250 Provérbios Árabes

 

Luiz Jean Lauand
(Faculdade de Educação da USP)
jeanlaua@usp.br

 

I - REALISMO

Ser realista é saber tomar decisões acertadas, levando em conta um único fator: a própria realidade. Esse realismo é lucidez que permite ver com que pessoas e com que recursos se pode contar, é objetividade para prever as conseqüências de uma ação, é capacidade para escolher os meios adequados tendo em mira a consecução de um determinado fim, sem permitir que o medo, a covardia, a precipitação e os interesses interesseiros influenciem negativamente essas avaliações e decisões. Curiosamente, o árabe combina uma refinadíssima sensibilidade poética com o mais prosaico realismo, em que o fato bruto é o que conta. Muitos provérbios nomeiam, expressam e aconselham o voltar-se para a realidade.

1

Eu já falei que é boi,

mas ele insiste em querer ordenhar...

2

Ele procura mel no traseiro da vespa[1].

3

Guardo-me de fazer com as mãos

o nó que deverei desfazer com os dentes.

4

Come-se grão a grão o que se expele aos blocos.

5

Fez do lobo o guardião das ovelhas.

6

"Só entre nós, hein, capitão?!"[2]

7

O chacal engoliu a foice;

ouçam seus uivos depois para expeli-la[3].

8

Mede antes de cortar (o tecido).

9

Louco é o viajante que quer

construir uma casa no caminho.

10

Vender e arrepender-se é melhor

do que não vender e se arrepender.

11

Dá teu pão ao padeiro,

mesmo que ele coma a metade[4].

12

Não pressiones demais o covarde

que ele vira valente.

13

Eu te conheço, alfarroba...![5]

14

Comer a alfarroba não é tudo...[6]

15

A cova do leão sempre tem ossadas...

16

Eu não tenho medo do alif, mas do que vem depois![7]

17

Não comas alho e não cheirarás a alho.

18

Por que estranhas que venha na concha

o que tu mesmo colocaste no pote?

19

Quem fica com a viúva, fica com os filhos.

20

Quem quer comer o pão do rei, deve cortá-lo com a espada.

21

Ceguinho, ceguinho... aumentou o preço do lampião![8]

22

Por Abu Bakr, segura essa cobra![9]

23

Muro baixo, o povo pula.

24

Come verdes os teus frutos,

antes que o ladrão os roube maduros.

25

Se conseguiste escapar do leão,

não tentes caçá-lo[10].

26

Sim, ela concebeu em segredo,

mas vai parir em público...

27

Quem diz que o leão é um jumentinho,

que vá pôr o cabresto nele.

28

Quem quer ficar bêbado não fica contando os copos.

29

O camelo riu uma vez na vida

e rasgou os lábios para sempre.

30

Aquele que está saindo de vez, "apronta"[11].

31

Quem comete o mal, comete-o contra si mesmo.

32

Qualquer coisa que a mulher louca cozinhe,

o marido cego come.

33

Queres destruir a mesquita para erguer um minarete?

34

"Teu moinho gira para a direita ou para a esquerda?"

"Sei lá, o importante é que ele me dá farinha!"

35

Plantamos o "se", nasceu o "eu gostaria"...

36

Disseram ao prisioneiro: "Vamos te casar

com uma moça muito bela e muito rica".

"Ótimo, respondeu ele, mas soltem-me primeiro".

37

Não digas: "Smallah!",

antes que o camelo se levante[12].

38

"Caíste sozinho ou foi o camelo que te arremessou?"

"Tanto faz: o fato é que eu caí".

39

É como pedir ao camelo para tocar flauta[13].

40

(Isto é) Peixe no mar[14].

41

Sim, meu príncipe, era mesmo uma pomba,

só que agora já voou...[15]

42

Você quer pegar as uvas ou... matar o guarda?[16]

43

Todo pedido de autorização será negado...[17]

44

Não adianta querer apressar o camelo[18].

45

Janta-o antes que ele te almoce.

46

Conhece-se o mau trabalhador no meio da tarde.

47

Um povo sem gente grosseira está perdido[19].

48

Não gaste duas palavras se uma única basta.

II - AS IDIOSSINCRASIAS

As pessoas são diferentes: cada uma tem seu temperamento, sua formação, seu modo peculiar de encarar a vida. Muitos provérbios apontam para essas desigualdades, para a relativa imutabilidade do modo de ser de cada um, para a influência das circunstâncias na educação.

