156
Quando perguntaram ao faminto: "Quanto é dois mais dois?",
ele respondeu: "Quatro pães!"
157
"Lobo, fica longe das ovelhas porque a poeira
que elas levantam faz mal para teus olhos!"
"Não, pelo contrário! Esse pó é colírio para meus olhos".
158
"Deus, envia-nos um hóspede!", rezam as crianças...[1]
159
Por que o careca haveria de ser gentil com o barbeiro?
160
O macaco, aos olhos de sua mãe, é uma gazela.
161
Quem precisa de algo do cachorro, diz-lhe:
"Bom-dia, excelência!"
162
Quando Tannús (Toninho) precisava de nós,
nós o chamávamos simplesmente de Tannús,
mas agora que nós precisamos de Tannús,
temos de dizer: "Às ordens, venerável mestre!"
163
"Ah, é fiado? Então me vê dez quilos..."
164
Bate no cão, tua noiva compreenderá...
165
O rato aconselhou o dono da casa a matar o gato...
e a comprar queijo!
166
Foram ensinar o lobo a ler: "Diga A". "A ovelha".
"Diga B". "Bezerro".
167
Quebra o fio de sua roca
e saberás o que ela tem embaixo da língua[2].
168
"Cebola é um prato nobre", diz o pobre.
169
Ele entra com a mãe da noiva e sai com a mãe do noivo[3].
170
Ele deu os pêsames e chorou, mas nem sabe quem morreu.
171
Se o rico come cobra todos dizem:
"Que paladar mais refinado!"
Se é o pobre: "Pirou de vez!"[4]
172
"Mão na massa, Leila!" ([5])
173
Cão do príncipe, (é) príncipe (também)![6]
174
Não tendo achado nenhum defeito na rosa,
apelidaram-na de "bochecha vermelha"[7].
175
Quando perguntaram à mula "Quem é teu pai?",
ela respondeu: "O cavalo é meu tio!"[8]
176
Nunca o mercador diz: "Meu azeite está rançoso".
177
Uma coisa é receber as chibatadas; outra é contá-las...[9]
178
Economiza na alimentação do gato
e os ratos comer-te-ão as orelhas.
179
O avaro teme a pobreza, mas vive nela.
180
Será por inveja ou avareza? Ou por ambas?
181
"Que frio!", comentou o avaro
quando o filho viu o sorveteiro...
182
É o homem que ganha o dinheiro... ou é o contrário?
183
É o homem que gasta o dinheiro... ou é o contrário?
184
A avareza é a miséria no agora.
185
Ele almoçou na madrasta[10].
186
"Manhê! Kin'an quer um bolinho!"[11]
187
Tudo dói na madame; só sua garganta continua boa...
188
"Se eu sou príncipe e tu és príncipe,
quem é que vai atrelar o cavalo?"
189
Não te esforces por saber do luar ou do boato:
ambos acabarão por chegar até ti.
190
Não apares a barba diante de dois:
um dirá que ainda está longa; o outro, que ficou curta demais.
191
Um segredo de dois vira de dois mil.
192
O homem (insan) se constrói e se destrói
pela língua (lissan).
193
Ele aguçou os dentes no Tiz de um cão[12].
194
(Ele é tão salafrário que) É capaz
de roubar o penico de um presidiário.
195
Khara é khara mesmo depois
de ter atravessado o Eufrates (al-fara)[13].
196
Em cima dele, khara; embaixo dele,
khara, e ele ainda diz: "Olha que cheiro de khara!"
197
"Podem ficar tranqüilos: a raposa me garantiu
que não vai mais pegar galinhas"[14].
198
Aperta-lhe a mão, mas confere os dedos depois.
199
A desculpa foi pior do que a falta[15].
200
O lobo veio atacar as ovelhas. O cão tinha ido defecar[16].
201
Sim, o louco atirou uma pedra no poço,
mas nenhum dos mil cordatos que passaram por lá a retirou[17].
202
O ladrão é um só; os suspeitos, muitos.
203
Ladrão não rouba em seu quarteirão.
