Essa objectividade, que confere ao conhecimento a sua solidez, é a característica de maior relevância na doutrina de Tomás de Aquino sobre a verdade. Já se sabe que essa objectividade não é aceita hoje por amplos sectores da filosofia e mesmo da sociedade, mas isso não significa uma falta de actualidade; pode significar, talvez, o contrário. Na raiz da crise de sentido vivida pela sociedade contemporânea encontra-se precisamente a recusa de uma abertura à realidade. Só tem sentido o que tem um "além". E a vida humana só tem um "além" se se transcende a si mesma, lançando-se no regaço da realidade que a ultrapassa.

 

 

M: É nesse quadro que se deve analisar a violência na sociedade actual?

 

AMC: Sem dúvida é um dos seus componentes. Só pode estar em harmonioso acordo com a vida quem, servindo-se da inteligência, "vê" a beleza e sentido que ela encerra. Vai-se aproximando da paz, quem, servindo-se da inteligência, concorda com as exigências da vida, da realidade da realização do ser humano. Em contrapartida, há uma discórdia interior que torna impossível ou fictícia a paz: é aquela discórdia - talvez revolta - de todos os indivíduos que, por assim dizer, estão zangados com a vida ou, como por vezes se diz, estão "de mal com a vida" por não verem o seu sentido e que, precisamente por o não verem, não se submetem verdadeiramente a nada: com efeito, nada revolta tanto o homem como o sacrifício estúpido, o que "não vale a pena". E "pena" que "não vale" é a que carece de sentido. A paz interior arraiga-se na visão racional da vida, que é a compreensão do porquê e do para quê da vida. Tem sentido aquilo que tem uma finalidade. Ora, conferir ou descobrir a finalidade das coisas é obra da inteligência. Visualiza a finalidade da casa o arquitecto; e, por isso, põe em ordem os tijolos e o vigamento. Vê a finalidade dos movimentos do estômago o médico; e, por isso, diagnostica a saúde do aparelho digestivo. Um e outro afirmam a perfeição do que vêem em função da finalidade considerada. A casa é perfeita ou o estômago é perfeito, na medida em que atingem a sua própria finalidade. Uma coisa perfeita é uma coisa boa. A razão de ser do bem é o fim - "o fim é a razão determinante do bem", para voltarmos a São Tomás (II-II, 141, 6). Quando queremos saber se uma coisa é boa, perguntamos imediatamente: boa, para quê? E, se ignorarmos a sua finalidade, não podemos dizer se é boa ou não. A vida torna-se verdadeiramente humana - racional -, quando a razão a ilumina, subordinando toda a sua pluralidade ao fim que nela entrevê.

 

 

M.: Qual o significado de "razão" nesse contexto?

 

AMC: Razão não significa só a faculdade humana de pensar, mas também a "racionalidade" (se preferir, o logos) que se encontra na estruturação de cada criatura (e a criaturalidade do mundo é uma das chaves do pensamento de São Tomás), fazendo com que haja uma verdade das coisas e, claro, uma verdade sobre o ser do homem. Eis por que Tomás de Aquino identifica o bem do homem com o bem da razão. A perfeição, o bem do homem, principia no próprio exercício da razão, que se abre à realidade da criação; e continua na realização natural da ordem da vida, tanto nas ações - o que se traduz na justiça -, como nas paixões, isto é, nos ímpetos instintivos, de caráter psico-somático, ora reprimindo-os, ora excitando-os firmemente - o que se traduz na temperança e na coragem (I-II, 61, 2). Assim, o homem concorda com a ordem das coisas criadas. Há nele uma bela "imagem e semelhança" da alegria do Criador que, ao tirar do nada todos os seres, como nos diz a Bíblia, viu que tudo era bom, "concordando" jubilosamente com o ser das suas criaturas como o artista que se revê na sua obra de arte. Se, pelo contrário, numa atitude irracional, fecha a inteligência à realidade criada - fazendo de conta, afinal, que é ele o Criador -, o homem entra em choque com essa realidade e torna-se agressivo. É esse encerramento da inteligência que está na raiz do orgulho; e é por isso que, no início da falta de paz, serpenteia uma falta de humildade, essa "alienação" radical com que o homem teima em "criar" uma realidade a seu gosto, supondo-se o centro do universo, isto é, fazendo-se deus. Não há maior violência do que a que tende a esmagar o que há de essencial num homem. Ora, a essência do homem é o seu peculiar ser racional. A chamada "lavagem cerebral" - tão conhecida neste século de regimes de terror - é a imagem patética e perfeita dessa violência. Viola o homem tudo aquilo que tende a privá-lo da razão. Por trás de tudo, é necessário detectar a violência primacial e radical que é a que pretende esmagar a natural objectividade do conhecimento humano, aquela inclinação que se nota no homem quando ele, perante qualquer coisa, pergunta: "O que é isto?". O desejo de conhecer é sempre um desejo que projecta o indivíduo para além de si mesmo, é um abrir-se para a realidade e a maior violência contra essa inclinação natural é o subjectivismo. E, fatalmente, num mundo de subjectividades, em que convivem com dificuldade uns com os outros, não pode deixar de criar-se uma mentalidade defensiva que dá origem a conflitos, a separações entre os homens, encerrados, emparedados dentro da sua subjectividade respectiva.