49

A galinha sempre cisca. Mesmo sobre um monte

de trigo, ela continua ciscando[20].

50

O caipira é caipira,

mesmo que tome sopa em colher de chá[21].

51

Alimenta teu cão e ele guardará tua casa;

faze jejuar teu gato e ele te comerá os ratos[22].

52

Bastou elogiarmos a limpeza do gato,

e ele foi e defecou no depósito de farinha.

53

Uma pequena ferida detém o camelo[23].

54

Não é por amor a Deus que o gato caça os ratos.

55

O gato (aproveita e) deita-se em cima do doente.

56

Quando disseram ao gato que o seu excremento era útil

ele começou a enterrá-lo.

57

Levaram o asno para a festa de casamento:

ele começou a zurrar e pedir

que o carregassem com os fardos de sempre.

58

"Corvo, roubar sabão? Para quê?"

"Roubar é da minha natureza".

59

"Há quanto tempo?"

"Claro, tu não vais à mesquita, e eu não vou ao cabaré..."

60

Tu és o que te habituaste a ser.

61

A repetição deixa sua marca até nas pedras.

62

Pela repetição, até o asno aprende.

63

É do mal-educado que se aprende a boa educação.

64

Não amarres asno novo perto de mula velha,

porque, se ele não aprender a escoicear,

aprenderá a zurrar.

65

Pai dele, alho; mãe, cebola. Como pode ele cheirar bem?

66

A palavra é o aroma do homem.

67

Só sacia sua sede quem bebe pela própria mão.

68

Manta emprestada não esquenta.

69

Só a tua unha é capaz de te coçar direito.

70

O rato caiu do telhado. O gato: "Que Deus te ajude!"

O rato: "Tira a pata de cima e deixa que eu cuido de mim".

71

O sitiado é sempre o vencido.

72

Desde quando o mendigo... impõe condições?

73

Enquanto fores bigorna, agüenta; quando fores o martelo, bate!

 

III -  A CONDIÇÃO HUMANA

As limitações, as contingências, as dificuldades, a dor, as contrariedades e desgostos (e, também, os consolos e a ação da divina providência) estão presentes nos provérbios de todas as culturas. Os provérbios árabes, certamente, também fazem esses registros e procuram orientar o homem para que viva sabiamente em sua realidade. Mas, para além de qualquer fatalismo, alguns amthal apontam também para o fato de que das dificuldades podemos tirar proveito em termos de vivência e crescimento enquanto seres humanos.

74

O mar brigou com o vento e quem virou... foi a barquinha[24].

75

Por causa da rosa, a erva daninha acaba sendo regada[25].

76

Se te perguntarem: "Viste um asno cinza?",

responde: "Nem cinza, nem preto, nem branco.

Não vi asno nenhum!"[26]

77

Entre Hâna e Mâna, lá se foi minha barba...[27]

78

Os barbeiros aprendem a usar a navalha

na cabeça dos órfãos.

79

É como a peregrinação a Meca:

quem diz que é fácil, blasfema;

quem diz que é trabalhosa, blasfema.

80

Quando Deus fecha uma porta, abre outra.

81

Deus, que é eterno, faz com que cada um tenha o seu dia.

82

Deus bate com a esquerda e ampara com a direita.

83

Tema quem não teme a Deus.

84

Quem teme o inferno não irá para o inferno.

85

(Tão pobre que...) As formigas saíram

da cozinha dele com fome.

86

O pobre achou uma tâmara seca no caminho

e disse-lhe: "Aonde devo ir para te comer em paz?"

87

Não aconselhes o tolo:

em qualquer caso ele te culpará depois.

88

Com um bom conselho, antigamente ganhava-se um camelo;

hoje, a inimizade...

89

Quem não tem um velho, deve comprar um![28]

90

Quem não provou o amargo não sabe apreciar o doce[29].

91

O óleo só se extrai com a prensa.

92

O incenso só exala seu perfume se queimado.

93

"Tudo bem, foste criado por Deus...

Mas e eu? Pelo funileiro?"

94

A vida é assim: um dia a favor, outro contra...

isto para os mais afortunados.

95

A chuva é um benefício, mas chateia.

96

A chuva chateia, mas é um benefício.

97

A dor mais amarga é a dor presente.