204
Que Deus me proteja a vinha... do meu vigia.
205
Quem rouba uma agulha, rouba um camelo.
206
A parede queixou-se ao prego: "Por que me perfuras?"
Ele respondeu: "Pergunte ao martelo!"
207
A culpa não é da D. Cida (a costureira),
mas de quem lhe passou as medidas[18].
208
"Malta não existe"[19].
209
Pronto! Chegou o juiz cassado e o ex-padre[20].
210
Barulho no tacho, só dos ossos...[21]
211
Perguntaram a Jiha: "Quando será a ressurreição dos mortos?"
Ele respondeu: "No dia em que eu morrer!"
212
O camelo não vê a própria corcova, mas só a de seu irmão.
213
O cão late porque late; o dono pensa que é para ele.
214
Se fazes tanta questão de ganhar, então joga sozinho.
215
O camelo que quer ver sua corcova, torce o pescoço.
216
O corvo quis imitar o passo (elegante)
da perdiz e perdeu o seu.
217
Se teu inimigo é o mosquito, vê nele um elefante.
218
"O asno é teu![22]"
219
"Sim, a comida não é tua, mas teu estômago é..."
220
A cólera começa em loucura e acaba em arrependimento.
221
A brasa amanhece cinza[23].
222
Nós o ensinamos a mendigar
e agora ele corre às portas antes de nós.
223
Apedreja o cão que deixou seu dono para te seguir.
VI - ENIGMAS E SUPERLATIVOS ORIENTAIS
Alguns provérbios vêm propostos em forma de enigma. Outros expressam saborosas formas intensivas peculiares ao Oriente.
224
O que é mais doce do que o mel? Vinagre grátis.
225
O que é mais doce do que haláwah?
A reconciliação após a inimizade.
226
Quem sabe melhor o que você realmente é?
Allah e seu vizinho.
227
Não há cansaço, senão o do coração.
228
Não há preocupação, senão a do casamento.
229
Não há dor, senão a de dente.
230
Não há distância, senão a do coração.
VII - VIRTUDES
Os provérbios louvam as virtudes, especialmente as que traduzem grandeza de alma, generosidade, determinação e franqueza, condenando ao mesmo tempo a estreiteza e a mesquinhez. Alguns dos mais sugestivos louvam também a sagacidade.
231
A mão que dá está sempre acima da que recebe.
232
Faze o bem e lança-o ao mar:
tu o reencontrarás mesmo que muito tempo depois.
233
Antes inimigo do príncipe (amyr)
do que do guardinha (khafyr).
234
Não há defeito que a generosidade não possa encobrir.
235
O asno vai a Meca, mas nem por isso torna-se Haj[24].
236
Sábio é quem estende seu manto
como se fosse tapete, e tolo é quem pisa.
237
Os segredos da arte, para quem os conhece,
estão escondidos sob um arbusto;
para quem não os conhece, sob uma montanha.
238
Se é para bater, machuca; se é para dar de comer, sacia.
239
Se é para se apaixonar, que seja por um príncipe (lua);
Se é para bater à porta, que seja à porta de um grande;
Se é para roubar, que seja um camelo (seda);
Assim, se te censurarem, pelo menos será por algo grande.
240
Melhor negar o favor do que fazer esperar.
241
Dou uma tâmara ao pobre
para sentir seu verdadeiro sabor.
242
"Desembainhou, use!"[25]
243
Quem pede leite, não deve esconder o pote.
244
Não dá para esconder a lança na mochila.
245
Como a agulha, veste os outros,
mas ela mesma continua sem vestimenta[26].
246
Meca não está longe para quem está
determinado a fazer a peregrinação.
247
Tu o jogas no mar e ele
volta com dois peixes na boca.
248
Ele comeu a isca
e ainda deu uma defecadinha no anzol.
249
A humildade é a rede com que se apanha a glória.
250
Não será a bondade a recompensa da própria bondade?
[1]. Naturalmente, com um hóspede na casa o tratamento e a comida melhoram...
[2]. O conselho é para que o homem não se deixe enganar pela aparência suave e gentil dessa moça bela e doce (sobretudo se ela quer casar com ele); seu verdadeiro caráter pode ser outro.