 

M.: E, suprimida a "verdade a respeito do homem", não há também uma dignidade que deva ser respeitada, não é assim?

 

AMC: Exactamente. Na verdade, o conceito de dignidade corresponde à idéia que se tem sobre o que é que vale no homem. Mas, ninguém é capaz de dizer o que é que vale no homem, o que é o seu bem, se não se sabe com a inteligência qual é a sua finalidade objectiva, a finalidade de sua realidade humana. É impossível determinar o que é que é um homem se não se atenta naquilo para que ele se dirige e naquilo de onde procede: o seu fim e a sua origem. Não sabemos o que somos se deixamos de pensar nestes dois pólos que definem a natureza humana. E só com a afirmação da natureza humana e com um conhecimento dela se pode afirmar também a dignidade humana. Só a partir dessa objectividade - que se impõe por si mesma - se pode afirmar uma verdade, que é superior a qualquer regime ditatorial. A verdade, quando é objectiva, não é superior apenas aos indivíduos, mas superior a qualquer subjectividade humana, seja ela de um cidadão isolado, seja ela de um Estado formal. Um Estado que respeita a verdade é precisam ente aquele que oferece mais garantias de respeito à dignidade humana. O verdadeiro poder advém do respeito à verdade. Um poder sem verdade que o fundamente é desumano e arbitrário.

 

 

M.: Mas não há o perigo de se violar a liberdade de pensamento - caindo-se na intolerância - com o pretexto da objectividade?

 

AMC: Não falta quem associe a intolerância ao vigor com que se impõe a verdade objectiva. Dir-se-ia que grassa um pouco por toda a parte o receio de que a verdade absoluta, com a pujança da sua força objectiva, venha a asfixiar ou de algum modo macular a valiosa e livre dignidade humana. Esquece-se que, quando se submete à verdade, todo e qualquer homem se liberta: a submissão à verdade objectiva não significa para o homem jamais uma derrota ou um confinamento; é quando se submete à verdade que a inteligência humana se dilata. Não é um vencido, mas um vencedor, quem à verdade se submete. Os cientistas venceram as trevas porque se submeteram à realidade que dantes não conheciam e os ultrapassa. Qualquer descoberta científica é uma submissão livre e feliz à realidade objectiva.

 

 

M.: Mas fora do âmbito científico, no terreno do comportamento moral, há pessoas que vêem conflito entre a liberdade e as exigências éticas da natureza humana, na sua objectividade...

 

AMC: Assim como o erro e a ignorância não são próprios da natureza da razão, embora de algum modo a revelem, enquanto mostram a sua deficiência, assim também o mal, escolhido pela liberdade, não faz parte da natureza da liberdade, da natureza humana que a encerra, se bem que nessa escolha má se patenteia a existência da liberdade. É que a essência da liberdade não reside propriamente na capacidade de escolher entre várias possibilidades, mas sim no modo de querer: o acto humano é livre porque e na medida em que é causa de si mesmo e não condicionado necessariamente pela razão ou por qualquer outro factor interno ou externo. É por isso que a perfeição da liberdade humana se atinge no amor, naquele amor de que já falava o Poeta como "um não querer mais que bem querer". De facto, amar é querer bem e querer o Bem. Pode-se dizer que, quando ama, o homem quer o Bem, sem mais, porque quer o bem por si mesmo, sem condicionamentos externos ou internos, isento de constrangimentos, de convencionalismos, de conformismos sociais e interesses impuros; e que quer bem, porque acerta em cheio no objecto próprio da vontade, satisfazendo todas as ânsias da liberdade, realizando-se nisso plenamente. Também aqui a verdade objectiva emite a sua luz: essa luz que é a verdade sobre o ser do homem, destinado a expandir-se e a realizar-se pelo dom de si mesmo. Se, no uso da liberdade, voltar as costas a esta luz, o homem falsifica o seu ser, arruína-o, acabando por perder até a própria liberdade, escravo duma solidão amarga. A liberdade é tributária da verdade. Sem verdade, a liberdade não subsiste.