98

Se cuspo para baixo, cai na barba;

se cuspo para cima, cai no bigode.

99

Ano ruim tem 24 meses...

100

O mundo é um moinho d'água:

os que têm se esvaziam;

os que não têm recebem em abundância...

101

Ele começou a multiplicar os quintos pelos sextos...[30]

102

Cada um tem o seu dia!

Ó adversidade, tu também terás o teu!

103

Interminável como o Ramadã!

104

Há, na terra, lugar para todos.

IV -  OS OUTROS

Os provérbios contemplam o outro em diversas dimensões: as relações de amor/ódio, de amizade/inimizade, de parentesco (com destaque especial para a sogra), de vizinhança etc. Aconselham também sobre a mulher, as visitas, os sócios, os deveres de hospitalidade, os chatos e inoportunos, sobre as relações com os poderosos e assim por diante.

105

"De que filho a senhora gosta mais?"

"Do pequeno, até que cresça; do ausente,

até que volte; do doente, até que sare".

106

Se encontras teu amigo montado num pedaço de pau,

felicita-o pelo corcel de raça[31].

107

Eu não espanto os pássaros da árvore que me deu frutos amargos.

108

"Meu amigo, meus olhos, luz da minha vida!,

mas... longe de minha bolsa!"

109

Não te cases com uma moça cujos

parentes morem nas proximidades;

não alugues casa cujo dono seja o vizinho.

110

"Nora, nora... um dia também serás sogra!"

111

Em mil noras pode haver uma que ame a sogra;

em duas mil sogras pode haver uma que ame a nora.

112

A sogra já foi nora, mas... esqueceu!

113

Lar, doce lar..., que escondes todos os meus defeitos!

114

A cada refeição, uma briga;

a cada bocado, um aborrecimento[32].

115

Deus seja tão bom contigo que te dê vizinhos sem olhos.

116

Antes de examinar a casa (para comprar),

examina os vizinhos.

117

Rancor (astúcia) de homem é rancor;

rancor (astúcia) de mulher, rancores (astúcias)[33].

118

A cadeia é para os homens; as lágrimas, para as mulheres.

119

"Reconcilio-me com a minha mulher,

se ela romper com a vizinhança".

120

É a mulher que faz ou desfaz a casa.

121

Se é um homem quem te dirige ameaças,

podes, de noite, dormir tranqüilo;

se é uma mulher,

podes começar a passar as noites em claro...[34]

122

Consulta tua mulher e faze o contrário do que ela te disser.

123

Limpa tua casa, pois não sabes quem baterá à tua porta;

lava teu rosto, pois não sabes quem o beijará.

124

Visita sem presentes é melhor

do que a que te traz um carneiro[35].

125

Não visitar pode ser uma obra de misericórdia.

126

Não comas o pão servido por alguém

que depois irá te lembrar da oferta.

127

Não dá trela ao desocupado: ele fará de ti a sua ocupação.

128

Um rosto sorridente é melhor até do que a hospitalidade.

129

Se visitas um cego, fecha também teus próprios olhos.

130

É no comer que se mostra a afeição (pelo anfitrião).

131

O último pedaço é para o predileto[36].

132

"Ôpa! Não é por eu ter dito <<Enterra-me>>

que agora vais pegar a pá[37].

133

"Ôpa! Tá certo que dissemos <<A casa é tua!>>,

mas não vás agora trancar a porta e levar a chave.

134

Quando os beduínos começaram a ter abundância de manteiga,

usaram-na para limpar o traseiro.

135

(Prefiro) A opressão do gato à justiça do rato.

136

Se há muitos comandantes, o navio afunda.

137

Quem ocupa o poder tem metade das pessoas contra si...

isto, se ele for justo.

138

Pensávamos que o sultão fosse um sultão,

mas ele é um homem.

139

Jiha morreu e pensávamos estar finalmente livres dele. Aí ele apareceu, dizendo "Oi, pessoal!"[38]

140

Na minha noite de núpcias

ele vem pedir-me emprestado o pandeiro.

141

Se queres arrumar briga, procure,

no final da tarde, quem estiver jejuando.

142

Dor de dente... bem no dia do casamento[39].

143

Ele esteve nos explicando que água é água[40].

144

Quem é mais velho: Jiha ou o pai dele?