[3]. Diz-se do homem oportunista, sem princípios e sem convicções.
[4]. A irônica constatação da diversidade de juízos perante o mesmo ato praticado por um rico e um pobre é tema constante dos provérbios. Está presente na sabedoria da Bíblia - "O rico pratica uma injustiça e ainda se mostra altivo; o pobre sofre uma injustiça e ainda precisa pedir desculpas" (Eclo 13,3), ou "Rico tropeça, todos o socorrem, rico diz tolices, todos o aplaudem; pobre fala, dizem <<Cala a boca>> e, se tropeça, derrubam-no de vez" (Eclo 13, 22-23) - e nos pára-choques de caminhão: "Rico correndo é atleta; pobre, ladrão!" etc.
[5]. O Oriente, o juramento. A cada passo, por qualquer ninharia, jura-se. Jura-se pelas barbas do profeta, pelo amor dos meus filhinhos, pelo sol e pela lua, pela manhã e pela noite, pelo Alcorão e pela Bíblia... O árabe, a emoção, o pranto. O exagero. Os acalorados juramentos não deixam de ser suspeitos, mas como defender-se da chantagem emocional que eles veiculam? A distância crítica, para manter a objetividade, tem uma grande defesa: a do bom humor, avalizado por este antigo provérbio que, no original, contém apenas duas palavras. Trata-se do proverbial episódio do beduíno que roubara um saco de farinha. Diante do juiz, foi-lhe exigido um juramento de inocência. Sem pestanejar, ele jurou, pensando consigo mesmo: "Leila, minha mulher, pode estar agora fazendo pastéis com aquela farinha. Farinha roubada, Deus é testemunha, eu não tenho".
[6]. Deve-se estender a consideração que se tem por uma pessoa a seus parentes e amigos, mesmo que, em si mesmos, não nos despertem os mesmos sentimentos.
[7]. Como se sabe, os invejosos, por despeito, acabam criando uma pseudo-realidade para dar vazão a seus sentimentos pusilânimes.
[8]. Refere-se alguém de origem humilde que, no entanto, está sempre evocando suas relações (longínquas...) de parentesco com personagens ilustres.
[9]. Usado como resposta para aquele que, após ouvir as queixas do interlocutor, diz apenas: "Mas, isso não é nada" ou "Você não deve se preocupar" etc.
[10]. Diz-se daquele que, sim, almoçou, mas muito mal...
[11]. Kin'an e seu irmãozinho mais velho esperavam impacientemente, ao pé do fogo, a chegada do pai, enquanto a mãe fritava aromáticos bolinhos. Querendo abreviar a espera, mas sem se expor, o mais velho disse: "Manhê! Kin'an quer um bolinho!" A frase tornou-se proverbial.
[12]. Relaciona-se o maledicente com as partes mais vis do cão (que, em si, já é considerado um animal impuro).
[13]. O sem-vergonha sempre será sem-vergonha (rimado no original).
[14]. Frase irônica para desmontar no ato as declarações de emenda de um salafrário.
[15]. Conta-se que Harum ar-Rachid, passeando um dia com Abu Nuwas, pediu-lhe uma ilustração desse antigo mathal que lhe parecia demasiadamente abstrato. Abu Nuwas aproximou-se do califa com um sorrisinho malicioso e deu-lhe um maroto beliscão no braço. O califa, indignado, interpelou-o: "Não me lembro, ó insensato, de ter-te permitido tais liberdades". Ao que Abu Nuwas imediatamente respondeu: "Perdão, Majestade, não vi que era o senhor; pensei que fosse a rainha".
[16]. Usado para atalhar as desculpas esfarrapadas do encarregado irresponsável que falhou precisamente na hora em que era mais necessário.
[17]. Nem toda a culpa é de um só; os omissos também são responsáveis.
[18]. O nome da costureira no original é Emm Elyas, que rima com qyas, medida.