 

 

M.: E o que seria uma "educação para a verdade"?

 

AMC: Na educação, parece que o fundamental é fomentar em todos os educandos, em quaisquer níveis, a atitude de amor à verdade (atitude que, aliás, está na raiz de toda a pesquisa científica e é a atitude que corresponde mais à curiosidade natural do ser humano). O contacto progressivo e sólido de um educando com a realidade é precisamente aquilo que o vai tornando um homem maduro e senhor de si mesmo. Porque qualquer educando, qualquer ser humano, só se torna maduro quando sabe o chão que pisa e é esse "chão que pisa" o que se deve proporcionar aos alunos e a todos os homens. Nesse sentido, a educação moderna tem todos os trunfos na mão, se quiser. Mas, há certos aspectos na educação de hoje, que diminuem a capacidade de reflexão das pessoas. Por exemplo, a profusão de imagens - a nossa época já foi designada por "civilização da imagem" - tolhe, por vezes, a capacidade crítica e, nesse aspecto de excesso, os meios de comunicação social não contribuem para a educação, antes a podem prejudicar. Além disso, vai-se formando na sociedade actual uma atitude ego-cêntrica, individualista que é contrária precisamente àquela objectividade que faz falta à inteligência humana que, por natureza, anda sempre sequiosa de conhecimento. Não há dúvida que perante uma sociedade com costumes deste jaez, a objectividade de uma doutrina como a de Tomás de Aquino é algo que vem de encontro às inclinações imperantes, mas esta oposição aos costumes actuais pode significar precisamente um enriquecimento da pobreza em que cai qualquer homem quando se encerra dentro de si mesmo e, dessa maneira, fecha as portas ao conhecimento. A recusa da objectividade, em todas as suas formas (ceticismo, relativismo, subjectivismo etc.) conduz àquela indiferença (por vezes, disfarçada de "imparcialidade"...), de que fala Pascal: "Se não vos preocupais em saber a verdade, tendes o suficiente para estar tranqüilos. Mas se desejais de todo o coração conhecê-la, isso não basta" (Pens. 226).

 

 

M.: No entanto, deve haver alguma verdade no subjectivismo, pelo menos na defesa dos chamados "direitos humanos", de que tanto se fala...

 

AMC: Quanto ao subjectivismo, não há dúvida de que - até certo ponto e talvez só no início - a atitude de contemplação da subjectividade manifesta um certo apreço pelo homem, uma consideração pelos indivíduos (que, realmente, enquanto homens, merecem toda a atenção). Num princípio remoto - cheio, talvez de boa vontade - há, por trás do subjectivismo, uma espécie de amor aos indivíduos; quer-se dar relevo aos indivíduos e é por isso que, por exemplo, se fala muito dos direitos, dos direitos subjectivos. E as reivindicações de direitos enchem a sociedade inteira nos tempos actuais. Mas o que é que poderá haver neste excesso de reivindicações de direitos que manifestam tão claramente em nossos dias esse subjectivismo? O que pode haver é precisamente esses direitos não estarem fundamentados numa ordem objectiva que os confira, que os atribua aos indivíduos: só pode haver verdadeiro direito quando há um bem que o direito tutela (é o que qualquer aluno de estudos jurídicos sabe logo nos primeiros anos do curso que realiza). Não há nenhum direito subjectivo - e esse direito subjectivo é um poder, é uma faculdade - se não há uma ordem jurídica objectiva que lhe confira esse poder, essa faculdade. E faz parte da ordem jurídica objectiva, como da ordem moral, um bem objectivo que o sujeito deve tutelar ou pode tutelar, o bem jurídico ou interesse jurídico, em vista do qual o direito é atribuído, constituindo o substrato dele.