145

"Cospe a pedrinha, Mansur!"[41]

146

Ó, verdureiro, o que é que você vende?[42]

147

Se fazer sociedade fosse bom,

cada dois casariam com uma mulher.

148

Fazer sociedade é sempre desastroso (halkah),

mesmo se feita no caminho da peregrinação a Meca (Makkah).

149

Uma mão só não bate palmas.  

V - DEFEITOS, VÍCIOS E MANHAS

Como era de esperar, os provérbios fustigam defeitos e atitudes viciosas. Nesta seleção, destaca-se a falta de objetividade para apreender realidade, causada pela interferência distorcedora de vários fatores de envolvimento subjetivo, como o preconceito ou o oportunismo. Abordam-se também temas como o da mentira, da hipocrisia, da manha, da figura do salafrário, da avareza, da língua, das culpas e das desculpas (esfarrapadas), da vaidade, do egoísmo, da gula, da preguiça etc.

150

Rasgou as roupas e começou a gritar:

"Náufrago! Náufrago!"

151

Ele joga a pedra e depois diz: "É o destino".

152

Defeito que agrada o sultão, vira virtude.

153

O santuário próximo não cura...

154

Com a mentira se consegue o almoço, mas não o jantar.

155

Os maiores mentirosos são o jovem emigrado e o velho cujos contemporâneos morreram.

continua



[1]. Além de não encontrar mel, expõe-se ao ferrão que, como se sabe, está localizado precisamente no traseiro da vespa...

[2]. Como ocorre freqüentemente nos provérbios, é a vida que fornece casos exemplares que, depois (por vezes, séculos depois...), se aplicam no dia-a-dia... Ante a indiscrição do simplório, diz-se: "Só entre nós, hein, capitão?!", e o interlocutor já entende a sua "gafe"... Eis a história: uma tropa estava no encalço de três desertores que, tendo implorado misericórdia, foram acolhidos por um homem que os escondeu em sua casa. O capitão, ao ver esse homem à porta de casa, perguntou-lhe: "Acaso você viu passar por aqui uns soldados fugitivos?" O interpelado dirige-se, pé ante pé, ao capitão, toma-o à parte - como que confidenciando um segredo, de que, espera, o outro não faça uso - e diz: "Só entre nós, hein, capitão, eu acabo de esconder alguns soldados". Evidentemente, o capitão ordenou a imediata execução dos desertores... Esta expressão se aplica, por exemplo, ao rapaz que mostra ao primo "beatlemaníaco" o disco raríssimo que faltava à sua coleção ("Mas só mostro se você prometer que não vai querer levar, hein?"). "Só entre nós, hein, capitão?!", dirá o primo, despedindo-se depois de se ter apropriado do disco.

[3]. O chacal, como se sabe, vai comendo tudo, alegremente, indiscriminadamente...

[4]. Em qualquer caso, melhor do que recorrer à improvisação amadora é confiar o serviço a um profissional.

[5]. O fruto da alfarroba é comestível e ligeiramente adocicado, mas produz forte constipação... Dirige-se este dito a alguém com certas qualidades, já conhecidas como meramente aparentes. Mais ou menos equivalente ao nosso: "Quem não te conhece, que te compre!"

[6]. Pois haverá conseqüências...

[7]. Aplica-se a inúmeras situações em que alguém se recusa a começar algo por temer o rumo que aquilo terá. Responde-se: "Eu não tenho medo do alif, mas do que vem depois" ante certas insistências: "Vamos lá, um copinho só...", ou "Você não poderia se encarregar, neste ano, de organizar o almoço de reencontro da nossa turma de formatura?", ou "Por que você não faz doutorado?..., no exame de inglês você passa...", "Por que você não aceita ser síndico de nosso prédio?" etc. A sentença procede de um caso que se tornou proverbial. Um garoto, recém-enviado à escola (e bem ciente das longas horas de lições de casa a que estavam submetidos seus irmãos mais velhos), recusava-se terminantemente a aprender a ler. Por mais ameaças e castigos que sofresse, continuava resistindo a pronunciar o alif (a primeira letra do alfabeto). O professor comunica o fato ao pai que, após infrutíferas surras, dirige-se docemente ao menino: "Meu filho, por que essa teimosia? O alif não vai te fazer nenhum mal, por que você tem medo do alif?" Ao que o garoto respondeu: "Eu não tenho medo do alif, eu tenho medo é do que vem depois..."