[19]. "Malta yoq!" Resposta às desculpas esfarrapadas que se dão para justificar omissões culpáveis: "Desculpe, todas as máquinas de xerox lá da faculdade estavam quebradas...", ou "Passei na farmácia, mas não tinha aspirina..." Procede do proverbial episódio ocorrido no tempo em que a Turquia, guerreando contra a Inglaterra, encarregou o almirante de ocupar a ilha de Malta. O almirante partiu e voltou, após algum tempo, dizendo que não tinha encontrado nenhuma Malta: "Malta não existe!" A forma verbal yoq é turca e expressa uma característica típica e decisiva do sistema de língua/pensamento uralo-altaico. O sistema língua/pensamento árabe é ma'na - intencionalidade - ao passo que no sistema grego (e indo-europeu em geral), centrado semanticamente no verbo "ser", os membros da frase se agrupam em ordem circular em torno de um verbo. O sistema uralo-altaico, no entanto, é estritamente linear, com um par de verbos que designam respectivamente a existência ou a não-existência: em turco "var: existe... tal coisa" e "yoq: não existe... tal coisa". Se o indo-europeu é um sistema de enunciação explícita, o uralo-altaico é de simples constatação.
[20]. Aplica-se quando alguém - sem que ninguém o tenha pedido - anda sempre com longos, elaborados e ressentidos discursos em defesa própria, mostrando conhecimento formal (sabem citar a lei civil e canônica com desenvoltura), mas sem jamais reconhecer seus próprios erros...
[21]. É uma verdade empírica que aquele que tem menos valor é o que mais se empenha em aparecer.
[22]. Como se sabe, certos provérbios e expressões estão ligados a histórias ou anedotas, resumindo-as numa breve sentença. É o caso, entre nós, da expressão "o amigo da onça", proveniente daquela piada do caçador que está narrando ao amigo os percalços de seu encontro na selva com uma onça e o amigo, impaciente por saber o fim da história, interrompe com perguntas que antecipam a tragédia: "E a sua espingarda, não funcionou?", "E, aí, você escorregou?" Até que o caçador se aborrece e indaga: "Espera aí, afinal, você é amigo meu ou amigo da onça?" Neste provérbio 218, a história subjacente é a seguinte: um homem morreu e deixou, em testamento, seu asno para o mais preguiçoso dos três filhos. Perante o juiz, o primeiro filho relatou que um dia, no rio, com água até o pescoço, era tanta a sua preguiça que teria morrido de sede, mas não se sentia capaz de curvar o pescoço para beber. O juiz já ia dar-lhe o asno quando o segundo contou que também morria de sede em sua cama e, por preguiça, não era capaz sequer de abrir os lábios para acolher a água que caía de uma goteira situada bem em cima de sua boca. Já ia o juiz adjudicar-lhe o legado, mas antes quis interrogar o terceiro, que permanecia em silêncio. Este, indagado, respondeu: "Eu... eu... sei lá... dá o asno prá quem cê quisé, isto me cansa tanto..." Ao que o juiz, imediatamente, ajuntou: "Miserável, preguiçoso dos preguiçosos: o asno é teu!", frase usada até hoje para acusar a preguiça de alguém.
[23]. Acalme-se, a raiva passa. Com o tempo você verá as coisas mais serenamente etc.
[24]. Haj é a denominação de distinção do muçulmano que já fez a peregrinação.
[25]. Próximo ao nosso "ajoelhou, tem que rezar", convite a, como diz o Riobaldo de Guimarães Rosa, "executar o declarado, no real". Diz-se, entre muitas outras situações, quando alguém começa a contar um episódio e, subitamente, dá-se conta de que é imprudente prosseguir e quer interromper o relato (alegando que já não se lembra..., ou que não é interessante...). Ou quando alguém, enfurecido, pede licença para usar uma palavra mais forte: "O que ele fez, com o perdão da palavra, foi uma... sujeira". O interlocutor acrescenta: "Desembainhou, use!"
[26]. Diz-se (como elogio ou reprimenda) de pessoas tão ocupadas com os outros que se esquecem de si mesmas; de um médico, por exemplo, que de tanto trabalhar perde a própria saúde.