 

 

M.: Nos últimos tempos revelou-se a preocupação de não traumatizar os educandos através, precisamente, do ensino, tanto nas escolas como no recinto familiar. Não haverá certas formas de violência que se possam intrometer na própria educação, por desrespeito à verdade?

 

AMC.: Outras formas de violência, por desrespeito à verdade. Verificando uma experiência universal, tem-se dito que uma criança violentada - numa educação rigorista, por exemplo - se transforma em adulto violento. Quando libertamos um homem amordaçado e manietado, vemo-lo reagir provavelmente, num primeiro impulso, com gestos bruscos, que são expressão benigna da violência. Assim é também nas camadas mais profundas da pessoa. Como já disse, a mais profunda violência que se pode exercer sobre um ser humano é a que lhe amordaça a sua característica essencial da racionalidade. A paz tem raízes na profundeza do ser; e essa profundeza começa na inteligência: na expansão dela, não na sua asfixia. É exacto que o homem bom é aquele que ama - isso lhe basta para nele se gerar uma plena e saudável alegria de viver, cujo aroma trespassa a doçura da paz; mas, se amar é querer o bem, o homem só amará se souber "ver" o bem. Sim, está acima de toda a desordem e perturbação o homem que abre a razão à harmonia da realidade e a quer, que contempla a verdade do mundo, de si mesmo e, reconhecendo a bondade do ser em toda a sua rica variedade, a ama. Amar não é senão querer o Bem que a razão "vê". Nisso reside o essencial da harmonia com a realidade da vida; nisso reside também a raiz oculta da paz que imprime às ações humanas aquele ritmo vital, a que chamamos paz. É pois necessário o bem-querer. Um querer que começa em ver o bem. É nessa visão que se começa a forjar a bondade, nessa perfeição da razão, que se cifra precisamente em abrir-se à verdade das coisas reais, criadas por Deus. É assim que o homem, à sua maneira de criatura, vive a sua própria bondade, que o assemelha à bondade do Criador, naquele "ver e amar" que a Bíblia lhe atribui, na descrição da criação do mundo: "Deus viu todas as coisas que tinha feito, e eram muito boas" (Gn 1, 31). Educa-se uma pessoa para a verdade, animando-a a descobrir por si aquilo que não conhecia; respondendo com verdade, com veracidade a todas as perguntas. Numa criança que vai crescendo, o natural é o prolongamento daquele gesto infantil característico com que as crianças querem apalpar tudo o que encontram. É natural que uma pessoa que vai crescendo queira "apalpar", queira encontrar a realidade que deseja conhecer. Um educador acompanha este gesto espontâneo quando sabe propor perspectivas de abertura e nunca se fecha às perguntas do educando; quando responde a todas sem o enganar; quando o ensina a indagar o porquê e o para quê de tudo o que encontra. É dessa maneira que se cria uma confiança espontânea das pessoas na verdade e o desejo de atingir a verdade.

 

 

M: O senhor falou em imparcialidade. Como evitar que o interesse subjectivo em encontrar a realidade supostamente objectiva falsifique, com uma decisão a priori, a própria objectividade do conhecimento?

 

AMC: Esse interesse não é obstáculo, é estímulo. O homem não é puro pensar. Não há só conhecimento, mas, ao mesmo tempo, vontade de conhecer. O núcleo central que nos é dado no homem não se reduz à razão nem à vontade; resolve-se em cognição e volição simultaneamente. Não é exacto afirmar que o homem só quer o que conhece; a realidade inteira é que, além disso, o homem quer conhecer, antes de conhecer o que quer que seja. E essa inclinação para a verdade não colide com o encontro da verdade; favorece-o. O pegureiro que quer encontrar um oásis no deserto, decerto pode ser vítima duma miragem. No entanto, o interesse que ele tem em encontrar água não elimina a realidade da água quando efectivamente a encontra: esse encontro, essa descoberta é fomentada pelo interesse. Vejo o que está à minha direita. Mas é preciso que eu decida olhar antes de virar a cabeça. Infelizmente, quem decidir não encontrar a verdade, acaba por não a encontrar. Em contrapartida, o que está por trás e no início da descoberta da verdade objectiva, não é de forma alguma a indiferença, mas o interesse, o amor à verdade. Ninguém procura o que não lhe interessa. Está nisso em jogo a grandeza e a tragédia do homem.