[8]. Equivalente aos nossos: "E eu com isso", "E eu com a Light?"

[9]. Diz-se quando o interlocutor pede uma tarefa impossível a quem não tem nada que ver com o caso: Abu Bakr não representa nada para quem não é sunita. E pedir para segurar uma cobra...

[10]. Diz-se ao imprudente que torna a se expor a perigos dos quais acabou de escapar.

[11]. Cuidado com quem vai deixar o país, o emprego etc.

[12]. O camelo, ao levantar-se, oferece um espetáculo grandioso quando ergue sua enorme massa de um só golpe. É tão imponente que, instintivamente, vem à boca a interjeição de admiração e espanto, misto de prece e de louvor: "Smallah!" - "Meu Deus!", "Deus te conserve!", "Que beleza!". O efeito é tanto mais surpreendente quando, ainda há um minuto, o camelo estava calmo, aparentemente indolente, largado no solo.

[13]. Como se sabe, os lábios do camelo não fecham e seus dedos não se movem...

[14]. Diz-se quando alguém quer vender ou usar um bem de que ainda não dispõe.

[15]. É preciso aproveitar a ocasião. Este provérbio é o desfecho da conhecida história em que, numa caçada, o príncipe em vez de disparar logo sobre o objeto, enredou-se em longas discussões com seus acompanhantes sobre se se trataria de uma pomba ou de uma pedra, até que o objeto (era uma pomba mesmo) escapou voando...

[16]. Quando já se obteve o que se queria, o melhor é ir embora quanto antes, sem expor-se inutilmente...

[17]. Vá em frente, faça primeiro e peça autorização depois.

[18]. O camelo tem seu ritmo próprio, inalterável; a vida (os empreendimentos, os projetos etc.) também. É preciso aceitar a realidade como ela é, encarar os fatos com naturalidade...

[19]. Os outros abusariam de sua bondade...

[20]. Para referir-se ao fato de que o temperamento de uma pessoa não muda.

[21]. No original deste (e de muitos outros provérbios) aparece o Law, o se condicional árabe, usado freqüentemente para situações impossíveis ou muito improváveis.

[22]. As pessoas são diferentes e devem ser tratadas de modo diferente.

[23]. O camelo que não pára por nada (enfrenta o sol, as cargas, as longas marchas...) detém-se imediatamente quando sofre um ferimento, por mínimo que seja. Assim também, uma palavra que fere...

[24]. Emprega-se em situações nas quais quem "paga o pato" é o mais fraco e não tinha nada que ver com a briga dos poderosos, que continuam incólumes...

[25]. É uma espécie de contraponto do anterior.

[26]. Corte pela base. Com a resposta categórica, evita-se perda de tempo e também outras complicações, como a de o interlocutor querer verificar, em seu estábulo, se o asno dele (ou, eventualmente, algum parecido...) está lá, etc.

[27]. Um muçulmano tinha duas esposas, Hâna e Mâna, uma jovem, outra velha; a ambas demonstrava igual afeto. No entanto, por ciúmes, a velha arrancava-lhe, carinhosamente, os fios pretos da barba, e a jovem os fios brancos, até que por fim o pobre homem ficou sem barba...

[28]. Valorizando a sabedoria (nem sempre reconhecida...) do ancião.

[29]. Este provérbio e os dois seguintes aludem ao lado positivo das provações.

[30]. A situação se tornou de tal forma difícil (e ameaçadora...) que ele se viu obrigado a tratar seriamente do assunto, chegando a detalhes complicados e trabalhosos...

[31]. O amigo sempre é valorizado. Rimado no original: 'amwd / 'awd.

[32]. As brigas acontecem em casa...

[33]. A formulação original joga com o singular e o dual (número característico do árabe): rancor de homem é um rancor; rancor de mulher, dois rancores.

[34]. Ao tratar de provérbios, é sempre oportuna a referência à Bíblia, não só pelos milhares de provérbios que ela mesma contém, mas também porque estão vazados em língua semita, muito próxima do árabe. Feghali chega a dedicar uma seção inteira a provérbios bíblicos que se tornaram provérbios árabes. No caso deste provérbio 121, nota-se o eco dos milenares conselhos dos livros sapienciais da Bíblia. O Eclesiástico, após enunciar, em seu cap. 25, as desgraças superlativas ("Qualquer ferida, menos a ferida do coração; qualquer miséria, menos a miséria causada pelo adversário; qualquer injustiça, menos a injustiça que vem do inimigo..."), desfecha: "Prefiro morar com um leão ou com um dragão a morar com uma mulher perversa... Pouca maldade é comparável à da mulher". E, mais adiante, também em sistema comparativo semítico: "É melhor a maldade de um homem do que a bondade de uma mulher" (Eclo 42,14). Já o livro dos Provérbios diz: "Melhor é morar no deserto do que com uma mulher iracunda" (Prov 21,19); "Melhor é morar no canto de um teto do que numa casa com uma mulher briguenta" (Prov 25,24); "Goteira pingando sem parar em dia de chuva e a mulher briguenta são semelhantes" (Prov 27,15). Do mesmo modo, o provérbio seguinte refere-se à também milenar idéia de que a mulher não é boa conselheira.

[35]. O presente impõe obrigações. Há outra formulação rimada, semelhante a: "Um presente? Não me atormente".

[36]. No original: Al-fadlah lil-fadyl. Esta frase feita vale-se da multiplicidade de sentidos da raiz F-D-L, conhecida até mesmo dos alunos principiantes pela expressão Min fadlika (Por favor!). F-D-L indica ainda a virtude, o jorrar, o transbordar, de tal modo que o provérbio poderia ser traduzido também como "O que sobra é para o virtuoso".

[37]. É bem conhecido o espírito de acolhimento oriental e suas desconcertantes - sobretudo para padrões europeus nórdicos - manifestações de carinho (por palavras ou por gestos) em fórmulas que, para o ocidental, parecem exageradas. O Alcorão prescreve, p. ex. (IV, 86), retribuir uma saudação com outra mais intensa ou, pelo menos, não inferior (naturalmente, a reação em cadeia deflagrada por um simples bom-dia pode durar uma eternidade). Nesse sentido, Cristo, que tão bem sabe valorizar a hospitalidade e as formas humanas de acolhimento (cfr. Lc 7,44 e ss.) tem que recomendar aos discípulos enviados em missão: "A ninguém saudeis pelo caminho" (Lc 10,4). É um problema de aproveitamento do tempo numa missão urgente! Neste campo das saudações e das manifestações de carinho, o refinado Oriente está a anos-luz de distância do primário Ocidente... Por exemplo, o ocidental, perante uma visita que se despede, diz: "Vê se aparece!" (com o que - consciente ou inconscientemente - parece afirmar: Nós somos pessoas muito importantes, interessantes, bonitas... e autorizamos você - que não é nada disso... -, a vir ver-nos, pois, nós, além do mais, somos também generosos etc.). Já o oriental despede-se da visita dizendo: Ismah lana nashufak! - Permita que nós o vejamos (você é a pessoa importante, etc. etc...). Evidentemente, o exagero das formas (que, em todo caso, no Oriente, não é mero formalismo) requer o necessário corretivo do bom humor dos provérbios. Assim, uma das fórmulas mais fortes para manifestar o carinho é Taqbarny, "Enterra-me!" (com o que se diz: eu quero que você sobreviva a mim, eu não saberia viver sem você etc.), está aqui temperada por esse mathal.

[38]. Jiha, espécie de Jeca Tatu ou Pedro Malazarte, é personagem constante de provérbios e histórias populares.

[39]. Os problemas, ainda por cima, vêm na hora errada...

[40]. Este e o próximo provérbio aplicam-se ao chato que se demora em explicar o óbvio.

[41]. Frase que se tornou proverbial. Mansur era um "boca-suja", sacristão de um bispo, que tentava inutilmente corrigir-lhe a linguagem, permeada de palavrões. Até que lhe ocorreu a idéia de que Mansur mantivesse uma pedrinha na boca para ajudá-lo a lembrar-se de evitar expressões indecorosas. Num certo dia de intenso calor, o bispo percorria a estrada - a pé, acompanhado por Mansur -, em visitas pastorais, quando ouviu uma velha que com insistência chamava por ele, do alto de um morro. Quando os dois acabaram de subir a penosa encosta, a velha explicou que o chamara para abençoar sua ninhada de pintinhos... O bispo, passando o lenço na testa, voltou-se para Mansur (também ele furioso...), dizendo: "Tudo bem, Mansur, pode cuspir a pedrinha!"

[42]. Diz-se em resposta a perguntas idiotas ou a truísmos.